Os Senhores de Andúnië

Escrito por Gwen. Publicado em Povos

Na Grande Batalha, quando Morgoth foi finalmente derrotado e empurrado para o vazio eterno, as três casas dos Homens amigos dos Elfos (os Edain) foram os únicos a lutar pelos Valar, ao passo que muitos outros Homens lutaram por Morgoth.

Depois da vitória dos Senhores do Ocidente, muitos desses Homens que sobreviveram fugiram para Oriente e impuseram a sua vontade a outros da sua raça que vagueavam ainda por lá; e eles tomaram-nos por reis.

Então, os Valar abandonaram por algum tempo os Homens da Terra Média que tinham recusado o seu chamamento e aceitado que os amigos de Morgoth fossem seus senhores; e os Homens viveram nas trevas.

Mas aos pais dos Homens das três casas Fiéis, que lutaram ao seu lado, os Valar ofereceram uma terra para viverem, afastada dos perigos da Terra Média. Também lhes foi dada sabedoria e uma vida mais longa. Portanto, a maior parte deles fez-se ao mar, e guiados pela Estrela de Eärendil, chegaram à Ilha de Elenna, a mais ocidental de todas as terras mortais. Aí fundaram o reino de Númenor.

Mas foi imposta uma condição aos numenoreanos: era-lhes proibido navegar para ocidente até perderem de vista o seu próprio litoral, ou tentarem pisar as terras imortais. Porque, apesar de lhes ter sido dado um período de vida mais longo, tinham de permanecer mortais, pois os Valar não tinham permissão para lhes tirar o dom dos Homens.

Este foi o princípio do povo a que se chama Dúnedain: os numenoreanos, reis entre os Homens.

Elros, filho de Eärendil e Elwing, irmão de Elrond, optou por pertencer à família dos Homens e foi o primeiro rei de Númenor, com o nome de Tar-Minyatur.

Assim, o tempo passou e, enquanto a Terra Média se atrasava, os Dúnedain em Númenor viviam sob a protecção dos Valar e com a amizade dos Elfos. Aumentavam de estatura, tanto de mente como de corpo, tornando-se poderosos em artes e grandes marinheiros.

Por vezes os Elfos navegavam para Númenor e levavam muitos presentes; entre eles um rebento de Celeborn, a árvore branca que crescia em Eressëa; e a árvore cresceu e desabrochou nos pátios do rei, em Armenelos. A árvore chamava-se Nimloth.

Silmarien foi a filha primogénita de Tar-Elendil, o 4º rei de Númenor. Não foi rainha reinante, pois só depois da morte do 6º rei, Tar-Aldarion, passou a haver a lei que permitia que o filho mais velho herdasse o ceptro, fosse homem ou mulher. Silmarien foi mãe de Valandil, o primeiro senhor de Andúnië. Eram os mais altos em honras depois da casa dos reis, pois eram da estripe de Elros; e eram leais aos reis e reverenciavam-nos. Os senhores de Andúnië contavam-se sempre entre os principais conselheiros do ceptro. Mas sempre sentiram um amor especial pelos Elfos e reverenciavam os Valar, e à medida que a sombra alastrou ajudaram os Fiéis como puderam.

Tar-Aldarion, VI rei de Númenor, era primo de Valandil, primeiro senhor de Andúnië, e o seu avô era Vëantur, capitão de navios. Herdou do avô o seu amor pelo mar e gostava de construir barcos. Foi com Vëantur que fez a sua primeira grande viagem à Terra Média, ficando grande amigo de Gil-galad e Círdan, com quem aprendeu muito sobre navios. Também ajudou e aconselhou Gil-galad, ensinando-lhe muitas coisas acerca dos Homens e da sua língua, sendo sempre um grande amigo dos Elfos da Terra Média. Formou a Guilda dos Aventureiros, uma fraternidade de marinheiros resistentes, que faziam grandes viagens para a Terra Média. Estabeleceu um grande porto na foz do rio Gwathló, Vinyalondë, mais tarde chamado Lond Daer, de forma a resistir a ataques por terra ou por mar. Foi conselheiro de Gil-galad e estabeleceu com ele uma aliança, quando o rei élfico começou a notar que uma nova sombra estava a agitar-se e a crescer perigosamente na Terra Média.

