Dragões

Escrito por echtelion13. Publicado em Raças

As Guerras de Beleriand foram marcadas por inúmeras batalhas entre Elfos, Anões e Homens contras as hostes de Angband. Embora o grosso dos exércitos de Morgoth fosse constituído por Orcs, inúmeras criaturas habitavam os abismos negros da “prisão de ferro”. Entre as mais misteriosas e fascinantes destas criaturas contavam-se os Dragões, obra do engenho diabólico de Morgoth. A forma como o Vala conseguiu criar estas terríveis, mas admiráveis, criaturas permanece um mistério, mas o seu propósito era claro: aniquilar por completo todos os que se lhe opusessem.

Tolkien demonstrou sempre uma profunda admiração por estas criaturas mitológicas, e em “Beowulf: The Monsters and the Critics” define-as como “a personificação da malícia, da avareza, da destruição (o lado mau da vida heróica) e da crueldade indiscriminada da fortuna que não distingue entre bom e mau (o lado negro da vida em geral)”. Esta natureza vil dos Dragões impede-os de assumir um outro papel na mitologia tolkieniana que não seja o da destruição, explanada ao serviço de Morgoth. A ligação de Melkor com as suas criações era extremamente profunda na medida em que o seu [de Melkor] espírito maldito enchia os terríveis olhos destas bestas.

Os Dragões que povoavam a Terra Média não eram todos iguais, distinguindo-se entre si com base em duas características: a capacidade de voar e a capacidade de “cuspir” fogo. No que concerne à capacidade de voar a dúvida reside no facto de estarmos perante uma evolução natural dos Dragões ancestrais, ou se, de um ponto de vista menos darwiniano, de um aperfeiçoamento da sua obra por parte de Morgoth. Não obstante esta questão, não existe dúvida alguma que a capacidade aérea de que os últimos Dragões da 1ª Era estavam equipados lhes dava uma vantagem enorme sobre quase todos os seus oponentes, tornando-os praticamente invulneráveis.

A segunda distinção entre estas criaturas provém sobretudo de uma referência na Apêndice A de “O Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei” que atesta a morte de um Rei dos Anões (Dáin I) e de seu filho (Trór) por obra de um “Cold-drake”. Ao definir este dragão com sendo “frio”, Tolkien coloca-o em contraste com os Urolóki, os Dragões de fogo, implicando isto que não possuiria como estes últimos a capacidade expelir fogo. De acordo com o “Tolkien Bestiary” de David Day, esta seria a mais comum das raças de Dragões da Terra Média, compensando a falta de capacidade ígnea com uma grande força de garras e mandíbulas.

Preparados em segredo por Morgoth nas profundidades de Angband, os Dragões apareceram pela primeira vez ao mundo exterior na forma de Glaurung, o Pai dos Dragões. O Grande Verme saiu de Angband com o intuito de criar o pânico nas hostes Noldor que faziam o cerco ao refúgio de Melkor. No entanto, cercado pelos arqueiros de Fingon, Glaurung acabou por bater em retirada; embora esta primeira “excursão” tenha resultado em fracasso, é preciso referir que se tratou de um ímpeto de juventude de Glaurung que ainda não tinha atingido a maturidade. Dois séculos mais tarde, na plenitude da sua força, Glaurung liderou a hoste de Dragões que dizimaram os opositores de Angband na Dagor Bragolach. Este exército de vermes de Morgoth voltou a criar o caos entre as forças de Beleriand na Nirnaeth Arnoediad, onde só a coragem dos Anões de Belegost os impediu de fazer mais estragos. Mais tarde, Glaurung liderou o saque a Nargothrond e os seus descendentes tiveram uma acção fundamental no ataque a Gondolin.

Para além da sua incrível força e da sua quase total invulnerabilidade, os Dragões de Morgoth possuíam outras habilidades pérfidas; sendo criaturas de grande inteligência eram mestres no uso da malícia e tinham a capacidade de enlear as suas vítimas em poderosos feitiços que as tornavam marionetas nos seus propósitos. Foi utilizando esta habilidade que Glaurung cometeu o seu feito mais abominável: o feitiço lançado sobre Túrin e sua irmã Nienor que culminou na morte trágica de ambos, não sem antes de Glaurung conhecer a sua morte no aço frio de Gurthang, a espada negra que o filho de Húrin empunhava.

