Conto de Tinúviel

Escrito por Aegnor. Publicado em History of Middle-Earth

A minha última tradução, o Conto de Tinúviel, do Book of Lost Tales II.

O Conto de Tinúviel foi escrito em 1917 e é a primeira forma desta história.

Os nomes estão nas formas antigas, mas acho que é perceptivel quem é quem,
É um conto em que dá para ver a evolução que a história levou, aqui não há Nargothrond, Beren é um Elfo, e Sauron um gato, é uma história muito mais simples.

Espero que gostem... :)


O Conto de Tinúviel

Introdução

“Grande era o poder de Melko para o mal, se ele pôde de facto destruir com a sua astúcia a felicidade e a glória dos Deuses e Elfos, destruindo a luz da sua habitação e transformando o seu amor em nada. Esta deve ser certamente a pior acção que ele alguma vez fez.”
“De facto nunca tal mal foi de novo feito em Valinor,” disse Lindo, “mas a mão de Melko trabalhou coisas piores no mundo, e as sementes do seu mal tem prosperado desde então a grandes e terríveis alturas.”
“Não,” disse Eriol, ‘no entanto o meu coração não consegue pensar em outros males, senão na tristeza da destruição dessas mais belas Árvores e a escuridão do mundo.”

Nos dias seguintes a esta história ser contada, olhai, o Inverno aproximou-se das terras de Tol Eressëa, pois agora tinha Eriol, esquecido do seu espírito inquieto, vivido algum tempo na velha Kortirion. Nunca nesses meses ele viajou mais do que para além da boa terra cultivada que ficava fora das cinzentas muralhas dessa cidade, mas muitos salões das famílias dos Inwir e dos Teleri receberam-no como convidado, e mais habilidoso nas línguas dos Elfos ele se tornou, e mais profundo o seu conhecimento dos costumes, das suas histórias e canções.
Então o Inverno chegou subitamente sobre a Ilha Solitária, e sobre os relvados e jardins estendeu-se um brilhante manto de branca neve; as fontes pararam, e todas as nuas árvores silenciaram-se, e o longínquo Sol brilhava pálido por entre a névoa ou cintilava sobre cercas de longos pendentes de gelo. Ainda Eriol não pensava em viajar, mas olhava a fria lua nos céus gelados a olhar sobre Mar Vanwa Tyaliéva, e quando acima dos telhados as estrelas brilhavam azuladas ele escutava, no entanto nenhum som das flautas de Timpinen ele ouvia agora; pois esse espírito é o hálito do Verão, e quando a secreta presença do Outono enche o ar ele toma o seu cinzento barco mágico, e as andorinhas levam-no para longe.
Mesmo assim Eriol conheceu riso, contentamento e musica também, e canção, nas habitações de Kortirion – mesmo Eriol o viajante cujo coração nunca antes tinha conhecido descanso. Chegou então um dia cinzento, e uma tarde escura, mas lá dentro havia luz, calor, dança e barulho de crianças alegres, pois Eriol estava fazendo um grande jogo com as donzelas e rapazes do Salão da Brincadeira Recuperada. Ali depois de cansados com a sua alegria eles deitaram-se sobre tapetes diante da lareira, e uma criança entre eles, uma pequena donzela, disse: "Conta-me, Ó Eriol, uma história!"
"Que devo eu contar, Ó Vëannë?" disse ele, e ela, trepando sobre o seu joelho, disse: "Uma história dos Homens e de crianças nas Grandes Terras, ou da tua casa – tinhas lá um jardim como nós, onde papoilas cresciam e amores-perfeitos como aqueles que crescem no meu canto perto da Árvore dos Tordos?"
Então Eriol contou-lhe sobre a sua casa, que era numa velha cidade dos Homens rodeada por uma muralha agora desfeita e partida, e um rio corria ali perto, sobre o qual um castelo com uma grande torre se inclinava. "Uma grande torre de facto," disse ele, "que quando a lua sobe alta ele lança a sua face sobre ela." "Era então tão alta como a Ingil Tirin?" perguntou Vëannë, mas Eriol disse que não podia saber, pois fazia agora muitos anos desde que ele tinha visto aquele castelo ou a sua torre, pois "Ó Vëannë," disse ele, "eu vivi ali pouco tempo, e não depois de crescer e me tornar um rapaz. O meu pai veio de um povo costeiro, e o amor do mar, que eu nunca tinha visto, estava nos meus ossos, e o meu pai aguçava o meu desejo, pois ele contava-me histórias que o seu pai lhe contara. A minha mãe morreu num cruel e faminto cerco dessa velha cidade, e o meu pai foi morto numa amarga luta nas muralhas, e no fim, eu Eriol, escapei para a costa do Mar Ocidental, e tenho vivido quase sempre sobre as ondas ou ao seu lado desde esses longínquos dias."
Agora as crianças à sua volta estavam cheias de tristeza pelas desgraças que sofriam aqueles que viviam nas Grandes Terras, e com as guerras e morte e Vëannë abraçou-se a Eriol, dizendo: "Ó Melinon nunca vás para uma guerra – ou já alguma vez foste?"
"Sim, vezes que cheguem," disse Eriol, "mas não para as grandes guerras dos reis terrenos e grandes nações as quais são cruéis e amargas, onde muitas belas terras e coisas adoráveis e até mulheres e doces donzelas tal como tu Vëannë Melinir são esmagadas; no entanto galantes contendas já eu vi onde pequenos bandos de bravos homens às vezes se encontram e rápidos golpes são desferidos. Mas olha, porque falamos nós destas coisas, pequena; não preferias ouvir antes as minhas primeiras aventuras no mar?"
Vendo a ansiedade deles, Eriol contou-lhes das suas viagens até aos portos ocidentais, dos camaradas que fez e dos portos que conheceu, de como ele encalhou numas longínquas ilhas ocidentais até que numa ilha isolada ele encontrou um antigo marinheiro que lhe deu abrigo, e sobre um fogo dentro da sua solitária cabine lhe contou estranhas história de coisas para lá dos Mares Ocidentais, das Ilhas Magicas e da mais solitária que ficava mais para lá. Havia muito tempo que ele a tinha avistado brilhando muito longe, e depois tinha-a procurado por muitos dias em vão.
"Depois disso," disse Eriol, "comecei a navegar mais curiosamente à volta das ilhas ocidentais procurando mais histórias desse tipo, e assim é que depois de muitas grandes viagens eu chego, com a graça dos Deuses, a Tol Eressëa por fim – razão pela qual eu me sento agora aqui falando contigo, Vëannë, até as minhas palavras secarem."
Mesmo assim um rapaz, Ausir, pediu-lhe para contar mais de navios e do mar, mas Eriol disse: "Não – ainda há tempo antes de Ilfiniol tocar o gongo para o encontro da tarde: vamos, um de vocês, conte-me uma história que tenha ouvido!" Então Vëannë levantou-se e bateu as mãos, dizendo: "Eu vou contar-te o Conto de Tinúviel."

O Conto de Tinúviel

"Quem era então Tinúviel?" perguntou Eriol. "Não sabes?" disse Ausir; "Tinúviel era a filha de Tinwë Linto." "Tinwelint", disse Vëannë, mas disse o outro: "São o mesmo, mas os Elfos desta casa que gostam do conto dizem Tinwë Linto, apesar de Vairë ter dito que só Tinwë é o seu verdadeiro nome antes dele se perder nos bosques."
"Cala-te, Ausir," disse Vëannë, "pois é a minha história e eu vou conta-la ao Eriol. Não vi eu Gwendeling e Tinúviel uma vez quando viajava pelo Caminho dos Sonhos em tempos passados?"
"Como era a Rainha Wendelin (pois assim a chamam os Elfos), Ó Vëannë, se tu a viste?" perguntou Ausir.
"Esbelta e de cabelo muito escuro," disse Vëannë, "e a sua pele era branca e pálida, mas os seus olhos brilhavam e pareciam profundos, e ela estava vestida com finas vestimentas de preto, cintilante como azeviche e cintada com prata. Se ela cantava, ou se dançava, sonhos e sombras passavam sobre a tua cabeça e faziam-na pesada. De facto ela era um espírito que escapou dos jardins de Lórien antes mesmo de Kôr ser construída, e vagueou pelos bosques do mundo, e os rouxinóis foram com ela e muitas vezes cantavam à sua volta. Foi o cantar destes pássaros que tocou os ouvidos de Tinwelint, líder dessa tribo dos Eldar que depois se tornou os Solosimpi, os flautistas da costa, enquanto ele viajava com os seus companheiros atrás do cavalo de Oromë vindos de Palisor. Ilúvatar tinha posto uma semente de musica nos corações de todo esse povo, ou assim disse Vairë, e ela é deles, que cresceu depois maravilhosamente, mas agora a canção dos rouxinóis de Gwendeling era a mais bela musica que Tinwelint alguma vez ouvira, e ele afastou-se por um momento, como ele achava, da hoste, procurando nas escuras árvores donde podia vir.
E é dito que não foi durante um momento que ele escutou, mas muitos anos, e em vão o seu povo o procurou, até que por fim eles seguiram Oromë e foram carregados sobre Tol Eressëa para muito longe, e ele nunca mais os viu. No entanto passado um tempo, como lhe pareceu, ele encontrou Gwendeling deitada numa cama de folhas olhando as estrelas sobre ela e ouvindo as suas aves. Tinwelint aproximando-se levemente se baixou e olhou-a, pensando "Olha, aqui está um ser mais belo que o mais belo do meu próprio povo" – pois de facto Gwendeling não era elfa ou mulher mas do povo dos Deuses; e dobrando-se mais para tocar numa trança do seu cabelo ele partiu um ramo com o pé. Então Gwendeling levantou-se e fugiu rindo docemente, algumas vezes cantava muito longe ou dançava mesmo diante dele, até que sombras fragrantes caíram sobre ele e ele caiu com a face para baixo sob as árvores e dormiu um grande tempo.
Quando ele acordou não pensou mais no seu povo (e de facto teria sido em vão, pois havia muito que eles tinham chegado a Valinor) mas desejava só ver a senhora do crepúsculo; mas ela não estava longe, pois tinha permanecido perto olhando por ele. Mais da história deles eu não sei, Ó Eriol, excepto que no fim ela se tornou sua mulher, pois Tinwelint e Gwendeling durante muito tempo foram rei e rainha dos Elfos Perdidos de Artanor ou da Terra Para Além, ou assim é dito aqui.
Muito, muito depois, como tu sabes, Melko fugiu de novo de Valinor para o mundo, e todos os Eldar, tanto aqueles que permaneciam no escuro ou que se tinham perdido na marcha de Palisor como aqueles Noldoli que viajaram atrás dele procurando o seu tesouro roubado, caíram debaixo do seu poder como escravos. No entanto é contado que havia muitos que escaparam e vaguearam nos bosques e lugares vazios, e desses muitos reuniram-se debaixo do Rei Tinwelint. Desses a maioria eram Ilkorindi – que quer dizer Eldar que nunca viram Valinor ou as Duas Árvores ou viveram em Kôr – e eram soturnos e estranhos seres, sabendo pouco de luz ou beleza ou de música excepto de escuras canções e cantos de uma rude maravilha que se ouviam nas florestas ou ecoavam em profundas cavernas. Tornaram-se diferentes de facto quando o Sol se ergueu, e já antes eles se tinham misturado com muitos Gnomos vagabundos, espíritos errantes da hoste de Lórien ali também havia vivendo nos salões de Tinwelint, como seguidores de Gwendeling, e estes não eram da família dos Eldalië.
Agora nos dias do Sol e Lua ainda vivia Tinwelint em Artanor, e nem ele nem a maior parte do seu povo foi para a Batalha das Lágrimas Inumeráveis, apesar dessa história não tocar este conto. Ainda assim foi o seu senhorio grandemente aumentado depois desse triste acontecimento pelos fugitivos que fugiram para a sua protecção. Escondida estava a sua habitação da visão e conhecimento de Melko pelas magias de Gwendeling a fada, e ela teceu feitiços nos caminhos para que ninguém senão os Eldar os pudessem caminhar facilmente, e assim estava o rei protegido de todos os perigos excepto da traição. Os seus salões foram construídos numa profunda caverna de grande tamanho mas que era mesmo assim uma real e bela habitação. Esta caverna estava no coração da grande floresta de Artanor, que é a maior das florestas, e um rio corria diante das portas, mas ninguém podia entrar pelo portal excepto atravessando o rio, e uma ponte erguia-se estreita e bem guardada. Esses lugares não eram doentios apesar das Montanhas de Ferro não estarem muito longe, para além das quais ficava Hisilómë onde os Homens vivem, os escravos Noldoli trabalham e poucos Eldar livres lá vão.
Olha, agora vou contar-te coisas que aconteceram nos salões de Tinwelint depois do nascimento do Sol mas muito antes da inesquecível Batalha das Lágrimas Inumeráveis. Quando Melko ainda não tinha completado os seus desígnios nem revelado todo o seu poder e crueldade.