Os trabalhos de Aldarion no seu grande porto foram destruídos muitas vezes, pelo mar e pela gente nativa que vivia nas florestas, que se tornaram hostis aos numenoreanos, destruindo e incendiando as suas obras; pois Sauron a isso os incentivou, ao aperceber-se da importância do grande porto.

No entanto os alicerces já estavam lançados, e essa entrada em Eriador foi de grande importância e decisiva para que o exército de Sauron fosse derrotado e repelido muitos anos depois, quando Tar-Minastir, XI rei de Númenor, enviou uma grande armada em auxílio de Gil-galad, na primeira guerra contra Sauron. Os numenoreanos desembarcaram no pequeno porto construído por Tar-Aldarion e atacaram Sauron pela retaguarda e sem ele esperar, e os seus exércitos foram completamente desbaratados na batalha de Gwathló, tendo ele próprio escapado por um triz. Sauron, completamente vencido e humilhado, regressou a Mordor, onde jurou vingar-se de Númenor.

De início, os numenoreanos tinham ido para a Terra Média e ajudado os homens atormentados por Sauron; mas depois os reis de Númenor tornaram-se sôfregos de riqueza e poder e os seus portos transformaram-se em fortalezas. Começaram a exigir pesados tributos aos Homens da Terra Média e os seus navios regressavam carregados de despojos; também começaram a anelar pelas águas proibidas do Ocidente e a desejar a imortalidade dos Elfos.

O rei Tar-Atanamir foi o 1º que se pronunciou abertamente contra a interdição dos Valar e muitos numenoreanos pensavam como ele; os seus corações estavam contra os Valar e os Elfos, mas ainda temiam os Senhores do Ocidente e não os provocavam. E apesar da riqueza e o poder dos numenoreanos continuarem a aumentar, a felicidade abandonou-os, a sombra adensou-se e os seus anos de vida diminuíram. Então os numenoreanos dividiram-se: de um lado os reis e aqueles que os apoiavam e se afastavam dos Elfos e dos Valar; do outro, os poucos que se autodenominavam Fiéis.

Pouco a pouco, os reis e os seus partidários abandonaram o uso das linguas élficas e, por fim o 20º rei escolheu o seu nome real em numenoreano: Ar-Adûnakhôr, “Senhor do Ocidente”. Isto pareceu de mau presságio aos Fiéis; e Ar-Adûnakhôr começou a perseguir os Fiéis e a punir os que usavam as línguas élficas abertamente. E os Elfos deixaram de ir a Númenor.

Mas os Fiéis conservavam a sua amizade com os Elfos e quando viajavam para a Terra Média iam só para o Norte, para o reino de Gil-galad. O seu porto era Pelargir e auxiliaram Gil-galad na sua luta contra Sauron, cujo poder voltou a crescer. Entre aqueles que Sauron enganou com os nove anéis, três eram grandes senhores de raça numenoreana.

Ar-Gimilzôr, o 22º rei, foi o maior inimigo dos Fiéis. No seu tempo, a árvore branca foi negligenciada e começou a declinar; e ele proibiu completamente o uso das línguas élficas e punia todos aqueles que davam as boas-vindas aos Elfos.

Os Fiéis habitavam principalmente nas regiões ocidentais de Númenor; mas Ar-Gimilzôr ordenou a todos quantos descobriu serem desse partido que se mudassem para Oriente do território, para poder vigiá-los. Por isso, a residência principal dos Fiéis nos últimos tempos era perto do Porto de Rómenna.

Os senhores de Andúnië sentiam-se divididos entre a sua lealdade à casa de Elros e a sua reverência com os Valar; e à medida que a sombra alastrou, ajudaram os Fiéis como puderam. Mas durante muito tempo não se declararam abertamente contra o rei e procuraram antes corrigir o seu comportamento com conselhos sensatos.

Houve uma rainha, Inzilbêth, que era da casa dos senhores de Andúnië; e quando o seu filho, Inziladûn, empunhou o ceptro, voltou a assumir um título em lingua élfica, Tar-Palantir, pois ele pensava como a mãe, reverenciava os Valar e tinha uma grande visão. Deixou os Fiéis em paz e cuidou com honra da árvore branca. Mas a maioria do seu povo não se arrependeu e houve rebelião e luta em Númenor. Quando Tar-Palantir morreu, o seu sobrinho, cabecilha da rebelião, apoderou-se do ceptro e tornou-se o rei Ar-Pharazôn, o mais orgulhoso e poderoso de todos os reis, pois ambicionava o ceptro do mundo inteiro.