Mais tarde, durante a Guerra da Ira, Melkor lançou na defesa de Angband os seus dragões-alados, que até então eram desconhecidos para o resto do mundo. Estando certamente a ser preparados para a batalha ao longo de vários anos, é provável que o seu aparecimento em cena tenha sido precipitado e um acto de desespero devido à posição precária em que os exércitos do Senhor Negro se encontravam. Ainda assim, sob a liderança de Ancalagon, o Negro, o mais poderoso dos Dragões que jamais existiu, o choque provocado por estas criaturas nas hostes do Ocidente foi de tal ordem que apenas a intervenção de Eärendil e das Águias de Manwë conseguiu equilibrar a contenda e permitir a vitória dos exércitos dos Valar. No entanto, ficamos sempre com a sensação de que se a intervenção dos Valar fosse demorada em algumas dezenas de anos dificilmente haveriam civilizações livres em Beleriand para salvar.

Durante a 2ª Era os Dragões, privados do apoio de Morgoth, regrediram para as regiões Norte e Leste da Terra Média não sendo conhecidos relatos dos seus feitos. Mais tarde, já durante a 3ª Era, os Dragões voltaram a assolar a região ocidental da Terra Média invadindo as Montanhas Cinzentas e conquistando os reinos dos Anões que aí existiam pilhando os seus tesouros. O maior dragão a assolar esta região durante esta época foi Scatha, o Verme, que após apoderar-se dos tesouros dos Anões acabou por ser morto por Fram, um príncipe dos Eótheód.

A 3ª Era assistiu ao ressurgir dos Dragões como tenebrosas criaturas capazes de criar o pânico e a destruição entre os povos da Terra Média. Nesta altura surgiu um dragão cujo poder era herdeiro do dos grandes Dragões da 1ª Era: Smaug, o Dourado. Este poderoso dragão-alado cuspidor de fogo trouxe a ruína ao reino humano de Dale e ao reino dos anões de Erebor, acabando por se apoderar dos tesouros aí guardados e fazendo das mansões do Reino Debaixo da Montanha a sua pousada. O domínio de Smaug sobre a região terminou quando uma expedição de Anões exilados liderada por Thorin Escudo-de-Carvalho (herdeiro de Erebor) acompanhados pelo hobbit Bilbo Baggins, o forçou a sair do seu covil de encontro à sua perdição na forma de uma seta negra lançada por Bard (descendente dos senhores de Dale), que o atingiu no seu único ponto fraco enquanto atacava Esgaroth, a Cidade do Lago Comprido.

A ruína de Smaug marcou o fim dos grandes Dragões e da ameaça que estes representavam para os Povos Livres da Terra Média. Embora Tolkien sugerisse que um certo número de Dragões perdurou até ao nosso tempo, não mais estas bestas fabulosas, obras do engenho negro de Melkor, foram capazes de recuperar o poder que uma vez tiveram.

----------------------------------------------
Anexo A
“Os primeiros dragões de Tolkien”

No início da concepção da sua mitologia, a visão que Tolkien criou para os “seus” dragões era claramente de seres não naturais, criados através da arte e magia de Melkor. Esta posição é claramente visível em “The Fall of Gondolin”, uma das primeiras narrativas criadas por Tolkien sobre o mundo da Terra Média.