Duas crianças tinha Tinwelint, Dairon e Tinúviel, Tinúviel era uma donzela, a mais bela de todas as donzelas dos Elfos escondidos, e de facto poucas foram tão bonitas quanto ela, pois a sua mãe era uma fada, filha dos Deuses; mas Dairon era então um forte e alegre rapaz, e acima de tudo deleitava-se a tocar flautas ou outros instrumentos de madeira, e ele é agora nomeado entre os três mais mágicos flautistas dos Elfos, sendo os outros Tinfang Warble e Ivárë que toca ao lado do mar. Mas a alegria de Tinúviel estava antes na dança, e nenhuns nomes se juntam ao dela devido à beleza e subtileza dos seus pés dançantes.
Era o deleite de Dairon e Tinúviel viajar para longe do palácio cavernoso de Tinwelint, seu pai, e juntos passarem longos tempos entre as árvores. Ali muitas vezes se sentava Dairon sobre uma moita ou uma raiz e fazia musica enquanto Tinúviel dançava, e quando ela dançava ao toque de Dairon era mais esbelta que Gwendeling, mais magica que Tinfang Warble debaixo da Lua, nem podia alguém ver tal ritmo excepto nos jardins de rosas de Valinor onde Nessa dança nos relvados de relva imperecível.
Mesmo de noite quando a lua brilhava pálida eles tocavam e dançavam, e não tinham medo como eu teria, pois o governo de Tinwelint e de Gwendeling afastava o mal dos bosques e Melko ainda não os atacava, e os Homens estavam presos para lá das montanhas.
O lugar que eles mais gostavam era um sitio sombrio, olmos cresciam ali, e faias também, mas estas não eram muito altas, e havia alguns castanheiros com flores brancas, mas o chão era molhado e muitas cicutas erguiam-se debaixo das árvores. Num dia de Junho eles estavam tocando ali, e as brancas sombrinhas das cicutas eram como nuvens à volta dos troncos das árvores, e ali Tinúviel dançou até o entardecer se desvanecer, e havia muitas traças brancas por ali. Tinúviel sendo uma fada não se importou com elas como fariam as crianças dos Homens, apesar de não gostar de insectos, e em aranhas nenhum dos Eldar tocar por causa de Ungweliantë – mas agora as brancas traças esvoaçavam à volta da sua cabeça e Dairon tocou uma melodia sobrenatural, quando de repente aquela estranha coisa aconteceu.
Nunca ouvi como Beren passou pelas montanhas; no entanto ele era mais bravo que a maioria, como vais ouvir, e foi talvez o amor de viajar que o fez atravessar os terrores das Montanhas de Ferro até chegar às Terras Para Além.
Beren era um Gnomo, filho de Egnor, o caçador, que caçava nos escuros lugares do norte de Hisilómë. Medo e suspeitas havia entre os Eldar e esses do seu povo que tinham provado a escravatura de Melko, e assim as más acções dos Gnomos no Porto dos Cisnes foram vingadas. As mentiras de Melko corriam entre o povo de Beren, tanto que ele acreditava em coisas horríveis sobre os Elfos secretos, no entanto agora ele via Tinúviel a dançar no crepúsculo, e Tinúviel usava um vestido prateado, e os seus brancos pés descalços dançavam por entre os ramos das cicutas. Então Beren não se importou se ela era uma Vala, Elfa ou filha dos Homens e aproximou-se para ver; e ele encostou-se a um jovem olmo que crescia sobre um monte de modo a poder olhar para o pequeno vale onde ela estava dançando, pois o encantamento fê-lo tonto. Tão esbelta era ela e tão bela que aos poucos ele aproximou-se sem cuidado para melhor poder olha-la, e nesse momento a lua cheia apareceu brilhando através dos ramos e Dairon viu a face de Beren. Rapidamente ele percebeu que não era ninguém do seu povo, e todos os Elfos da floresta achavam os Gnomos de Dor Lómin traiçoeiras criaturas, cruéis e falsas, portanto Dairon largou o seu instrumento e gritando "Foge, Foge, Ó Tinúviel, um inimigo caminha nos bosques" ele desapareceu pelas árvores. Então Tinúviel no seu espanto não o seguiu de imediato, pois não entendeu logo as suas palavras, e sabendo que não podia correr ou saltar tão rápido como o seu irmão ela deslizou subitamente para entre as brancas cicutas e escondeu-se debaixo de uma alta flor com muitas folhas; e aqui ela parecia, nas suas brancas vestimentas, como um salpico de luar brilhando através das folhas sobre o chão.
Beren estava triste, pois ele estava sozinho e magoado com o medo deles, e procurou por Tinúviel a toda a volta, pensando que ela não fugira. Assim subitamente ele pôs a sua mão sobre o esbelto braço dela debaixo das folhas, e com um grito ela rapidamente se afastou dele e correu tão depressa como podia na luz crepuscular, entre os troncos e os ramos de cicutas. O suave toque do seu braço fez Beren ainda mais ansioso que antes de a encontrar, e ele seguiu-a rapidamente e no entanto não rápido o suficiente, pois no fim ela escapou, e chegou às habitações do seu pai com medo; e durante muitos dias não voltou a dançar nos bosques sozinha.
Isto foi uma grande pena para Beren, que não deixou aqueles locais, esperando ver aquela bela donzela élfica dançar outra vez, e ele vagueou nos bosques selvagem e solitário durante muitos dias procurando por Tinúviel. Pela aurora ou entardecer ele procurou-a, mas sempre com mais esperança quando a lua brilhava intensamente. Por fim uma noite ele viu um brilho lá ao longe, e olhai, ali estava ela a dançar sozinha num pequeno monte sem árvores e Dairon não estava ali. Muitas vezes ela ali voltou e dançou e cantou para si mesma, e algumas vezes Dairon estava perto, e então Beren olhava longe da beira do bosque, e outras vezes ele estava longe e Beren aproximava-se. De facto havia muito que Tinúviel sabia da sua chegada e fingia o contrario, havia muito que o medo tinha partido pela razão da ávida fome do seu rosto acesso pelo luar; e ela viu que ele era gentil e enamorado da sua bela dança.
Beren seguiu Tinúviel secretamente através dos bosques até à entrada da caverna e ponte, e quando ela desaparecia ele chorava ao lado do rio, docemente dizendo "Tinúviel", pois ele tinha apanhado o nome dos lábios de Dairon; e apesar de ele não saber, Tinúviel muitas vezes ouvia do interior das sombras das cavernosas portas e ria docemente ou sorria. Por fim, um dia, enquanto ela dançava sozinha ele aproximou-se ousadamente e disse-lhe: "Tinúviel, ensina-me a dançar." "Quem és tu?" disse ela. "Beren. Eu venho para lá das Montanhas Amargas." "Então se queres dançar, segue-me," disse a donzela, e ela dançou diante de Beren afastando-se, e entrou nos bosques, ágil e no entanto não tão rápida que ele não a pudesse seguir, e de vez em quando ela olhava para trás e ria-se dele tropeçando, dizendo: "Dança, Beren, dança! Como eles dançam para lá das Montanhas Amargas!" Desta maneira eles chegaram por longos caminhos à habitação de Tinwelint, e Tinúviel acenou-lhe do outro lado do rio, e ele seguiu-a descendo para a caverna e fundos salões da sua casa.