Então resolveu desafiar Sauron e obrigou-o a tornar-se seu vassalo e servidor. Embarcou pessoalmente com uma grande esquadra e desembarcou em Umbar. Tão grande era a força e o esplendor dos numenoreanos que os próprios servos de Sauron o abandonaram. E Sauron foi obrigado a prestar homenagem a Ar-Pharazôn e a jurar-lhe fidelidade. Ar-Pharazôn resolveu levá-lo como prisioneiro para Númenor, para melhor o poder vigiar.

Mas não demorou muito até que Sauron enfeitiçasse o rei e dominasse o seu conselho. Voltou para as trevas o coração de todos os numenoreanos, com excepção dos Fiéis que ainda restavam.

Ar-Pharazôn começou a adorar as trevas, incentivado por Sauron; primeiro em segredo, mas depois abertamente e diante do seu povo; e este, na sua maioria, imitou-o. E os Fiéis recorriam a Amandil, senhor de Andúnië, conselheiro do rei e chefe dos Fiéis. Amandil pertenceu ao conselho do rei até à vinda de Sauron; mas depois foi demitido, pois Sauron odiava-o acima de todos os outros. Mas Amandil era tão nobre e fora um capitão de mar tão poderoso que ainda era respeitado e honrado por grande parte do povo, e nem o rei nem Sauron ousaram tocar-lhe, por enquanto.

Amandil retirou-se para Rómenna e convovou todos os Fiéis para que lá se juntassem em segredo, pois temia que os amigos dos Elfos estivessem em perigo.

Sauron induziu o rei a derrubar a árvore branca, que crescia nos seus pátios, pois era um monumento dos Elfos e da luz de Valinor. Mas quando Amandil teve conhecimento dos seus maus propósitos, ficou profundamente pesaroso e falou a Elendil, seu filho, e aos filhos de Elendil, Isildur e Anárion, recordando-lhes a história das árvores de Valinor.

Isildur, em segredo, depois de ouvir o seu avô falar, resolveu fazer uma coisa formidável: entrou sózinho e disfarçado em Armenelos e nos pátios do rei, que estavam proibidos aos Fiéis, passou pelo meio dos guardas e tirou de Nimloth, a árvore branca, um fruto para plantar. Mas os guardas ouviram-no e ele foi atacado e lutou para fugir; mas como estava disfarçado, ninguém descobriu quem tocara na árvore.

Isildur conseguiu escapar, mas recebeu muitos ferimentos e só com grande dificuldade conseguiu chegar a Rómenna e depôs o fruto não mãos de Amandil, antes das forças lhe faltarem. Então o fruto foi plantado em segredo e foi abençoado por Amandil; e nasceu um rebento na Primavera. Isildur esteve durante muito tempo às portas da morte, mas quando a 1ª folha do rebento se abriu, começou a melhorar e os seus ferimentos não voltaram a incomodá-lo.

O rei acabou por ceder a Sauron, que na verdade era quem tudo dirigia atrás do trono, e derrubou Nimloth, a árvore branca. Ergueu um poderoso templo com um altar de fogo, e o 1º lume do altar acendeu-o Sauron com a lenha cortada de Nimloth. Nesse templo faziam sacrifícios a Morgoth, o Senhor do Escuro, e a maior parte das vezes escolhiam as suas vitímas entre os Fiéis. Sauron também mentiu ao rei, dizendo que a vida eterna seria daquele que possuísse as Terras Imortais e que a interdição dos Valar só tinha sido imposta para impedir os reis dos Homens de os ultrapassarem. Ar-Pharazôn deu-lhe ouvidos, pois estava dominado pelo medo da morte, e preparou-se para fazer guerra aos Senhores do Ocidente.

Amandil, ao tomar consciência dos planos do rei, ficou cheio de grande temor, pois sabia que os Homens não podiam vencer os Valar na guerra; chamou o seu filho, Elendil, e disse-lhe que iria ele próprio navegar para Ocidente e rogar a ajuda dos Valar, antes de estar tudo perdido. Sofreria pessoalmente o castigo por desrespeitar a interdição, para evitar que todo o seu povo se tornasse culpado.