Neste conto a ideia de criar os dragões parte de Meglin [Maeglin] aquando do seu cativeiro. Na sua traição contra Gondolin, Meglin sugeriu a Melko [Melkor] que através das suas “feitiçarias” fabricasse um suporte para os seus guerreiros, já que dificilmente de outra forma seriam capazes de derrotar os exércitos do Reino Escondido. Meglin sugere que com “a sua riqueza de metais e poder (…) crie bestas como cobras e dragões de irresistível poder que consigam passar por cima das Montanhas Circundantes e arrasar a planície e a sua bela cidade em fogo e morte”. Então Melko “reuniu os mais hábeis dos seus ferreiros e feiticeiros, e através de ferro e chama criaram uma hoste de monstros como nunca antes havia sido visto e não voltará a ser até ao Grande Fim. Alguns eram totalmente todos de ferro tão habilmente ligado que podiam fluir como lentos rios de metal ou enrolar-se à volta ou por cima todos os obstáculos que se lhes deparasse, e estes estavam cheios no seu interior com os mais horríveis Orcs com cimitarras e lanças; a outros de bronze e de cobre foram dados corações e espíritos de fogo ardentes, e destruíam tudo o que se colocasse à sua frente com o terror do seu bafo e esmagavam tudo o que escapasse à sua terrível respiração; havia outros porém que eram criaturas de pura chama que se moviam como cordas de metal derretido, e traziam ruína a tudo que se lhes aproximasse, e ferro e pedra derretiam-se diante deles e tornavam-se como água, e no seu topo cavalgavam Balrogs às centenas; e estes eram os mais terríveis de todos os monstros que Melko lançou contra Gondolin”.

Num outro conto, “Turambar and the Foalókë” (precursor da Narn i Chin Hurin”), surge a figura de Glorund [Glaurung], o primeiro dos dragões. A descrição do Grande Verme ocorre aquando do ataque das forças de Melko ao refúgio dos Rodothlim [no Silmarillion equivale ao saque de Nargothrond] e é feita da seguinte forma: “e um grande verme estava com eles [Orcs] cujas escamas eram de um bronze polido e cujo respirar era uma mistura de fumo e fogo, e o seu nome era Glorund”. Neste conto, é-nos possível constatar que o grande poder dos dragões não residia apenas na sua força e poder destrutivo mas também em capacidades mágicas, vejamos: “com o poder do seu bafo afastou Túrin das portas e com a magia dos seus olhos atou-lhe as mãos e os pés”. A conversa e o tratamento de Glorund a Túrin revelam a malícia que caracterizava os dragões; ao longo do tempo que dura o saque Glorund atormenta Túrin acusando-o da perdição dos Rodothlim e quando este se liberta do feitiço, o dragão recusa matá-lo apesar das tentativas de combate de Túrin, com o pretexto de que ao matá-lo estaria a evitar-lhe grandes sofrimentos. Mais uma vez surge a ideia de que embora criados por Melko, os dragões eram seres naturais e não feitos de metal e fogo.

Aqui surge uma questão controversa: se Meglin sugere que sejam criada criaturas que se assemelhem a cobras e dragões, é então natural que estes já existissem como modelo, logo cai por terra o argumento de que os dragões seriam uma criação mecânica. A questão não se coloca no facto de os dragões terem sido ou não criados por Melkor, Tolkien atesta isso várias vezes; as questões a colocar é como foram feitos e se eram naturais ou “máquinas”?

As bestas que tomaram de assalto Gondolin (na primeira concepção da mitologia) eram claramente artificiais; a dúvida reside em se todos os dragões assim o eram ou se, como sugere a afirmação de Meglin, estas criaturas metálicas foram criadas à imagem de seres naturais já existentes como é o caso de Glorund. È preciso não esquecer que o conto “Turambar and the Foalókë” precede na estrutura narrativa do “Book of Lost Tales” a Queda de Gondolin. A forma como estas criaturas foram criadas deriva um pouco da posição que assumirmos em relação à sua natureza: se optarmos por encará-las como artificiais a resposta terá de ser a combinação entre o trabalho manual de ferreiros e a feitiçaria; se por outro lado, a posição assumida é a de encarar os dragões como seres naturais a resposta terá de ser encontrada noutro lado, como por exemplo o cruzamento de espécies, sem no entanto colocar os dotes de feitiçaria de Melkor de parte.