Quando Beren se encontrou diante do rei ficou embaraçado e maravilhado com a majestade da Rainha Gwendeling, e quando o rei perguntou: "Quem és tu que chegas tropeçando aos meus salões sem ser convidado?" ele nada disse. Tinúviel respondeu por ele, dizendo: "Este, meu pai, é Beren, um caminhante de para lá das montanhas, e ele queria aprender a dançar como só os Elfos de Artanor sabem," e ela riu, mas o rei franziu-se quando ouviu donde Beren vinha, e disse: "Guarda as tuas leves palavras, minha filha, e diz se este selvagem Elfo das sombras procurou fazer-te algum mal?"
"Não, pai," disse ela, "e eu acho que não há nenhum mal no seu coração, e não sejas duro com ele, a não ser que desejes ver a tua filha Tinúviel a chorar, pois mais maravilha tem ele com a minha dança do que qualquer outro que eu conheci. " Por esse motivo disse Tinwelint agora: "Ó Beren filho dos Noldoli, que desejas tu dos Elfos da Floresta antes de regressares para onde viestes?"
Tão grande foi o espanto e alegria do coração de Beren quando Tinúviel falou por ele ao seu pai que a sua coragem se ergueu, e o seu espírito aventureiro que o trouxe para fora de Hisilómë e sobre as Montanhas de Ferro acordou outra vez, e olhando ousadamente sobre Tinwelint disse: "Ora, Ó rei, eu desejo a vossa filha Tinúviel, pois ela é a mais bela e mais doce de todas as donzelas que eu já vi ou sonhei."
Então fez-se silencio no salão, excepto Dairon que riu, e todos que ouviram aquilo espantaram-se, mas Tinúviel baixou o olhar, e o rei olhando para o selvagem e rude aspecto de Beren começou a rir, fazendo Beren corar de vergonha, e o coração de Tinúviel compadeceu-se dele. "Ora essa! Casa com a minha Tinúviel, a mais bela donzela do mundo, e torna-te um príncipe dos Elfos da Floresta – é um pequeno pedido para um estranho," disse Tinwelint. "Certamente que posso pedir algo em troca. Nada muito grande, só um sinal da tua estima. Traz-me um Silmaril da Coroa de Melko, e nesse dia Tinúviel casa-se contigo, se ela quiser."
Então todos naquele lugar perceberam que o rei tratava o assunto como uma estranha brincadeira, tendo pena do Gnomo, e sorriram, pois a fama dos Silmarils de Fëanor era agora grande por todo o mundo, pois os Noldoli tinham contado histórias sobre eles, e muitos que tinham escapado de Angamandi tinham-nos visto a brilhar lustrosamente na coroa de ferro de Melko. Nunca esta deixava a sua cabeça, e ele estimava essas jóias como os seus olhos, e ninguém no mundo, fada, elfo ou homem, podia esperar por as mãos nelas e viver. Isto sabia Beren, e ele adivinhou o significado dos seus sorrisos trocistas, e inflamado de raiva gritou: "Não, isso é uma prenda pequena para o pai de tão doce noiva. Estranhos me parecem os costumes dos Elfos da Floresta, como as rudes leis do povo dos Homens, que vós nomeeis a prenda a ser oferecida, no entanto olhai! Eu Beren, caçador dos Noldoli, vou cumprir o vosso pequeno desejo," e com isso ele saiu do salão enquanto todos olhavam espantados; mas Tinúviel de repente chorou. "Foi mal feito, Ó meu pai," ela gritou, "mandar alguém para a morte com esta tua triste brincadeira – pois eu acho que ele vai tentar o feito, enlouquecido pelo teu desprezo, e Melko vai mata-lo, e ninguém voltará a olhar com tal amor para a minha dança."
Então o rei disse: "Não será o primeiro dos Gnomos que Melko mata e por menos razões. É melhor para ele não ficar aqui preso com fortes feitiços pela sua invasão dos meus salões e pelo seu insolente discurso."; no entanto Gwendeling não disse nada, nem repreendeu Tinúviel ou lhe perguntou o porque daquele súbito choro por aquele caminhante desconhecido.
Beren saindo da presença de Tinwelint foi carregado pela sua raiva muito longe pelos bosques, até que chegou às colinas e terras nuas que avisam da proximidade das escuras Montanhas de Ferro. Só então ele sentiu cansaço e abrandou a marcha, e só depois começaram os seus maiores trabalhos. Tinha noites de profundo desanimo e não via qualquer esperança na sua busca, e de facto pouca havia, e logo, enquanto seguia as Montanhas de Ferro até se aproximar das terríveis regiões onde Melko habita, grandes medos o tomaram. Muitas cobras venenosas ali havia e lobos rondavam por perto, e ainda mais perigosos eram os bandos errantes de goblins e Orcs – sujas criaturas de Melko que viajavam longe fazendo o seu trabalho sujo, iludindo e capturando bestas, Homens e Elfos, e arrastando-os para o seu senhor.
Muitas vezes esteve Beren perto da captura por Orcs, e uma vez escapou das mandíbulas de um grande lobo depois de um combate onde só estava armado com um ramo de freixo, e outros perigos e aventuras ele conheceu cada dia do seu caminho para Angamandi. Fome e sede torturavam-no, e muitas vezes teria voltado a trás não fosse isso tão perigoso como continuar; mas a voz de Tinúviel pedindo a Tinwelint ecoava no seu coração, e de noite parecia-lhe que ele a ouvia chorar docemente por ele nas florestas da sua casa: - e isto era de facto verdade.
Um dia ele foi forçado pela fome a procurar num acampamento deserto de Orcs restos de comida, mas alguns voltaram e levaram-no como prisioneiro, e atormentaram-no mas não o mataram, pois o seu capitão vendo a sua força, apesar de desgastado com dificuldades, pensou que Melko talvez ficasse satisfeito se ele o trouxesse diante dele e talvez o pusesse em algum trabalho escravo nas suas minas ou nas forjas. Assim aconteceu que Beren foi arrastado diante de Melko, mas ele foi com um coração bravo mesmo assim, pois era crença no povo do seu pai que o poder de Melko não duraria para sempre, que os Valar ouviriam por fim as lágrimas dos Noldoli, e se levantariam e prenderiam Melko, abrindo Valinor uma vez mais aos cansados Elfos, e grande alegria voltaria à Terra.
Melko no entanto olhando para ele ficou furioso, perguntando como é que um Gnomo, um escravo seu por nascimento, se tinha atrevido a viajar para os bosques sem autorização, mas Beren respondeu que ele não era nenhum fugitivo mas que vinha de um povo dos Gnomos que vivia em Aryador e que se tinha misturado ai entre o povo dos Homens. Então Melko ficou ainda mais furioso, pois ele sempre procurara destruir as amizades e relações dos Elfos e Homens, e disse que evidentemente aqui estava um conspirador de profundas traições contra a autoridade de Melko, punível com as torturas dos Balrogs; mas Beren vendo o seu perigo respondeu: "Não penseis, Ó mais poderoso Ainu Melko, Senhor do Mundo, que isso é verdade, se fosse, eu não estaria aqui sem ajuda e sozinho. Nenhuma amizade tem Beren filho de Egnor pelo povo dos Homens; nenhuma de facto, cansado das terras infestadas por esse povo ele vagueou para fora de Aryador. Muitas grandes histórias o meu pai me contou sobre o vosso esplendor e gloria, razão por que, não sendo um escravo fugido, eu não desejo mais nada do que servir-vos da maneira que possa," e Beren disse depois que ele era um grande caçador de pequenos animais e aves, e que se tinha perdido nas colinas nessas caçadas até que depois de muito caminhar tinha chegado a terras estranhas, e mesmo que os Orcs não o tivessem apanhado ele não teria tido outra alternativa senão aproximar-se da majestade de Ainu Melko e pedir-lhe algum pequeno trabalho – como caçador de carnes para a sua mesa talvez.
Os Valar devem ter inspirado aquele discurso, ou talvez tenha sido um feitiço de sábias palavras posto nele em compaixão por Gwendeling, pois de facto salvou-lhe a vida, e Melko olhando o seu firme corpo acreditou nele, e ficou disposto a aceita-lo como escravo nas suas cozinhas. A adulação era sempre doce nas narinas daquele Ainu, e mesmo com toda a sua infindável sabedoria muitas mentiras, daqueles que ele desprezava, o enganavam, estivessem elas envolvidas em palavras de louvor; assim foi que ele deu ordens para Beren ser feito um escravo de Tevildo Príncipe dos Gatos. Tevildo era um grande gato – o maior de todos – possuído por um espírito maléfico, como alguns dizem, e ele e os seus súbditos eram os caçadores de carne para a mesa de Melko e para os seus frequentes banquetes. Por isso é que ainda há ódio entre os Elfos e todos os gatos mesmo agora quando Melko já não governa, e as suas criaturas já são poucas.
Quando por fim Beren foi conduzido para os salões de Tevildo, e estes não eram muito distantes do trono de Melko, ele estavam com muito receio, pois ele não tinha esperado tal volta nas coisas, e esses salões eram muito mal iluminados e cheios de rugidos e monstruosos ronronares no escuro. A toda a volta cintilavam olhos de gatos brilhando como lâmpadas verdes ou vermelhas ou amarelas onde os servos de Tevildo se sentavam abanando e chicoteando as suas belas caudas, mas Tevildo sentava-se acima deles e ele era um grande gato, negro como carvão e com ar feroz. Os seus olhos eram longos, muito estreitos e oblíquos, e brilhavam vermelhos e verde, mas os seus grandes bigodes cinzentos eram tão fortes e aguçados como agulhas. O seu ronronar era como o toque de tambores e o seu rugido como o trovão, mas quando ele gritava com raiva gelava o sangue, e de facto pequenos animais e aves ficavam paralisados como pedras, ou caíam sem vida com esse som. Agora Tevildo vendo Beren estreitou os olhos até eles parecerem fechar, e disse: "Eu cheiro cão" e desconfiou de Beren desde esse momento. E de facto Beren tinha sido um grande amante de cães na sua própria casa.
"Porquê," disse Tevildo, "se atrevem a trazer tal criatura diante de mim, a não ser que seja para fazer carne dele?" Mas os que conduziam Beren disseram: "Não, é a vontade de Melko que este infeliz Elfo passe a sua vida como caçador de bestas e aves ao serviço de Tevildo." Então Tevildo gritou com desdém e disse: "Então na verdade o meu senhor estava a dormir ou os seus pensamento estavam noutro lugar, que uso acham vocês que é um filho dos Eldar para ajudar o Príncipe dos Gatos e os seus servos a apanhar aves e bestas – mais valia terem trazido um desajeitado Homem, pois não há ninguém, seja Elfo ou Homem, que possa rivalizar connosco na nossa caçada." Mesmo assim ele impôs um teste a Beren, mandou-o apanhar três ratos, "pois o meu salão está infestado," disse ele. Isto não era verdade, como pode ser imaginado, no entanto havia alguns – uma muito selvagem, maléfica e magica raça que se atrevia a viver ali em escuros buracos, mas eles eram maiores que ratazanas e muito ferozes, e Tevildo guardava-os para o seu próprio desporto e não permitia que os seus números diminuíssem.
Três dias Beren os caçou, mas não tendo nada com que fazer uma armadilha (e de facto ele não tinha mentido a Melko quando disse que tinha perícia em tais coisas) ele caçou em vão, apanhando nada melhor que um dedo mordido por todo o trabalho. Então teve de suportar todo o desdém e ira de Tevildo, mas Beren não foi maltratado por ele ou pelos seus servos dessa vez devido às ordens de Melko, só uns arranhões. Maus, contudo, foram os seus dias desde então nos salões de Tevildo. Eles fizeram-no ajudante de cozinha, e os seus dias passaram miseravelmente, lavando chãos e pratos, esfregando mesas, cortando madeira e carregando água. Muitas vezes era posto a rodar os espetos onde aves e gordos ratos eram deliciosamente assados para os gatos, no entanto poucas vezes ele comia ou dormia, e tornou-se faminto e inquieto, desejando, muitas vezes, nunca ter saído de Hisilómë e assim nunca ter contemplado a visão de Tinúviel.

