As Árvores de Kortirion

Escrito por Aegnor. Publicado em Linguística

Comentário sobre o poema por Christopher Tolkien:

Eu deixo agora três textos do poema Kortirion entre as Árvores (mais tarde As Árvores de Kortirion). Os primeiros esboços (Novembro de 1915) deste poema são extensos,* e há muitos textos subsequentes. Uma grande revisão foi feita em 1937, e outra muito mais tarde; por esta altura era quase um poema diferente. Desde que o meu pai o mandou a Rayner Unwin em Fevereiro de 1962 como um possível candidato para a inclusão em As Aventuras de Tom Bombadil, parece certo que a versão final data desse tempo.**
Numa das primeiras cópias ostenta o título em Inglês Antigo: Cor Tirion péra béama on middes, e é "dedicado a Warwick"; mas noutro o segundo titulo é em Élfico (a segunda palavra não é totalmente legível): Narquelion la...... tu y aldalin Kortirionwen ("Outono (entre) as árvores de Kortirion)".

* De acordo com as notas do meu pai, a composição original data de 21-28 de Novembro de 1915, e foi escrito em Warwick numa semana de licença do campo. Isto não é certo, pois sobreviveram cartas para a minha mãe que foram escritas do campo a 25 e 26 de Novembro, na segunda das quais ele diz que "escreveu uma cópia a lápis de "Kortirion"".
** Na sua carta o meu pai diz: "As Árvores é demasiado longo e demasiado ambicioso, e mesmo se considerado suficientemente bom iria provavelmente desequilibrar o barco."

As Árvores de Kortirion

I
Alalminórë

Ó antiga cidade numa colina cercada!
Velhas sombras permanecem na tua porta quebrada,
As tuas pedras estão cinzentas, os teus velhos salões estão agora vazios,
As tuas torres silenciosas na névoa aguardam
O seu destroçado fim, enquanto que através dos altos olmos
O Rio Glinding deixa estes reinos interiores
E desliza por entre longos prados até ao mar,
Ainda descendo por represas e murmurantes quedas
Um dia e depois outro até ao mar;
E lentamente para aí há muitos dias que passa
Desde que os Edain primeiro construíram Kortirion.

Kortirion! Sobre a tua ilha colina
Com tortuosas ruas e becos à sombra das muralhas,
Onde mesmo agora os pavões se passeiam
Majestosos, safiras e esmeraldas,
Outrora à muito tempo por entre esta terra adormecida
De chuva prateada, onde ainda carregadas todo o ano se erguem,
Na inesquecível terra as enraizadas árvores
Que deitavam longas sombras no antigo meio-dia,
E murmuravam na rápida brisa passageira,
Outrora à muito tempo, Rainha da Terra dos Olmos,
Cidade Capital eras tu dos Reinos Interiores.

As tuas árvores no Verão ainda lembras:
O salgueiro na nascente, a faia na colina;
Os chorosos choupos e os carrancudos teixos
Dentro dos teus envelhecidos pátios que meditam
Na esplendorosa sombra todo o dia,
Até que a primeira estrela chega cintilando,
E o morcego passa com asas silenciosas;
Até que a branca Lua lentamente subindo vê,
Em campos de sombra, as adormecidas arvores encantadas
Envolvidas pela noite todas em cinzento prateado.
Alalminor! Aqui era a tua cidadela,
Antes das bandeiras do Verão caírem;
À tua volta estava disposta a tua hoste de olmos:
Verde era a sua armadura, altos e verdes os seus elmos,
Grandes senhores e capitães das arvores.
Mas o Verão desaparece. Olha, Kortirion!
Os olmos perderam todas as suas velas,
Preparados para os ventos, como mastros
De grandes navios que demasiado cedo, demasiado cedo, navegam
Para outros dias para além destes mares iluminados.

II
Narquelion

Alalminórë! Coração verde desta Ilha
Onde ainda permanecem as Fieis Companhias!
Ainda aqui com esperança eles lentamente percorrem
Solitários caminhos com solenes harmonias:
Os Belos, os primogénitos dos dias antigos,
Elfos Imortais, que cantando pelos seus caminhos
De felicidade e mágoa antiga, apesar dos homens esquecerem,
Passam como um vento por entre folhas esvoaçantes,
Uma onda na curvada erva, e os homens esquecem
As suas vozes chamando de um tempo que nós não conhecemos,
O seu cintilante cabelo como a antiga luz do sol.

Um vento na erva! O passar do ano.
Um arrepio nos juncos ao lado do ribeiro,
Um sussurro nas árvores – eles ouvem ao longe,
Penetrando o coração do enredado sonho do Verão,
Fria musica que um arauto flautista toca
Prevendo o Inverno e os dias sem folhas.
As tardias flores tremendo nas arruinadas muralhas
Já caem para ouvir essa flauta élfica.
Através das solarengas passagens dos bosques e salões sustentados por árvores,
Serpenteando por entre o verde com clara e fria nota
Como um fino fio de vidro prateado longínquo.