A finalizar a concepção inicial de Tolkien sobre estas criaturas temos este excerto, retirado do último conto referido, onde se fala do poder destas bestas:

Estes dragões e vermes são as criaturas mais maléficas que Melko criou, e as vis, no entanto de todas são as mais poderosas, excepto apenas os Balrogs. Possuem uma grande esperteza e conhecimento, de tal modo que se diz há muito entre os Homens que aquele que provar o coração de um dragão terá conhecimento de todas as línguas de Deuses e Homens, pássaros e animais, e os seus ouvidos captarão sussurros dos Valar ou de Melko como nunca ele ouviu. Poucos foram aqueles que conseguiram tal acto de coragem como é o de matar um dragão, e desses nenhum pôde provar o seu sangue e viver, pois é como um veneno de fogo que aniquila todos excepto aqueles de força divina. Tal como o seu senhor adoram a mentira e procuram ouro e objectos preciosos com uma grande força do desejo, embora não os possam usar ou desfrutá-los.
----------------------------------------------

Anexo B
“Os Dragões e o Ouro”

Ao longo das histórias em que os dragões participam existem um factor em comum muito importante: ouro, ou melhor, grandes quantidades de ouro. A resposta para este desejo por ouro que consumia os dragões parece estar na ligação que este metal tinha com Melkor.

No texto “Myths Transformed”, Tolkien explica a ligação que existe entre Melkor e o ouro:

Melkor “incarnava-se” (como Morgoth) permanentemente. Fazia isto de forma a controlar o hroa, a “carne” ou matéria física, de Arda. Ele procurava identificar-se com ele. Um processo mais vasto e perigoso, embora similar, ao que Sauron realizou em relação aos Anéis. Assim, fora do Reino Abençoado, toda a “matéria” estava predisposta a possuir um “ingrediente Melkor”, e aqueles que tinham corpos, nutridos pelo hroa de Arda, tinham como se uma tendência, pequena ou grande, para Melkor; nenhum deles estava livre dele na sua forma incarnada, e os seus corpos tinham efeito sobre os seus espíritos. (…)

Além disso, a erradicação final de Morgoth (como um poder que liderava o mal) foi conseguido pela destruição do Anel. Uma tal erradicação de Morgoth é impossível, porque para isso seria necessário a completa desintegração da “matéria” de Arda. O poder de Sauron não estava (por exemplo) no ouro como tal, mas numa porção ou forma particular do ouro total. O poder de Morgoth estava disseminado por todo o Ouro, se em nenhum lado totalmente (pois ele não criou o Ouro) não estava em nenhures ausente. (Era este elemento-Morgoth na matéria, de facto, um pré-requisito para que a “magia” e outros males praticados por Sauron com ele e sobre ele).

Michael Martinez defende que este elemento-Morgoth presente no Ouro era essencial para a sobrevivência e crescimento dos dragões. A necessidade de amontoar grandes quantidades de ouro que estas criaturas demonstram, surge da premência de estar em contacto com esse elemento. O poder dos dragões estaria assim ligado com a quantidade de ouro que possuíam.

Na opinião deste autor o que levou ao recrudescimento destes seres durante a 2ª Era foi precisamente a falta de reservas de ouro, o que também explica a incapacidade de Sauron e do Rei Bruxo enquanto governava Angmar em controlar dragões e tê-los ao seu serviço.

Nota: as traduções dos textos foram realizadas por mim com o intuito de que todos os possam ler em iguais circunstâncias; como tal é natural que existam certos erros já que não se tratou de uma tradução cuidada, mas de uma que pretende que a ideia geral passada pelos textos seja facilmente compreendida.

Bibliografia:
1. O Silmarillion – J.R.R. Tolkien
2. Contos Inacabados de Númenor e da Terra Média - J.R.R. Tolkien
3. O Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei – Apêndice A - J.R.R. Tolkien
4. O Hobbit - J.R.R. Tolkien
5. Letters from J.R.R. Tolkien
6. Tolkien e o Senhor dos Anéis: Um Guia para a Terra Média – Colin Duriez
7. The Book of Lost Tales: Part Two
8. A Tolkien’s Bestiary – David Day
9. A Guide to Tolkien – David Day
10. Where Have All the Dragons Gone? – Michael Martinez
11. Make Room for Dragons – Michael Martinez
12. Beowulf: The Monster and The Critics – J.R.R. Tolkien
13. Os Dragões: Os Flagelos de Morgoth – Mith

Artigo escrito por Echtelion13