Mas essa bela donzela chorou muito tempo depois da partida de Beren e não mais dançou nos bosques, e Dairon, não a entendendo, zangou-se, mas ela tinha começado a amar a face de Beren espreitando através dos ramos e o barulho dos seus pés enquanto estes a seguiam pelo bosque; e a sua voz que chamava com ânsia "Tinúviel, Tinúviel" através do rio diante das portas do seu pai ela queria ouvir outra vez, ela não dançaria agora enquanto Beren viajava para os salões de Melko e podia estar já morto. Tão amargo se tornou este sentimento que por fim esta suave donzela foi ter com sua mãe, pois ao seu pai não se atrevia a ir nem lhe permitiria que a visse chorar.
"Ó Gwendeling, minha mãe," disse ela, "diz-me com a tua magia, se puderes, como vai a viagem de Beren. Está tudo bem com ele?" "Não," disse Gwendeling. "Ele vive de facto, mas num horrível cativeiro, e a esperança morreu no seu coração, pois olha, ele é um escravo no poder de Tevildo Príncipe dos Gatos."
"Então," disse Tinúviel, "Eu tenho que ir socorre-lo, pois não conheço mais ninguém o que o faça."
Gwendeling não riu, pois em muitos assuntos era sábia, e vidente, no entanto era uma coisa impensável que um Elfo, ainda menos uma donzela, a filha do rei, viajasse sozinha aos salões de Melko, mesmo nesses dias antes da Batalha das Lágrimas quando o poder de Melko ainda não era grande e ele escondia os seus desígnios e espalhava a sua rede de mentiras. Assim era que Gwendeling lhe pediu para não voltar a dizer tal loucura; mas Tinúviel disse: "Então tens que pedir ao meu pai ajuda, que ele mande guerreiros para Angamandi e exija a liberdade de Beren do Ainu Melko."
Isto fez Gwendeling, por amor à sua filha, mas tão irado ficou Tinwelint que Tinúviel desejou que o seu sentimento não tivesse sido conhecido; e Tinwelint mandou-a não falar nem pensar mais em Beren, e jurou que o mataria se ele caminhasse naqueles salões outra vez. Então Tinúviel ponderou o que poderia fazer, e indo ter com Dairon pediu-lhe para a ajudar, ou mesmo viajar com ela para Angamandi se ele quisesse; mas Dairon tinha pouco amor por Beren, e disse: "Porque iria eu para o maior perigo que há no mundo pela saúde de um vagabundo Gnomo dos bosques? De facto eu não tenho nenhum amor por ele, pois ele destruiu a nossa brincadeira, a nossa música e a nossa dança." Mas Dairon para mais disse ao rei o que Tinúviel queria dele – e isto ele não fez por mal mas sim por temer que Tinúviel viajasse para a morte com a loucura do coração.
Quando Tinwelint ouviu isto chamou Tinúviel e disse: “Porquê, Ó donzela minha, não procuras fazer o que te mando?” Mas Tinúviel não respondeu, e o rei mandou-a prometer que não voltaria a pensar em Beren, nem na sua loucura tentar procura-lo nas terras más fosse sozinha ou tentando algum do seu povo. Mas Tinúviel disse que o primeiro não prometeria e do segundo só parte, pois ela não tentaria nenhum do povo das florestas para ir com ela.
Então o seu pai ficou muito zangado, mas debaixo da sua ira um pouco espantado e com medo, pois amava Tinúviel; e foi este o plano que engendrou, pois ele não prenderia a sua filha em cavernas onde só um fraca e tremida luz chegava. Acima dos portais do seu salão cavernoso havia uma íngreme encosta caindo para o rio, e ai cresciam grandes faias; e havia uma chamada Hirilorn, a Rainha das Árvores, pois era muito grande, e tão fendido o seu tronco que parecia que três troncos emergiam do chão juntos e eram do mesmo tamanho, redondos e direitos, e a sua cinzenta casca era suave como seda, sem ramos ou galhos até uma grande altura.
Tinwelint mandou construir alto nessa estranha árvore, tão alto quanto as mais altas escadas chegassem, uma pequena casa de madeira, era acima dos primeiros ramos e estava docemente escondida nas folhas. Essa casa tinha três cantos e três janelas em cada parede, em cada canto estava um dos troncos da Hirilorn. Ai Tinwelint mandou Tinúviel viver até se tornar mais sensata, e quando ela subiu as altas escadas de pinho estas foram retiradas e ela ficou sem maneira de descer. Tudo o que ela precisava era trazido, e o povo tinha que subir as escadas e dar-lhe comida ou o que ela desejasse, descendo depois e tirando as escadas, e o rei prometeu morte a quem deixasse uma encostada à árvore ou tentasse colocar uma à noite. Por isso uma guarda foi colocada aos pés da árvore, e ainda vinha Dairon muitas vezes para ali com desgosto pelo que tinha feito, pois estava sozinho sem Tinúviel; mas Tinúviel teve ao princípio muito prazer na sua casa entre as folhas, e olhava da sua pequena janela enquanto Dairon fazia as suas doces melodias lá em baixo.
Mas uma noite um sonho dos Valar chegou a Tinúviel e ela sonhou com Beren, e o seu coração disse: “Deixa-me ir para procurar aquele que todos esqueceram”; e acordando, a lua brilhava através das árvores, e ela pensou como poderia escapar. Tinúviel, filha de Gwendeling, não era ignorante na arte da magia e feitiços. Como se pode acreditar, e após muito pensar engendrou um plano. No dia seguinte ela pediu aqueles que a serviam que trouxessem, se pudessem, alguma da mais clara água do rio, “mas isto,” ela disse, “deve ser feito à meia-noite numa taça de prata, e trazido até mim sem palavra falada,” e depois desejou que vinho lhe fosse trazido, “mas isto,” disse ela, “deve ser trazido até mim num jarro de ouro ao meio-dia, e aquele que o trazer deve cantar pelo caminho,” e eles fizeram como ela mandou, mas nada foi dito a Tinwelint.
Então disse Tinúviel, “Ide agora à minha mãe e digam-lhe que a sua filha deseja uma roda de fiar para passar as suas longas horas,” mas a Dairon ela secretamente pediu que lhe fizesse um pequeno tear, e ele fê-lo mesmo na pequena casa da árvore. “Mas o que vais fiar e o que vais tecer?” disse ele; e Tinúviel respondeu: “Feitiços e magias,” mas Dairon não percebeu a sua ideia, nem disse nada ao rei ou a Gwendeling.
Então Tinúviel tomou o vinho e água quando ficou sozinha, e cantando uma mágica canção, misturou-os, e enquanto jaziam juntos na taça de ouro cantou uma canção de crescimento, e enquanto estavam na taça de prata cantou outra canção, e os nomes de todas as coisas mais altas e longas na Terra foram postas nessa canção; as barbas dos Indravangs, a cauda de Karkaras, o corpo de Glorund, o tronco de Hirilorn, e a espada de Nan ela nomeia, e não se esquece da corrente Angainu que Aulë e Tulkas fizeram ou do pescoço de Gilim o gigante, e por último e mais longo de todos ela nomeou o cabelo de Uinen, a senhora do mar, que se estende por todas as águas. Então ela lavou a cabeça com a mistura de água e vinho, e enquanto o fazia cantou uma terceira canção, uma canção do mais profundo sono, e o cabelo de Tinúviel que era escuro e mais fino do que os mais delicados fios do entardecer começaram subitamente a crescer muito depressa, e passadas doze horas quase que enchia o pequeno quarto, e então Tinúviel ficou satisfeita e deitou-se para descansar; e quando acordou o quarto estava cheio de uma névoa negra e ela estava envolta nela, e olhai! o seu cabelo saia pelas janelas e tocava os ramos da árvore pela manhã. Então com dificuldade ela encontrou a sua pequena tesoura e cortou as madeixas perto da cabeça, e depois disso o seu cabelo cresceu como antes.
Só então começou o seu trabalho, e apesar de trabalhar com a rapidez de um Elfo longamente ela fiou e longamente teceu, e se alguém viesse e a chamasse de baixo ela mandava-os embora, dizendo: “Estou na cama, e só desejo dormir,” e Dairon espantou-se, e chamou-a muitas vezes, mas ela não respondeu.
Agora daquele escuro cabelo Tinúviel teceu um nebuloso manto negro, encharcado com uma sonolência mais magica do que aquele que a sua mãe tinha usado à muito tempo antes do Sol nascer, e com ele cobriu as suas vestimentas de cintilante branco, e sombras magicas encheram os ares à sua volta; mas do que restava ela fez uma grande corda, e atou esta ao tronco da árvore dentro de casa, e assim acabou o seu trabalho, e olhou da sua janela para o rio a oeste. Já a luz se desvanecia nas árvores, e enquanto o crepúsculo enchia os bosques ela começou uma canção muito suave e baixa, e cantando atirou o seu longo cabelo pela janela para que as suas névoas sombrias tocassem as cabeças e faces dos guardas, e eles ouvindo a sua voz caíram subitamente num sono profundo. Então Tinúviel com as suas vestes de sombra desceu aquela corda de cabelo rápida como um esquilo, e foi dançando até à ponte, e antes que os guardas da ponte pudessem gritar ela estava entre eles dançando; e quando a bainha do escuro manto lhes tocava eles caíam dormindo, e Tinúviel fugiu para longe tão depressa quanto os seus pés dançantes lhe permitiam.
Quando a fuga de Tinúviel chegou aos ouvidos de Tinwelint grande foi o seu desgosto e ira, e toda a sua corte ficou agitada, e todos os bosques se encheram com o barulho das buscas, mas Tinúviel já estava longe aproximando-se das sombrias colinas onde as Montanhas da Noite começam; e também é dito que Dairon seguindo o rasto dela se perdeu irremediavelmente, e nunca mais voltou à Elficidade, mas seguiu em direcção a Palisor, e ai ainda toca suaves musicas magicas, anelante e solitário nos bosques e florestas do sul.
No entanto depois de muito caminhar um súbito medo tomou Tinúviel, pensando no que tinha feito e no que estava para vir; então voltou para trás durante um tempo, e chorou, desejando que Dairon estivesse com ela, e é dito que ele não estava longe, que vagueava perdido nos grandes pinheiros, a Floresta da Noite, onde depois Túrin matou Beleg por acidente. Perto estava Tinúviel desse lugares, mas ela não entrou nessa escura região, e ganhando coragem voltou a avançar, e por causa da sua grande magia e pelos feitiços de espanto e sono que estavam à sua volta nenhum perigo a atacou como antes a Beren; era no entanto uma longa, temível e cansativa viagem para uma donzela.
Devo dizer-te, Eriol, que nesses dias Tevildo só tinha um problema no mundo, e esse era o povo dos Cães. Muitos desses, de facto, não eram nem amigos nem inimigos dos Gatos, pois tinham-se tornado súbditos de Melko e eram tão selvagens e cruéis como qualquer um dos seus animais; na verdade, dos mais cruéis e selvagens ele criou a raça dos lobos, e eles eram-lhe muito preciosos. Não era o grande lobo cinzento Karkaras, Dente de Faca, pai de lobos, que guardava as portas de Angamandi nesses dias e à muito que o fazia? No entanto havia muitos que não se curvavam a Melko nem viviam com medo dele, mas que habitavam nas casas dos Homens e guardavam-nas dos males que rondavam ou vagueavam nos bosques de Hisilómë ou passando os lugares montanhosos viajavam para a região de Artanor, para as terras distantes e para o sul.
Se algum destes visse Tevildo ou algum dos seus capitães ou súbditos, então havia um grande ladrar e uma longa perseguição, e apesar de poucos gatos serem mortos devido às suas habilidades a trepar e a esconder-se e por causa da protecção de Melko, ainda assim havia uma grande inimizade entre eles, e alguns desses cães eram muito temidos entre os gatos. No entanto Tevildo não temia nenhum, pois ele era tão forte como qualquer um deles, e mais ágil e mais rápido excepto só Huan, Capitão de Cães. Tão rápido era Huan que uma vez tinha provado o pêlo de Tevildo, e apesar de Tevildo o ter feito pagar por isso com um golpe das suas grandes garras, ainda assim não tinha o orgulho do Príncipe dos Gatos sido apaziguado e ele sonhava fazer um grande mal a Huan dos Cães.
Por isso grande foi a sorte de Tinúviel no seu encontro com Huan nos bosques, apesar de no princípio ter tido medo e ter fugido. Mas Huan apanhou-a em dois saltos, e falando suave e profundamente a língua dos Elfos Perdidos pediu-lhe que não tivesse medo, e “Porquê,” disse ele, “vejo eu uma donzela Élfica, e das mais belas, vagueando sozinha tão perto das habitações do Ainu do Mal? Não sabes que estes são lugares maus para se estar, pequena, mesmo com companhia, e morte certa para os solitários?”
“Isso eu sei,” disse ela, “ e eu não estou aqui pelo amor de viajar, mas procuro Beren.”
“Que sabes tu então,” disse Huan, “de Beren – se realmente te referes a Beren filho do caçador dos Elfos, Egnor bo-Rimion, um amigo meu desde à muito tempo?”
“Não, eu não sei sequer se o meu Beren é teu amigo, pois eu só procuro o Beren vindo do outro lado das Montanhas Amargas, que eu conheci nos bosques perto da casa do meu pai. Agora ele foi-se, e a minha mãe, Gwendeling, diz com a sua sabedoria que ele é um escravo na cruel casa de Tevildo Príncipe dos Gatos; e se isto é verdade ou algo pior lhe aconteceu eu não sei, e viajo para o descobrir – apesar de não ter nenhum plano.”
“Então eu faço-te um,” disse Huan, “mas tens que confiar em mim, pois eu sou Huan dos Cães, o grande inimigo de Tevildo. Descansa agora um pouco nas sombras do bosque, enquanto eu penso profundamente.”
Então Tinúviel fez como ele disse, e de facto dormiu muito tempo enquanto Huan vigiava, pois estava muito cansada. Mas passado um tempo ao acordar disse: “Olhai, eu demorei-me aqui demasiado. Vamos, qual é o teu plano, Ó Huan?”
E Huan disse: “Um escuro e difícil assunto é este, e nenhum outro plano posso eu engendrar senão este. Vai agora, se tiveres coragem, para as habitações desse Príncipe enquanto o sol está alto, e Tevildo e a maioria da sua casa dormita nos terraços diante das portas.
Ai tenta descobrir, da maneira que puderes, se Beren está de facto lá dentro, como a tua mãe disse. Eu não vou estar muito longe nos bosques, e tu dar-me-ás o prazer e ajudaras os teus desejos indo diante de Tevildo, quer Beren lá esteja ou não, e dir-lhe-ás que encontrastes Huan dos Cães doente nos bosques, neste lugar. Não lhe indiques o caminho para aqui, pois, se for possível, deves ser tu a guia-lo. Então verás o que eu preparei para ti e para Tevildo. Eu acho que trazendo tais notícias, Tevildo não te tratará mal nem procurará prender-te lá.”