As altas marés, o ano em breve acabará;
E todas as tuas árvores, Kortirion, lamentam.
De manhã a pedra de amolar tocava com a lamina,
De tarde a erva e as douradas flores eram deitadas
Para secar, e os prados ficavam nus.
Agora já enfraquecida chega a tardia aurora,
Pálidos os dedos do Sol correm através da relva.
Os dias passam. Vão-se como traças as noites
Quando brancas asas flutuam dançando como satélites
À volta de candeias no ar parado.
Lammas* passou. A Lua Ceifeira** desvaneceu-se.
O Verão está morrendo, ele que tão brevemente reinou.
Agora os orgulhosos olmos por fim começam a encolher-se,
As suas folhas incontáveis tremem e empalidecem,
Vendo ao longe as geladas lanças
Do Inverno a marchar para batalhar com o Sol.
Quando o brilhante dia de Todos os Santos se apaga, o seu dia acabou,
E levadas por asas de âmbar elas voam
Em surdos ventos debaixo do triste céu,
E caem como pássaros a morrer sobre os lagos.

*O 1º dia de Agosto, antigamente festa da colheita.
**Harvest-moon: a lua cheia mais próxima do equinócio do Outono

III
Hrívion

Ai de mim! Kortirion, Rainha dos Olmos, ai de mim!
Esta estação é a que melhor assenta na tua antiga cidade,
Com tristes vozes ecoantes que lentamente passam,
Circulando com pálida musica descendo
Os caminhos cheios de névoa. Ó desaparecido tempo,
Quando a manhã se erguia tarde toda branca com geada,
E sombras matinais cobriam os bosques distantes!
Invisíveis os Elfos passam, o seu brilhante cabelo
Eles cobrem de crepúsculo sob secretos capuzes
Cinzentos, os seus mantos de azul crepuscular cintados com cintos
De luz estrelar gelada cosidos por mãos de prata.

De noite eles dançam debaixo do desabrigado céu,
Quando olmos nus entrançam com ramos
As Sete Estrelas, e através dos galhos o olho
Olha para baixo com um brilho frio na alta cara da Lua.
Ó Família mais Velha, belo e imortal povo!
Vós cantais agora antigas canções que outrora acordaram
Sob as primeiras estrelas antes da Alvorada;
Vós dançais como cintilantes sombras no vento,
Como outrora vós haveis dançado sobre a brilhante relva
Da Terra Élfica, antes de nós existirmos, antes
De vocês terem atravessado largos mares para esta costa mortal.

Agora são as tuas arvores, velha e cinzenta Kortirion,
Através da pálida névoa vistas elevando-se altas e desvanecidas,
Como vagos navios que lentamente derivam para longe,
Para mares vazios para além da barra
De nublados portos abandonados;
Deixando para trás, para sempre, portos ruidosos,
Onde as suas tripulações, por um tempo, deram grandes festas
Com alivio senhorial, eles agora como fantasmas ventosos
São empurrados por frios ares para costas inimigas,
E silenciosamente com a maré são trazidos.
Nu se tornou o teu reino, Kortirion,
Despido da sua vestimenta, e o seu esplendor desapareceu.
Como candeias acesas num templo escurecido
As velas funerárias da Carroça de Prata
Agora flamejam acima do ano caído.
O Inverno chegou. Debaixo do estéril céu
Os Elfos estão silenciosos. Mas eles não morrem!
Aqui esperando eles suportam o frio Inverno
E o silencio. Aqui também eu vou viver;
Kortirion, eu vou encontrar o Inverno aqui.

IV
Mettanyë

Eu não encontraria as ardentes cúpulas e areias
Onde reina o Sol, nem desafiaria as neves mortais,
Nem procuraria em montanhas escuras as terras escondidas
De homens à muito perdidos para quem nenhum caminho leva;
Eu não ouço nenhum chamamento de um sino que toca
Com voz de ferro nas torres dos reis terrenos.
Aqui nas pedras e árvores jaz um feitiço
De inesquecível perda, de uma memoria mais abençoada
Que a riqueza mortal. Aqui invencível vive
O Povo Imortal sob secos olmos,
Alalminórë outrora em antigos reinos.

Alalminórë ----- "Terra dos Olmos"

Narquelion ----- Narquelië– "Desvanecimento do Sol", nome do décimo mês em Quenya.

Hrívion ----- Hríve – "Inverno"

Mettanyë ----- contem "metta" – "fim", como em "Ambar-metta", o fim do mundo.

Tradução do poema para português por Aegnor.

Primeira estrofe do poema traduzido em Quenya (por Samanir e Gwen)
http://galeria.tolkienianos.pt/data/media/267/POemaQuenyaKortirion.bmp

E trabalho manuscrito do Anguirel
http://galeria.tolkienianos.pt/data/media/269/index.jpg