Preparou a sua ida em segredo, disse adeus a toda a sua casa, pois calculava que não iria voltar, e aconselhou o seu filho a procurar os Fiéis que ainda fossem sinceros, preparar navios e ter tudo pronto para partir, pois achava que o fim de Númenor estava próximo.

Amandil, senhor de Andúnië, partiu num pequeno barco, à noite, com 3 servidores leais, e nunca mais se ouviu falar deles; e não há nenhuma suposição acerca do seu destino.

Elendil fez tudo quanto o pai lhe aconselhara e não participou nas más acções desse tempo; aguardava um sinal de seu pai, que não chegava.

Por fim as esquadras de Ar-Pharazôn partiram para Ocidente, levando a guerra contra os Imortais para lhes tirar a vida eterna; mas quando chegaram às praias de Aman, os Valar renunciaram à sua qualidade de guardiões e recorreram a Ilúvatar. Este mostrou o seu poder e mudou a maneira do mundo; abriu-se um grande abismo no mar entre Númenor e as Terras Imortais e todas as esquadras dos numenoreanos, bem como Númenor, foram arrastadas para o abismo, afundaram-se e foram engolidas para sempre. E as Terras Imortais foram afastadas dos círculos do mundo e do alcance dos Homens. Assim terminou a glória de Númenor.

Sauron também foi arrastado pela destruição de Númenor, de tal modo que a forma física que durante tanto tempo apresentara, pereceu. Mas Sauron não era de carne mortal; o seu espírito elevou-se das profundezas e voltou à Terra Média e a Mordor. Com a ajuda do seu grande anel fez para si um novo disfarce, uma imagem de maldade e ódio tornados visíveis, pois nunca mais poderia parecer belo aos olhos dos Homens. Tornou-se negro e hediondo e a partir de então, o seu poder só se impôs através do terror.

Quer Amandil tenha ou não chegado a Valinor e Manwë tenha escutado o seu rogo, Elendil, os seus filhos e o seu povo, por graça dos Valar, foram poupados à destruição de Númenor, pois Elendil ficara em Rómenna, recusando responder ao chamanento do rei quando este partiu para a guerra. Evitou os soldados de Sauron que tinham ido procurá-lo para o arrastarem para as fogueiras do templo. Entraram nos seus navios e afastaram-se da costa; assim escaparam ao afundamento de Númenor. Eram nove navios, e levavam consigo a semente de Nimloth, as sete pedras de ver (dádivas dos Elfos à sua casa) e tantos escritos e documentos históricos quantos lhes foi posível.

Na Terra Média fundaram os reinos numenoreanos no exílio, Arnor e Gondor. Elendil era o rei supremo e vivia a norte de Annúminas; o governo do Sul foi confiado a Isildur e Anárion, que fundaram Osgiliath, a cidade principal desse reino. Em Minas Ithil ficava a casa de Isildur e em Minas Anor a de Anárion, mas compartilhavam o reino entre eles e os seus tronos estavam lado a lado, no grande palácio de Osgiliath. Isildur plantou o rebento da árvore branca em Minas Ithil, diante da sua casa, um memorial dos Eldar e da luz de Valinor.

Gil-galad acolheu os numenoreanos com amizade e ajudou-os. Construiu as torres de Emyn Beraid para Elendil, seu amigo, e uma das pedras de ver foi colocada na mais alta das torres, Elostirion. Mas consta que esta pedra era diferente das outras e em desarmonia com elas: só olhava para o mar. Para lá se dirigia Elendil muitas vezes e de lá olhava para o mar quando a nostalgia do exílio o possuía e o desgosto e mágoa apertavam, pois amava muito o seu pai, o último senhor de Andúnië. E julga-se que ele via, de vez em quando, a torre de Avallónë em Eressëa, a Ilha dos Elfos, onde a pedra mestra habitava e ainda habita.

Sauron, escondido em Mordor, sentiu grande cólera quando soube que Elendil e os seus filhos, que tanto odiava, tinham escapado e estavam a construir um reino nas suas fronteiras.

Mapa de Númenor

Destruição de Númenor

Este artigo foi escrito por Gwen