Desta maneira Huan conseguia ferir Tevildo, ou talvez matá-lo, e ajudar Beren que ele adivinhou com verdade ser esse Beren filho de Egnor a quem os cães de Hisilómë amavam. De facto ouvindo o nome de Gwendeling e sabendo assim que esta donzela era uma princesa dos Elfos do bosque ele ficou ansioso por ajuda-la, e o seu coração aqueceu com a sua doçura.
Tomando coragem Tinúviel aproximou-se dos salões de Tevildo, e Huan espantou-se com a sua bravura, seguindo-a sem ela saber, tão longe quanto ele pudesse para o sucesso do plano. Mas por fim ela afastou-se dele, e deixando o abrigo das árvores chegou a uma região, de erva alta com arbustos, que subia até uma elevação nas colinas. Sobre essa elevação o sol brilhava, mas sobre as colinas e montanhas que ficavam atrás uma nuvem negra pairava, pois ali era Angamandi; e Tinúviel continuou a caminhar mas sem se atrever a olhar essa escuridão, pois o medo oprimia-a, e enquanto avançava o chão subia, a erva era mais escassa e as rochas multiplicavam-se até se chegar a um penhasco, a pique de um lado, e aí sobre um pedregoso terraço estava o castelo de Tevildo. Nenhum caminho lá levava, e o lugar onde estava caía sobre os bosques terraço sobre terraço de modo que ninguém podia chegar às suas portas excepto com grande saltos, e esses terraços tornavam-se mais altos à medida que o castelo se aproximava. Poucas eram as janelas da casa e no chão não havia nenhumas – de facto o próprio portão estava onde, nas habitações dos Homens, estão as janelas do andar de cima; mas o telhado tinha muitos espaços grandes e planos abertos ao sol.
Tinúviel vagueava desconsolada no terraço mais baixo e olhava com medo para a escura casa na colina, quando olhai, ela chegou a uma curva na rocha onde um solitário gato dormia ao sol. Enquanto ela se aproximava ele abriu um olho amarelo e piscou-o a ela, e depois levantou-se e espreguiçando-se aproximou-se e disse: “Para onde vais, pequena donzela – não sabes que invades os terraços solarengos de sua majestade Tevildo e dos seus servos?”
Tinúviel estava com muito medo, mas deu uma resposta ousada, dizendo: “Eu sei isso, meu senhor” – e isto agradou muito ao velho gato, pois ele era na verdade apenas o porteiro de Tevildo – “mas gostava de ser levada à presença de Tevildo imediatamente – mesmo que ele esteja a dormir,” disse ela, pois o porteiro chicoteou a cauda em negação. “Eu tenho palavras de grande importância para o seu ouvido. Levai-me até ele, meu senhor,” ela pediu, e com isso o gato ronronou tão alto que ela atreveu-se a acariciar a sua feia cabeça, e esta era muito mais larga que a sua, sendo maior do que a de que qualquer cão que exista agora na Terra. Suplicando assim, Umuiyan, pois tal era o seu nome, disse: “Vem comigo então,” e agarrando Tinúviel de repente pelo vestido, para grande terror dela, atirou-a para as suas costas e saltou para o segundo terraço. Aí parou, e enquanto Tinúviel descia das suas costas ele disse: “Sorte a tua que esta tarde o meu senhor Tevildo está neste terraço baixo, longe da sua casa, pois um grande cansaço e um desejo de dormir tomou conta de mim, temo que não te consiga carregar muito mais longe”; Tinúviel estava envolvida no seu manto de névoa negra.
Dizendo isto Umuiyan bocejou e esticou-se antes de a conduzir ao longo do terraço para um espaço aberto, onde sobre uma grande cadeira de pedras quentes se deitava a horrível forma de Tevildo, e os seus olhos estavam fechados. Aproximando-se dele o porteiro Umuiyan falou-lhe suavemente ao ouvido, dizendo: “Uma donzela aguarda-vos, meu senhor, diz que tem notícias importantes para vos entregar, e não aceita recusas.” Então, zangado, Tevildo chicoteou a cauda, abrindo um olho – “O que é – sê rápida,” disse ele, “pois isto não são horas de pedir audiências a Tevildo Príncipe dos Gatos.”
“Não, senhor,” disse Tinúviel, “não vos zangueis; nem acho que ides ficar quando ouvires, no entanto o assunto é tal que seria melhor não proferi-lo aqui onde as brisas sopram,” e Tinúviel lançou um olhar de apreensão para os bosques.
“Não, vai-te embora,” disse Tevildo, “cheiras a cão, e que boas noticias alguma vez chegaram a um gato de uma elfa com tratos com cães?”
“O porquê, senhor, de eu cheirar a cão não é motivo de admiração, pois acabei de escapar a um – e foi de facto de um muito poderoso cão cujo nome tu bem conheces.” Então Tevildo levantou-se e abriu os olhos, e olhou a toda a sua volta, e esticou-se três vezes, e por fim mandou o porteiro levar Tinúviel para dentro; e Umuiyan apanhou-a e pô-la nas costas como antes. Agora estava Tinúviel em profundo temor, depois de ter ganho o que desejava, uma hipótese de entrar na fortaleza de Tevildo e talvez descobrir se Beren lá estava, ela já não tinha plano, e não sabia o que o futuro lhe reservava – de facto se fosse possível ela teria fugido; no entanto os gatos começaram a subir os terraços em direcção ao castelo, e um salto dá Umuiyan com Tinúviel para cima e depois outro, e ao terceiro ele tropeça e Tinúviel grita com medo, e Tevildo disse: “O que se passa, Umuiyan, seu desastrado? Se calhar é tempo de deixares o meu serviço se a idade te apanha tão facilmente.” Mas Umuiyan disse: “Não, senhor, eu não sei o que é, mas uma névoa está nos meus olhos e a minha cabeça está pesada,” e ele tropeçou como alguém bêbado, fazendo com que Tinúviel escorregasse das suas costas, e depois caiu como se morto; mas Tevildo ficou furioso e agarrou Tinúviel sem cerimónias, e ele próprio a levou aos portões. Então com um grande salto ele entrou, e pedindo à donzela que descesse ele deu um grito que ecoou ferozmente nos escuros caminhos e passagens. Logo apareceram correndo para ele de lá de dentro, e a alguns ele pediu para descerem até Umuiyan e o prenderem para depois o atirar das rochas “do lado norte onde a queda é maior, pois ele já não tem nenhum uso para mim,” ele disse, “pois a idade roubou-lhe a firmeza dos pés,”; e Tinúviel tremeu ao ouvir a crueldade desta besta. Mas mesmo enquanto ele falava ele próprio bocejou e tropeçou com uma súbita sonolência, e pediu aos outros para levarem Tinúviel para uma certa sala, e essa era aquela onde Tevildo estava habituado a sentar-se às refeições com os seus servos. Estava cheia de ossos e cheirava mal; não tinha janelas e só uma porta; mas um havia um túnel que subia para as grandes cozinhas, e uma luz vermelha saia dai e iluminava levemente o lugar.
Tão amedrontada estava Tinúviel quando aqueles gatos a deixaram ali que por um momento não se conseguiu mexer, mas logo que ficou acostumada ao escuro olhou em volta e espiando o túnel que tinha uma larga soleira saltou lá para dentro, pois não era muito alto e ela era uma Elfa ágil. Olhando dai, pois estava entreaberto, ela viu as grandes e abobadadas cozinhas e os grandes fogos que ardiam aí, e os que labutavam lá dentro, a maioria gatos – mas olhai, ali ao lado de um grande fogo inclinava-se Beren, sobrecarregado com trabalho, e Tinúviel sentou-se e chorou, mas por enquanto não se atreveu a nada. Na verdade mesmo enquanto ela se sentava a dura voz de Tevildo soou subitamente dentro da sala: “Não, para onde em nome de Melko fugiu aquela Elfa,” e Tinúviel ouvindo encolheu-se contra a parede, mas Tevildo viu onde ela estava encolhida e gritou: “Então o pequeno pássaro já não canta; desce dai ou eu vou buscar-te, pois olha, eu não quero encorajar os Elfos a pedirem-me audiências em zombaria.”
Então com um pouco de medo, e um pouco de esperança de que a sua clara voz pudesse chegar até Beren, Tinúviel começou subitamente a falar muito alto e a contar a sua história até a sala ecoar; mas “Silêncio, cara donzela,” disse Tevildo, “se o assunto era secreto lá fora não é razão para o apregoar cá dentro.” Então Tinúviel disse: “Não me fales assim, Ó gato, podes ser o Senhor dos Gatos, mas não serei eu Tinúviel Princesa das Fadas que saí do meu caminho para te fazer um favor?” Com essas palavras, e ela gritou mais alto que antes, um grande estrondo foi ouvido nas cozinhas quando pratos de metal e barro caíram subitamente, e Tevildo rosnou: “Já tropeçou aquele idiota do Beren o Elfo. Melko me livre de tal povo” – no entanto Tinúviel, adivinhando que Beren tinha ouvido e ficado espantado, pôs de lado os seus medos e atreveu-se mais. Tevildo no entanto estava muito zangado com as palavras altivas dela, e se ele não estivesse tão interessado em ouvir a história dela, ter-se-ia zangado com Tinúviel imediatamente. Na verdade desde esse momento ela ficou em grande perigo, pois Melko e todos os seus vassalos consideravam Tinwelint e o seu povo como bandidos, e grande era a sua alegria ao captura-los e cruelmente os pôr a suplicar, assim grandes favores teria Tevildo recebido do seu senhor se lhe tivesse entregado Tinúviel. De facto, logo que ela se nomeou, a isso ele se propôs fazer logo que tratasse dos seus assuntos, mas na verdade os seus sentidos estavam entorpecidos nesse dia, e ele esqueceu-se de perguntar porque estava Tinúviel sentada na soleira do túnel; nem pensou mais em Beren, pois a sua mente só estava concentrada na história que Tinúviel lhe trouxe. Pelo que ele disse, disfarçando a sua má disposição, “Não, Senhora, não fiqueis zangada, mas vamos, não atraseis mais o meu desejo – o que é que tens para mim, estou ansioso de saber.”
E Tinúviel disse: “Há uma grande besta, rude e violenta, e o seu nome é Huan” – e com esse nome as costas de Tevildo arquearam, o seu pelo eriçou-se e estalou, e a luz dos seus olhos tornou-se vermelha – “e,” ela continuou, “parece-me uma vergonha que a tal bruto seja permitido infestar os bosques tão perto da habitação do poderoso Príncipe dos Gatos, meu senhor Tevildo”; e Tevildo disse: “Não lhe é permitido, e ele só lá vai escondido.”
“Como pode isso ser,” disse Tinúviel, “ele está lá agora, no entanto eu acho que por fim a sua vida pode acabar, pois olhai, enquanto eu passava pelos bosques vi um grande animal caído no chão gemendo como se doente – e olhai, era Huan, algum feitiço mau ou doença o tinha apanhado, e ainda lá está indefeso num vale a menos de uma milha para oeste deste salão. Eu não teria importunado os teus ouvidos com isto, não tivesse o bruto, quando me aproximei para o socorrer, rosnado para mim e tentado morder-me, e eu acho que tal criatura merece o que lhe aconteceu.”
Tudo isto que Tinúviel falou era uma grande mentira em que Huan a instruiu, e as donzelas dos Eldar não são de dizer mentiras; no entanto não ouvi que algum Eldar a culpasse por isso ou Beren depois, e nem eu, pois Tevildo era um gato malvado e Melko o mais abominável de todos os seres, e Tinúviel estava em mortal perigo nas suas mãos. Tevildo no entanto, ele próprio um excelente mentiroso, era tão profundamente versado nas mentiras e subtilezas de todas as bestas e criaturas que raramente sabia se devia acreditar no que lhe era dito ou não, e era rápido a desacreditar todas as coisas excepto aquelas que desejava serem verdadeiras, e assim muitas vezes era enganado pelos mais honestos. Agora a história de Huan e o seu desamparo agradaram-lhe tanto que ele de bom grado a julgou verdadeira, e determinado a por fim testa-la; no entanto no princípio fingiu indiferença, dizendo que isto era um assunto insignificante para tanto segredo e que podia ter sido falado lá fora sem mais demoras. Mas Tinúviel disse que ela não pensava que Tevildo Príncipe dos Gatos precisava de aprender que as orelhas de Huan ouviam o menor som a uma légua de distancia, e a voz de um gato ainda mais que qualquer outro.
Agora, portanto, Tevildo procurou descobrir de Tinúviel sob o pretexto de desconfiar da sua história onde exactamente Huan se podia encontrar, mas ela só deu respostas vagas, vendo nisto a sua única maneira de escapar do castelo, e por fim Tevildo, cheio de curiosidade e ameaçando-a com todas as coisas más se aquilo se provasse falso, chamou dois dos seus servos, e um era Oikeroi, um feroz gato de guerra. Então lá partiram os três com Tinúviel daquele lugar, mas Tinúviel tirou a sua magica vestimenta negra e dobrou-a, tanto que pelo seu tamanho e densidade não parecia maior que o mais pequeno lenço (pois de tal era ela capaz), e assim foi ela descida pelos terraços nas costas de Oikeroi sem acidentes, e nenhuma sonolência assolou o seu carregador. Assim eles avançam furtivamente pelos bosques na direcção que ela indicara, e logo Tevildo cheira cão e eriça-se e chicoteia a sua grande cauda, e depois trepa a uma alta árvore e olha daí para o vale que Tinúviel lhes mostrara. Ai ele vê de facto a grande forma de Huan deitado rosnando e gemendo, e ele desce com grande alegria e rapidez, e na sua ânsia esquece-se de Tinúviel, que agora com medo por Huan se esconde entre uns arbustos. O plano de Tevildo e dos seus dois companheiros era entrar no vale silenciosamente de diferentes direcções e assim apanharem Huan desprevenido e matarem-no, ou se ele estivesse demasiado doente para lutar jogar com ele e atormenta-lo. Isto fizeram eles, mas mesmo quando eles saltavam sobre ele, Huan saltou para o ar com um poderoso ladrar, e as suas mandíbulas fecharam-se nas costas perto do pescoço desse gato Oikeroi, e Oikeroi morreu; mas o outro servo fugiu uivando para cima de uma grande árvore, e assim foi Tevildo deixado sozinho para enfrentar Huan, e tal encontro não era do seu agrado, no entanto Huan estava demasiado perto para uma fuga, e eles lutaram ferozmente naquela clareira, e o barulho que Tevildo fez era horrível; mas por fim Huan apanhou-o pela garganta, e esse gato bem podia ter morrido não fossem as suas garras terem cegado o olho de Huan. Então Huan abriu a boca, e Tevildo gritando ferozmente soltou-se e trepou a uma árvore, como o seu companheiro tinha feito. Apesar do seu grave ferimento Huan salta para debaixo dessa árvore ladrando ruidosamente, e Tevildo amaldiçoa-o e lança-lhe palavras maléficas lá de cima.

Então diz Huan: “Olha, Tevildo, estas são as palavras de Huan que tu pensavas apanhar e matar desprevenido como os miseráveis ratos que costumas caçar – fica eternamente na tua solitária árvore e sangra até à morte das tuas feridas, ou desce e sente de novo os meus dentes. Mas se nenhumas destas são do teu agrado, então diz-me onde está Tinúviel Princesa das Fadas e Beren filho de Egnor, pois são meus amigos. Estes serão postos como resgate por ti – embora valham muito mais que tu.”
“Quanto a essa maldita Elfa, ela jaz chorando nos arbustos para além, se os meus ouvidos não se enganam,” disse Tevildo, “e Beren acho que está a ser arranhado por Miaulë, o meu cozinheiro, nas cozinhas do meu castelo pelo desastre que provocou.”
“Então deixa que eles me sejam entregues em segurança,” disse Huan, “e poderás voltar aos teus salões para te lamberes.”
“Com certeza, o meu servo que está aqui comigo irá busca-los para ti,” disse Tevildo, mas rosnou Huan: “Sim, e buscar também toda a tua tribo e as hostes de Orcs e as pragas de Melko. Não, eu não sou idiota; ao invés tu darás a Tinúviel um sinal e ela irá buscar Beren, ou ficarás aqui quer gostes quer não.” Então foi Tevildo forçado a tirar o seu colar de ouro – um sinal que nenhum gato se atreve a desonrar, mas Huan disse: “Não, é preciso mais, pois isto vai levar todo o teu povo a procurar-te,” e isto Tevildo sabia e esperava. Assim foi que no fim o cansaço, a fome e o medo prevaleceram sobre aquele altivo gato, um príncipe ao serviço de Melko, e ele revelou o segredo dos gatos e o feitiço que Melko lhe tinha confiado; e essas eram palavras de magia pelas quais as pedras da sua maléfica casa eram unidas, e pelas quais ele mantinha todas as bestas do povo dos gatos sobre o seu domínio, enchendo-as com poderes maléficos além da sua natureza; pois à muito que é dito que Tevildo era um espírito mau com forma de besta. Quando por fim ele acabou de falar Huan riu até os bosques ecoarem, pois sabia que os dias do poder dos gatos tinham acabado.
Agora apressa-se Tinúviel com o colar de ouro de Tevildo para o mais baixo terraço diante das portas, e parada disse o feitiço na sua voz clara. Então olhai, o ar encheu-se com as vozes de gatos e a casa de Tevildo tremeu; e dai saiu uma hoste dos seus habitantes e eles tinham encolhido para um tamanho pequeno e tinham medo de Tinúviel, que tendo o colar de Tevildo disse diante deles as palavras que Tevildo tinha dito a Huan, e eles encolheram-se diante dela. E ela disse: “Ouçam, deixem que todos os do povo dos Elfos ou das crianças dos Homens que estão presos nestes salões sejam soltos,” e olhai, Beren foi trazido até ela, mas não havia outros escravos, excepto Gimli, um velho Gnomo, curvado da escravatura e cego, mas cujo ouvido era o mais aguçado que houve no mundo, como todas as canções cantam. Gimli chegou apoiado a uma vara e Beren ajudou-o, mas Beren estava vestido com trapos e tinha aspecto bravio, e tinha na sua mão uma grande faca trazida da cozinha, temendo algum novo mal quando a casa tremeu e as vozes dos gatos foram ouvidas; mas quando ele viu Tinúviel entre a hoste de gatos que se encolhiam dela e viu o grande colar de Tevildo, então ficou verdadeiramente espantado, e não soube o que pensar. Mas Tinúviel estava muito feliz, e disse: “Ó Beren d’além das Colinas Amargas, irás tu agora dançar comigo – mas que não seja aqui.” E levou Beren para longe, e todos aqueles gatos começaram a uivar e a gemer, tanto que Huan e Tevildo os ouviram no bosque, mas nenhum os seguiu ou os atacou, pois tinham medo, e a magia de Melko deixara-os.

Disto, de facto, eles depois se arrependeram quando Tevildo regressou a casa seguido do seu receoso camarada, pois a ira de Tevildo foi terrível, e ele chicoteou a sua cauda e golpeou todos os que estavam perto. Pois Huan dos Cães, apesar de parecer loucura, quando Beren e Tinúviel chegaram à clareira permitiu àquele malvado Príncipe regressar sem mais guerras, mas ele pôs o grande colar de ouro no seu pescoço, e com isso ficou Tevildo mais zangado do que com tudo o resto, pois uma grande magia de força e poder ai jaziam. Não era do gosto de Huan que Tevildo vivesse, mas agora ele já não temia os gatos, e essa tribo tem fugido diante dos cães desde dai, e os cães ainda os olham com desprezo desde a humilhação de Tevildo no bosques perto de Angamandi, e Huan não fez maior acção. Na verdade depois Melko ouviu tudo isto e amaldiçoou Tevildo e o seu povo e baniu-os, e não tiveram eles desde esse dia senhor ou mestre ou qualquer amigo, e as suas vozes gemem e lamentam pois os seus corações são muito solitários, amargos e cheios de perda, e no entanto só há escuridão lá dentro e nenhuma gentileza.
No entanto, no tempo que esta história conta, era o principal desejo de Tevildo recapturar Beren e Tinúviel e matar Huan, para que pudesse recuperar o feitiço e a magia que tinha perdido, pois ele estava com grande medo de Melko, e não se atrevia a ir procurar a ajuda do seu mestre e revelar a sua derrota e traição do seu feitiço. Nada sabendo disto Huan temia esses lugares, e tinha grande temor destes feitos chegarem rapidamente aos ouvidos de Melko, como chegavam a maior parte das coisas que se passavam no mundo; assim sendo Tinúviel e Beren vaguearam para muito longe com Huan, e a sua amizade tornou-se grande, e com essa vida Beren ficou forte novamente e as marcas da escravidão deixaram-no, e Tinúviel amou-o.
No entanto, selvagens, difíceis e muito solitários foram esses dias, pois nunca uma cara de Elfo ou Homem eles viram, e Tinúviel tornou-se por fim saudosa de Gwendeling, a sua mãe, e das canções de doce magia que ela costumava cantar aos seus filhos assim que o crepúsculo caía nos bosques perto dos seus antigos salões. Por vezes parecia-lhe que ouvia a flauta de Dairon seu irmão, em agradáveis clareiras por onde eles viajavam, e o seu coração pesava-lhe. Por fim disse a Beren e a Huan: “Eu devo regressar a casa,” e agora é o coração de Beren que se enche de tristeza, pois ele gostava daquela vida nos bosques com os cães (pois já se tinham juntado muitos outros a Huan), mas não seria assim sem Tinúviel.
Mesmo assim ele disse: “Eu nunca poderei regressar contigo à terra de Artanor – nem lá ir para te procurar, doce Tinúviel, excepto só levando um Silmaril; nem pode isso ser agora conseguido, pois não sou eu um fugitivo dos próprios salões de Melko, e com perigo das mais horríveis dores os seus servos me espiam.” Isto disse ele com a dor do seu coração ao pensar separar-se de Tinúviel, e ela estava dividida, não querendo pensar em deixar Beren nem querendo viver para sempre em exílio. Então sentou-se muito tempo com pensamentos tristes e não falou, mas Beren sentou-se perto e por fim disse: “Tinúviel, só uma coisa podemos fazer – ir buscar um Silmaril”; e ela procurou Huan, pedindo a sua ajuda e conselho, mas ele ficou muito sério e só viu loucura no assunto. No entanto por fim Tinúviel pediu-lhe a pele de Oikeroi que ele matara na luta na clareira; Oikeroi era um gato muito poderoso e Huan carregava aquela pele como troféu.
Agora Tinúviel usa a sua arte e magia, e cose Beren dentro desta pele e fá-lo parecer um grande gato, e ensina-o como se sentar e espreguiçar, a pôr-se de pé, deitado e a andar à semelhança de um gato, até os próprios bigodes de Huan tremerem ao vê-lo, e com isso Beren e Tinúviel riram-se. No entanto nunca podia Beren aprender a miar, a gemer ou a ronronar como um gato, nem podia Tinúviel acender um brilho nos olhos mortos da pele – “mas temos que suportar isso,” disse ela, “e tu tens o ar de um muito nobre gato se segurares a língua.”
Então despediram-se de Huan e seguiram para os salões de Melko por caminhos fáceis, pois Beren estava com grande desconforto e calor dentro do pelo de Oikeroi, e o coração de Tinúviel aliviou-se um pouco, e ela afagava Beren ou puxava-lhe a cauda, e Beren zangava-se por não poder chicoteá-la em resposta tão ferozmente quanto desejava. Mas por fim eles aproximaram-se de Angamandi, como de facto os tremores e profundos barulhos, e o som de grandes martelos de dez mil ferreiros trabalhando sem cessar, lhes declararam. Perto ficavam as tristes câmaras onde os escravos Noldoli trabalhavam sob Orcs e goblins das colinas, e aqui a escuridão era tão grande que a coragem deles vacilou, mas Tinúviel envolveu-se outra vez na sua escura vestimenta de profundo sono. As portas de Angamandi eram de ferro forjado horrorosamente e tinham facas e espigões, e diante delas jazia o maior lobo que o mundo já viu, Karkaras Dente-de-Faca que nunca dormira; e Karkaras rosnou quando viu Tinúviel aproximar-se, mas não ligou muito ao gato, pois não gostava de gatos e eles estavam sempre a entrar e a sair.
“Não rosnes, Ó Karkaras,” disse ela, “pois eu venho procurar o meu senhor Melko, e este servo de Tevildo vem comigo como escolta.” O escuro manto escondia toda a sua cintilante beleza, e Karkaras não estava muito preocupado, mas mesmo assim aproximou-se para cheirar o ar dela, e a doce fragrância dos Eldar a vestimenta não podia esconder. Assim sendo logo começou Tinúviel uma dança magica, e os negros fios do seu escuro véu ela deita nos olhos dele e as suas pernas tremem com sonolência e ele rola e dorme. Mas só quando ele está em sonhos de grandes caçadas nos bosques de Hisilomë quando era um cachorro Tinúviel pára, e então esses dois entram nesse portal negro, e descendo muitos caminhos sombrios chegam por fim à presença de Melko.
Naquela escuridão Beren passou despercebido como um servo de Tevildo, e de facto Oikeroi tinha outrora passado muito tempo nos salões de Melko, assim ninguém o estranhou e ele escondeu-se debaixo da própria cadeira do Ainu sem ser visto, mas as cobras e coisas más que lá rastejavam atemorizaram-no tanto que ele não se atreveu a mexer.
Tudo isto também foi sorte, pois estivesse Tevildo com Melko o seu engano seria desfeito – e na verdade eles pensaram nesse perigo, não sabendo que Tevildo se sentava agora nos seus salões e não sabia o que fazer se a sua derrota se soubesse em Angamandi; mas olhai, Melko viu Tinúviel e disse: “Quem és tu que esvoaças pelos meus salões como um morcego? Como entraste, pois com certeza que não pertences aqui?”
“Não, isso ainda não,” disse Tinúviel, “embora possa daqui em diante, com a tua bondade, meu senhor Melko. Não sabeis vós que eu sou Tinúviel filha de Tinwelint o bandido, e ele baniu-me dos seus salões, pois é um Elfo prepotente e eu não dou o meu amor ao seu comando.”
Em verdade Melko estava espantado que a filha de Tinwelint viesse assim de livre vontade à sua habitação, Angamandi a terrível, e suspeitando de algo perguntou quais eram as intenções dela: “pois não sabeis vós,” disse ele, “que não há aqui qualquer amor para o vosso pai ou o seu povo, nem esperes palavras suaves e felicitações da minha parte.”
“Assim disse o meu pai,” respondeu ela, “mas porque deveria eu de acreditar nele? Olhai, eu tenho habilidades de subtis danças, e eu dançarei agora diante de vós, meu senhor, pois então eu acho que serei logo recompensada com um humilde canto dos vossos salões para viver até que de tempos a tempos chameis a pequena dançarina Tinúviel para aliviar as vossas horas.”
“Não,” disse Melko, “tais coisas são de pouca importância para mim; mas como viestes de tão longe para dançar, dança, e depois logo se vê,” e com isso sorriu horrivelmente, pois a sua escura mente ponderava alguma maldade.
Então Tinúviel começou uma tal dança como nunca ela ou qualquer outro espírito, fada ou elfo dançara antes ou dançou depois, e passado um pouco até o olhar de Melko estava preso de maravilha. À volta do salão ela andou, rápida como uma andorinha, silenciosa como um morcego, magicamente bela como só Tinúviel foi, e agora estava ao lado de Melko, agora diante dele, agora atrás, e as suas nebulosas tapeçarias tocaram a sua face e esvoaçaram diante dos seus olhos, e o povo que se sentava à volta das paredes ou estava naquele lugar caiu um por um no sono, afundando-se em profundos sonhos que os seus corações desejavam.
Debaixo da sua cadeira as cobras jaziam como pedras, e os lobos diante dos seus pés bocejaram e adormeceram, e Melko olhava encantado, mas não dormia. Então Tinúviel começou a dançar ainda mais rápido diante dos seus olhos, e enquanto dançava cantou numa voz muito baixa e maravilhosa uma canção que Gwendeling lhe tinha ensinado à muito tempo, uma canção que os jovens e donzelas cantavam debaixo dos ciprestes dos jardins de Lórien quando a Árvore de Ouro desvanecia e Silpion brilhava. As vozes dos rouxinóis estavam nela, e muitos subtis odores pareciam encher o ar daquele lugar quanto ela tocava o chão ao de leve como uma pena ao vento; nunca mais voz ou visão de tal beleza foi vista ali, e o Ainu Melko com todo o seu poder e majestade sucumbiu à magia daquela donzela élfica, e na verdade até os olhos de Lórien se teriam fechado estivesse ele ali para ver. Então Melko caiu para a frente sonolento, e afundou-se por fim em sono, caindo da cadeira sobre o chão, e a sua coroa rolou para longe.
Subitamente Tinúviel pára. No salão nenhum som era ouvido excepto de profundas respirações; até Beren dormia debaixo do assento de Melko, mas Tinúviel abanou-o tanto que ele acordou. Então com medo e tremendo ele rasgou o seu disfarce e libertando-se dele pôs-se em pé. Agora ele desembainha aquela faca das cozinhas de Tevildo e agarra a grande coroa de ferro, mas Tinúviel não foi capaz de movê-la e pouco consegue Beren vira-la. Grande é o frenesim do seu medo enquanto, que no escuro salão do mal adormecido, Beren trabalha tão silenciosamente quanto possível para tirar um Silmaril com a faca. Consegue soltar a grande jóia central e o suor jorra da sua testa, mas mesmo quando ele o tira da coroa, olhai! A sua faca parte-se com um grande barulho.
Tinúviel abafa um grito e Beren salta com o Silmaril na mão, e os que dormem agitam-se e Melko resmunga como se maus pensamentos perturbassem os seus sonhos, e uma escuridão cobre a sua cara. Contentes com aquela gema cintilante o par foge desesperadamente do salão, tropeçando por passagens escuras até que pela cintilação cinzenta eles sabem que se aproximam das portas – e olhai! Karkaras está na ombreira, acordado e vigilante.
Logo se jogou Beren diante de Tinúviel apesar dela lhe dizer não, e isto provou ser mau no fim, pois Tinúviel não teve tempo de lançar o feitiço de sonolência sobre a besta outra vez, depois de ver Beren ele mostrou os dentes e rosnou ferozmente. “Porquê esta ferocidade, Karkaras?” disse Tinúviel. “Porquê este Gnomo que não entrou e agora sai apressado?” replicou Dente-de-Faca, e com isto saltou sobre Beren, que bateu bem no meio dos olhos do lobo com o seu punho, agarrando a sua garganta com a outra mão.
Então Karkaras apanhou essa mão nas suas terríveis mandíbulas, e era a mão onde Beren segurava o brilhante Silmaril, e ambas, mão e jóia, Karkaras engoliu na sua boca vermelha. Grande foi a agonia de Beren e o medo e angústia de Tinúviel, ainda assim quando eles esperavam sentir os dentes do lobo uma nova, estranha e terrível coisa acontece. Lembra-te que o Silmaril brilhava com um branco e escondido fogo de sua própria natureza e é protegido com uma feroz e sagrada magia – pois não veio ele de Valinor e dos reinos abençoados, feito com feitiços dos Deuses e Gnomos antes do mal lá chegar; e não tolerava o toque do mal ou de mão suja. Agora entra no sujo corpo de Karkaras, e subitamente essa besta é queimada com uma terrível angústia e os uivos da sua dor são horríveis de ouvir enquanto ecoam naqueles caminhos rochosos, e assim toda a corte adormecida acorda. Então Tinúviel e Beren fogem como o vento das portas, deixando Karkaras lá muito atrás, raivoso e louco como uma besta perseguida por Balrogs; e depois quando puderam descansar Tinúviel chorou sobre o braço despedaçado de Beren beijando-o várias vezes, até que deixou de sangrar, e a dor deixou-o, e foi curado pela suave cura do amor dela; e Beren ficou depois conhecido por todo o povo como Ermabwed o Maneta, que na língua de Ilha Solitária é Elmavoitë.
Agora, no entanto, eles tem que pensar em escapar – se tal for a sorte deles, e Tinúviel envolve parte do seu manto escuro à volta de Beren, e assim por um pouco, fugindo pelo escuro entre colinas, eles não são vistos por ninguém, apesar de Melko ter enviado todos os seus Orcs de terror contra eles; e a sua fúria com o roubo da jóia foi a maior que os Elfos alguma vez viram.
Mesmo assim logo lhes parece que a rede dos caçadores se aperta mais à sua volta, e apesar de eles já terem chegado à beira de bosques mais familiares e passado a escuridão das florestas de Taurfuin, ainda havia muitas léguas de perigo para passar entre eles e as cavernas do rei, e mesmo se eles alguma vez lá chegassem parecia-lhes que só aumentariam a caçada e o ódio de Melko sobre o povo da floresta. E tão grande foi a algazarra e os barulhos que Huan soube da história lá longe, e maravilhou-se muito com a coragem daqueles dois, e acima de tudo com o facto deles terem escapado de Angamandi.
Logo parte ele com muitos cães através dos bosques caçando Orcs e servos de Tevildo, e muitas feridas ganha assim, e muitos deles ele mata ou amedronta e faz fugir, até que uma tarde, ao cair do crepúsculo, os Valar o trazem até uma clareira, naquela região a norte de Artanor que foi depois chamada de Nan Dumgorthin, a terra dos ídolos negros, mas esse é um assunto que não interessa a esta história. Apesar de já ser então uma terra escura, nebulosa e arrepiante, e o medo vaguear debaixo das suas árvores baixas tanto quanto em Taurfuin; e aqueles dois Elfos, Tinúviel e Beren jaziam ali, cansados e sem esperança, e Tinúviel chorava mas Beren tocava a sua faca.
Quando Huan os viu não lhes permitiu falar ou contar a sua história, mas de imediato pôs Tinúviel sobre as suas costas e mandou Beren correr tão rápido com pudesse ao seu lado, “pois,” disse ele, “uma grande companhia de Orcs aproxima-se rapidamente daqui, e lobos são os seus guias e vigias.” Agora tem a matilha de Huan que correr à volta deles, e eles correm velozmente por rápidos e secretos caminhos em direcção às casas do povo de Tinwelint lá longe. Foi assim que eles iludiram a hoste dos seus inimigos, mas tiveram mesmo assim muitos encontros com coisas do mal, e Beren matou um Orc que chegou perto de agarrar Tinúviel, e essa foi uma boa acção. Vendo então que a caçada ainda os seguia de perto, uma vez mais Huan os levou por caminhos tortuosos, e não se atreveu logo a leva-los directamente para a terra das fadas do bosque. Tão astuta, no entanto, foi a sua direcção que por fim após muitos dias a busca terminou, e não mais eles viram ou ouviram qualquer coisa dos bandos de Orcs; nenhuns goblins os emboscaram nem o uivo de malditos lobos chegou nos ares da noite, e isso foi porque já tinham entrado no círculo de magia de Gwendeling que escondia os caminhos das coisas más e afastava o perigo das regiões dos Elfos silvestres.
Então Tinúviel respirou livremente uma vez mais, como já não fazia desde que fugira dos salões do seu pai, e Beren descansou ao sol, longe da escuridão de Angband até a última amargura da escravidão o deixar. Por causa da luz caindo e da canção dos pássaros ficam uma vez mais sem medo.
Mas mesmo assim chegou por fim um dia em que ao acordar de um profundo sono Beren levantou-se como alguém que deixa um sonho de coisas felizes abruptamente, e disse: “Adeus, Ó Huan, fiel camarada, e tu, pequena Tinúviel, que eu amo, viaja em segurança. Só isto eu te peço, vai para a protecção da tua casa, e possa o bom Huan guiar-te até lá. Mas eu – ai de mim, eu tenho que voltar à solidão dos bosques, pois perdi o Silmaril, e nunca mais me atreverei a voltar a Angamandi, por isso também não voltarei a entrar nos salões de Tinwelint.” Então chorou para ele mesmo, mas Tinúviel que estava perto e tinha ouvido aquilo chegou-se a ele e disse: “Não, agora está o meu coração mudado, e se tu viveres nos bosques, Ó Beren Ermabwed, então eu também viverei, e se tu quiseres vaguear nos lugares selvagens do mundo ai também eu vaguearei, contigo ou atrás de ti: - no entanto nunca mais o meu pai me verá excepto se tu me levares a ele.” Então Beren ficou contente com as doces palavras dela, e de bom grado ele viveria com ela, como um caçador nos bosques, mas o seu coração doía-lhe por tudo o que ela sofrera por ele, e por ela ele pôs de lado o seu orgulho. Na verdade ela levou-o à razão, dizendo-lhe que era loucura ser tão teimoso, e que o seu pai os receberia com nada mais que alegria, feliz por ver a sua filha viva – e “talvez,” disse ela, “ele fique com vergonha que a sua brincadeira tenha dado a tua bela mão às mandíbulas de Karkaras.” Mas a Huan ela também implorou para ele regressar com eles, pois “o meu pai deve-te uma grande recompensa, Ó Huan,” disse ela, “e ele ama a sua filha acima de tudo.”
Assim foi que aqueles três viajaram juntos outra vez, e voltaram por fim aos bosques que Tinúviel conhecia e amava perto das habitações do seu povo e dos profundos salões da sua casa. No entanto enquanto se aproximavam encontraram medo e tumulto entre aquele povo como não se via à uma longa era, e perguntando a alguns que choravam diante das suas portas eles ficaram a saber que desde o dia da partida secreta de Tinúviel a má sorte lhes tinha caído em cima. Pois olhai, o rei estava destroçado com remorso e tinha descurado a sua antiga cautela e agudeza de espírito; os seus guerreiros tinham sido enviados para aqui e para ali, para todos os terríveis bosques procurando aquela donzela, e muitos tinham sido morrido ou perderam-se para sempre, e havia guerra com os servos de Melko em todas as fronteiras do norte e leste, tantas que o povo receava que o Ainu aumentasse a sua força e viesse de uma vez por todas esmagá-los e a magia de Gwendeling não teria força para se opor aos numerosos Orcs. “Olhai,” disseram eles, “agora aconteceu o pior de tudo, pois à muito tempo que a Rainha Gwendeling está sentada sem sorrir nem falar, olhando como se para muito longe com olhos cansados, e a rede da sua magia enfraqueceu à volta dos bosques, e os bosques estão assustadores, pois Dairon não voltou, nem a sua música voltou a ser ouvida nas clareiras. E olhai agora a coroa de todas as noticias más, sabei pois que foi solto sobre nós, raivoso, dos salões do Mal, um grande lobo cinzento possuído por um espírito malvado, e ele vagueia como se impelido por alguma loucura escondida, e ninguém está a salvo. Já matou muitos enquanto corre selvagemmente mordendo e gritando através dos bosques, tanto que as próprias margens do rio que corre diante das portas do rei se tornaram um lugar de perigo. Ai vai por vezes o terrível lobo beber, parecendo o próprio Príncipe do Mal com olhos ensanguentados e língua de fora, e parece nunca satisfazer o seu desejo por água como se algum fogo interior o devorasse.”
Então Tinúviel ficou triste ao ver a infelicidade que tinha caído sobre o seu povo, e acima de tudo estava o seu coração amargurado com a história de Dairon, pois disto não tinha ouvido nenhum murmúrio antes. Ainda assim não conseguia desejar que Beren nunca tivesse vindo para as terras de Artanor, e juntos apressaram-se para os salões de Tinwelint; e já parecia aos Elfos do bosque que o mal estava a acabar, agora que Tinúviel voltava para junto deles sã e salva. Na verdade eles não esperavam isso.
Em grande escuridão eles encontraram o Rei Tinwelint, no entanto logo a sua tristeza se derreteu em lágrimas de felicidade, e Gwendeling canta novamente por alegria quando Tinúviel entra por ali deitando fora a sua vestimenta de escuridão e parando diante deles com a sua perlífica radiância de antigamente. Por um tempo tudo é alegria e espanto no salão, mas por fim o rei volta os seus olhos para Beren e diz: “Então tu regressaste também – trazendo um Silmaril, sem dúvida, como recompensa por todo o mal que trouxeste à minha terra; mas se não tens nenhum, não sei porque estás aqui.”
Então Tinúviel bateu o pé e gritou, tanto que o Rei e todos à sua volta se espantaram com o seu novo e destemido feitio: “Que vergonha, meu pai – olhai, aqui está Beren o bravo que a tua brincadeira levou a lugares escuros e a amargo cativeiro e que só os Valar salvaram de terrível morte. Eu acho que seria mais próprio de um Rei dos Eldar recompensá-lo do que injuriá-lo.”
“Não,” disse Beren, “o rei teu pai tem razão. Senhor,” disse ele, “eu tenho um Silmaril na minha mão mesmo agora.”
“Mostra-mo então,” disse o rei espantado.
“Isso não posso,” disse Beren, “pois a minha mão não está aqui.”; e ele levantou o seu braço despedaçado.
Então o coração do rei suavizou-se para com ele pela razão da sua coragem e cortesãs maneiras, e mandou Beren e Tinúviel contar tudo o que lhes tinha acontecido, e ele estava ansioso por ouvir, pois não tinha compreendido completamente o significado das palavras de Beren. E quando ouviu tudo mais o seu coração se abriu para Beren, e maravilhou-se com o amor que tinha acordado no coração de Tinúviel para que ela tivesse feito aquelas grandes acções, mais ousadas do que qualquer um dos seus guerreiros alguma vez fez.
“Nunca mais,” disse ele, “Ó Beren, eu peço-te, deixes esta corte nem o lado de Tinúviel, pois tu és um grande Elfo e o teu nome será sempre grande entre as famílias.” No entanto Beren respondeu-lhe orgulhosamente, e disse: “Não, Ó Rei, eu mantenho a minha palavra e a vossa, e eu irei buscar-vos um Silmaril ou nunca viverei em paz nos vossos salões.” E o rei pediu-lhe que não viajasse mais para escuros e desconhecidos reinos, mas Beren disse: “Não há necessidade disso, pois olhai, a jóia está neste momento perto das vossas cavernas,” e contou a Tinwelint que a besta que devastava as suas terras era nenhuma outra que Karkaras, o lobo guarda das portas de Melko – e isto não era conhecido de todos, mas Beren soube-o por Huan, cuja habilidade na leitura de rastos e pegadas era a maior entre todos os cães, e nisso não há nenhum que não seja bom. Huan estava com Beren nos salões, e quando aqueles dois falaram de uma busca e uma grande caçada ele pediu para ir também; e foi aceite de bom grado. Assim se prepararam aqueles três para caçar a besta, para que todo o povo fosse libertado do terror do lobo, e para que Beren cumprisse a sua palavra, trazendo um Silmaril para brilhar uma vez mais na Elficidade. O próprio Rei Tinwelint comandava a caçada, e Beren estava ao seu lado, e Mablung o mão-pesada, chefe dos guerreiros do rei, saltou e agarrou uma lança – uma grande arma capturada em batalha com os distantes Orcs – e com esses três caminhava Huan o maior dos cães, mas não levariam mais de acordo com o desejo do rei, que disse: “Quatro chegam para matar mesmo o lobo do Inferno” – mas só os que o tinham visto sabiam como era temível essa besta, quase tão grande como um cavalo entre Homens, e tão grande era o ardor do seu bafo que queimava qualquer coisa que tocasse. Perto da hora do amanhecer eles partiram, e pouco depois Huan viu uma pegada nova ao lado do rio, não muito longe das portas do rei, “e,” disse ele, “esta é a pegada de Karkaras.” A partir dai seguiram o rio todo o dia, e em muitos lugares as margens estavam pisadas e destruídas e a água dos charcos que ficavam à volta estavam sujas como se algumas bestas possuídas pela loucura tivessem rolado e lutado ali à não muito tempo.
Agora afunda-se o Sol e desaparece para lá das árvores ocidentais e a escuridão desce de Hisilómë e a luz da floresta morre. Mesmo assim chegam a um lugar onde as pegadas se desviam do rio ou talvez se perdem nas suas águas e Huan já não o pode seguir; e aqui eles acampam, dormindo por turnos ao lado do rio, e o princípio da noite passa.
Subitamente no turno de Beren um som de grande terror é ouvido ao longe – um uivo como o de setenta lobos enlouquecidos – então olhai! Os arbustos partem-se e árvores quebram-se enquanto o terror se aproxima, e Beren sabe que Karkaras está perto deles. Pouco tempo teve para acordar os outros, e eles tinham acabado de se levantar, quando uma grande forma apareceu no tremeluzente luar, e corria como um louco, e o seu caminho seguia para a água. Ai Huan ladrou, e logo a besta se virou para eles, e espuma corria da sua boca e uma luz vermelha brilhava nos seus olhos, e a sua cara estava desfigurada com uma mistura de terror e raiva. Em menos de nada ele deixou as árvores e Huan correu destemido para ele, mas Karkaras deu um salto sobre o grande cão, pois toda a sua fúria foi subitamente dirigida contra Beren que ele reconheceu, pois na sua escura mente parecia-lhe que ele fora a causa de toda a sua agonia. Então Beren corre com uma lança e espeta-a na garganta, e Huan salta outra vez e apanha-lhe uma perna traseira, e Karkaras cai como uma pedra, pois nesse momento a lança do rei encontrou o seu coração, e o seu maléfico espírito jorrou dai e uivando levemente fugiu, vagueando sobre escuras colinas para Mandos; mas Beren ficou esmagado debaixo do seu peso. Agora eles rolam essa carcaça e abrem-na, mas Huan lambe a cara de Beren de onde corre sangue. Logo a verdade das palavras de Beren é provada, pois os órgãos do lobo estão meio queimados como se um fogo interior à muito ardesse ali, e subitamente a noite enche-se com um lustre magnifico, cheio de pálidas e secretas cores, quando Mablung retira o Silmaril. Então erguendo-o ele disse: “Olhai Ó Rei,” mas Tinwelint disse: “Não, nunca lhe pegarei, excepto só se Beren mo entregar.” Mas Huan disse: “E isso parece que não vai acontecer, a não ser que o tratem rapidamente, pois eu acho que ele está gravemente ferido”; e Mablung e o rei ficaram envergonhados.
Por conseguinte eles agora levantam Beren gentilmente e tratam-no e lavam-no, e ele respirava, mas não falou nem abriu os olhos, e quando o sol se ergueu e eles descansaram um pouco levaram-no tão suavemente como puderam numa maca de ramos através dos bosques; e perto do meio-dia aproximaram-se das casas do povo outra vez, e estavam então muito cansados, e Beren não se tinha mexido nem falado, mas só gemera três vezes.
Ali todo o povo se dirigiu para os ver quando a sua aproximação se tornou conhecida, e alguns levaram-lhes carne e bebidas frescas, unguentos e coisas para as suas feridas, e se não fosse o ferimento que Beren havia recebido grande teria sido a sua alegria. No entanto, agora eles cobrem os ramos onde ele jaz com suaves tecidos, e levam-no para os salões do rei, e ali estava Tinúviel esperando com grande angústia; e ela caiu sobre o peito de Beren e chorou e beijou-o, e ele acordou e reconheceu-a, e depois Mablung deu-lhe o Silmaril, e ele levantou-o acima da sua cabeça olhando a sua beleza, antes de dizer lentamente e com dor: “Olhai, Ó Rei, eu dou-vos a maravilhosa jóia que vós desejais, e é só uma pequena coisa encontrada à beira da estrada, pois outrora, eu acho, vós tivestes uma muito mais bela, e ela é minha agora.” No entanto mesmo enquanto falava as sombras de Mandos cobriram a sua face, e o seu espírito partiu nesse momento para a margem do mundo, e os suaves beijos de Tinúviel não o trouxeram de volta.’

Então Vëannë parou subitamente de falar, e Eriol disse tristemente: ‘Uma história triste para uma donzela tão doce contar’; mas olhai, Vëannë começou a chorar, e passado um tempo disse: ‘Não, isto não é toda a história; mas acaba aqui tudo o que eu sei,’ e outras crianças falaram, e uma disse: ‘Olha, eu ouvi que a magia dos suaves beijos de Tinúviel curou Beren, e chamou o seu espírito das portas de Mandos, e muito tempo viveu ele entre os Elfos Perdidos, vagueando nas clareiras enamorado com a doce Tinúviel.’ Mas outro disse: ‘Não, não foi assim, Ó Ausir, e se ouvires eu contarei a verdade e a maravilhosa história; pois Beren morreu nos braços de Tinúviel como Vëannë contou, e Tinúviel esmagada com tristeza e não encontrando nenhum conforto ou luz em todo o mundo rapidamente o seguiu por esses escuros caminhos que todos temos que caminhar sozinhos. A sua beleza e encanto tocou até mesmo o frio coração de Mandos, tanto que ele lhe permitiu levar Beren uma vez mais para o mundo, nunca isto voltou a acontecer desde então a Homem ou Elfo, e há muitas canções e histórias sobre a oração de Tinúviel diante do trono de Mandos que eu não me lembro bem agora. No entanto, disse Mandos àqueles dois: “Olhai, Ó Elfos, não é para uma vida de perfeita alegria que eu vos dispenso, pois tal já não pode ser encontrado em todo o mundo onde se senta Melko do coração malvado – e saibam que se tornarão mortais como os Homens, e quando vós viajares para aqui uma vez mais será para sempre, a não ser que os Deuses vos chamem para Valinor.” Mesmo assim o par partiu de mão dada, e viajaram juntos através dos bosques do norte, e muitas vezes foram vistos dançando danças magicas no sopé de colinas, e os seus nomes foram ouvidos até muito longe.’
E com isso o rapaz acabou, e Vëannë disse: ‘Sim, e eles fizeram mais que dançar, pois os seus feitos posteriores foram grandiosos, e há muitas histórias sobre eles que tu deves ouvir, Ó Eriol Melinon, noutra hora de contos. Pois estes dois são os que as histórias chamam de i-Cuilwarthon, que é o mesmo que dizer os mortos que vivem outra vez, e eles tornaram-se poderosas fadas nas terras a norte do Sirion. E agora tudo acabou – gostaste?’ Mas Eriol disse: ‘É de facto um maravilhoso conto, um que não esperava ouvir dos lábios das pequenas donzelas da Mar Vanwa Tyaliéva,’ mas Vëannë respondeu-lhe: ‘Não, mas eu não o contei com palavras minhas; mas é me querido – e na verdade todas as crianças sabem os feitos que conta – e eu aprendi-o de cor, lendo-o nos grandes livros, mas não compreendo tudo o que lá diz.’
‘Nem eu,’ disse Eriol – mas de repente Ausir gritou: ‘Olha, Eriol, a Vëannë não te contou o que aconteceu a Huan; nem o porquê de ele não aceitar nenhuma recompensa de Tinwelint nem viver perto dele, mas voltar a vaguear lamentando-se por Tinúviel e Beren. De como ele se juntou a Mablung que tinha ajudado na caçada, e que gostava agora de caçar sozinho; e os dois caçaram juntos como amigos até aos dias de Glorund o Dragão e de Túrin Turambar, quando uma vez mais Huan encontrou Beren e fez o seu papel nos grandes feitos do Nauglafring, o Colar dos Anões.’
‘Não, como podia eu contar tudo isso,’ disse Vëannë, ‘pois olha já está na hora da refeição da tarde’; e pouco depois o grande gongo tocava.

 

Este texto foi traduzido por Aegnor