Rei Sheave

Escrito por Aegnor. Publicado em History of Middle-Earth

Este poema encontra-se no Volume V da série HoME – The Lost Road. Este poema é feito por Ælfwine a pedido de uns marinheiros numa estalagem. !amazed
Tolkien inspirou-se numa antiga lenda germânica para fazer esta história (também existe uma versão em prosa).

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Rei Sheave (1)

De repente Ælfwine tocou uma nota na harpa. “Ouvi!” ele gritou, alto e claro, e os homens atentaram nele. “Ouvi!” ele gritou, e começou a cantar uma antiga canção, no entanto ele estava consciente que a estava contando de novo, adicionando e alterando palavras, não tanto por improvisação como se tivesse pensado nela durante muito tempo, mas apanhando pedaços de sonhos e visões.

Nos dias de antigamente, do profundo Oceano
para os Lombardos na terra em que viviam
à muito tempo entre as ilhas do Norte,
um navio chegou flutuando, de madeiras brilhantes
sem remos ou mastro, para o leste navegando.
Atrás dele o sol afundando-se no oeste
acendia com chamas douradas as águas.
O vento acordou. Sobre a margem do mundo
nuvens cinzentas acumularam-se
desdobrando asas largas e gigantescas,
como grandes águias aproximando-se
do leste da Terra carregando presságios.
Os Homens ali se maravilharam, esperando na névoa
de escuras ilhas perdidas no tempo:
o riso não conheciam, nem luz nem sabedoria;
a sombra estava sobre eles, severa e sem vida,
assustadora. O Leste estava escuro.

O navio chegou cintilando à costa
e encalhou na praia, até descansar todo
na areia e cascalho. O sol pôs-se.
As nuvens tomaram os frios céus.
Com medo e espanto para as douradas águas,
de coração pesado, os homens apressaram-se
para a praia procurando o barco,
de madeiras brilhantes no cinzento crepúsculo.
Eles olharam lá para dentro, e ali jazia dormindo
um rapaz respirando suavemente:
a sua face era bela, a sua forma encantadora,
os seus membros eram brancos, os seus cabelos negros
entrançados a ouro. Dourada e esculpida
com admirável trabalho era a madeira à sua volta.
Numa taça dourada límpida água
ao seu lado estava; com cordas de prata
uma harpa de ouro na sua mão descansava;
a sua cabeça estava docemente aconchegada
num feixe de milho que brilhava palidamente
como o ouro de longínquos países
a oeste de Angol (2). O espanto encheu-os.

O barco eles puxaram e na praia o encalharam
muito acima da rebentação; então com as mãos levaram
do seu interior a sua carga. O rapaz dormia.
Na sua cama o levaram para as suas escuras casas
de paredes negras e temerosas, numa sombria região
entre a desolação e o mar. Ali de madeira construído,
bem acima das casas, estava um salão
esquecido e vazio. Há muito que estava assim,
sem conhecer barulho, noite ou manhã,
sem ver luz alguma. Eles deitaram-no ali,
fechado o deixaram ali dormindo
na escuridão. Eles barraram as portas.
A noite passou. A manhã acordou
como sempre cedo na terra;
o dia chegou fraco. As portas foram abertas.
Os homens entraram, então espantados pararam;
medo e espanto enchia os vigias.
A casa estava vazia, o salão deserto;
nenhuma forma eles encontraram no chão,
mas ao lado da cama esquecida estava a brilhante taça
seca e vazia no pó aguardando.

O convidado fora-se. O desgosto tomou-os.
Com tristeza o procuraram, até o sol se elevar
sobre as colinas, e do céu para as casas dos homens
a luz chegou. Eles olharam para cima
e alto numa colina gelada e sem árvores
o convidado olhava-os: ouro brilhava
no seu cabelo, na mão carregava a harpa;
aos seus pés eles viram os dourados
feixes de milho. Então a sua voz clara
uma canção começou, doce, fora deste mundo,
palavras estranhamente tecidas na musica,
numa língua desconhecida. As árvores ficaram em silêncio
e os homens sem se mexer ouviam maravilhados.

A Terra-Média não tinha conhecido por muitas eras
nem canções nem cantores; nenhuma visão tão bela
tinham os olhos mortais, desde que a terra era nova,
visto quando acordavam nesse triste país
à muito esquecido. Nenhum senhor eles tinham,
nenhum rei ou conselho, só o frio terror
que vivia no deserto, a escura sombra
que caçava nas colinas e floresta gelada.
O medo era o seu senhor. Escuro e silencioso,
há muitos anos esquecido, sozinho aguardava
o salão dos reis, casa perdida
sem fogo ou comida.

Os homens apressaram-se
das suas escuras casas. Portas abriram-se
e portões foram abertos. A alegria acordou.
Para a colina foram, e com cabeças levantadas
o convidado olharam. Homens de barba cinzenta
curvaram-se diante dele e abençoaram a sua chegada
que os seus anos curava; jovens e donzelas,
esposas e crianças deram-lhe boas vindas.
A sua canção tinha acabado. Silencioso
ele olhou para eles. Senhor lhe chamaram;
Rei o fizeram, coroado com dourado
trigo, branca a sua vestimenta,
a sua harpa o seu ceptro. Na sua casa havia fogo,
comida e sabedoria; ali o medo não chegava.
Num homem se tornou, forte e sábio.

Sheave lhe chamaram, o trazido pelo barco,
um nome famoso nos países do Norte
desde então em canção. Pois um segredo escondido
o seu verdadeiro nome era, numa língua desconhecida
de longínquos países onde os mares
molham costas ocidentais para lá dos caminhos dos homens
desde que o mundo piorou. A palavra está esquecida
e o nome morreu.

As suas necessidades ele curava,
e leis há muito esquecidas ele renovou.
Sábias e amáveis palavras ele lhes ensinou –
No tempo de Sheave a língua deles deleitava-se
com canções e musicas. Segredos ele abriu,
runas revelou. Riquezas ele lhes deu,
recompensa por trabalhos, riqueza e conforto
da terra clamavam, acres foram arados,
semeando na estação própria com fartura de sementes,
guardando douradas colheitas
com a ajuda de todos. As geladas florestas
nesses dias recuaram para as escuras montanhas;
a sombra regrediu, e brilhante milho,
brancas espigas de trigo sussurravam nas brisas
onde a desolação tinha estado. Os bosques tremeram.

Salões e casas feitas de madeira,
fortes torres de pedra altas e orgulhosas,
telhados dourados, na sua cidade guardada
eles ergueram e telharam. Na sua residência real
de madeira as paredes foram esculpidas;
cheias com figuras de prata,
ouro e escarlate, cintilantes ali se penduravam,
contando histórias de estranhos países,
onde alguém sábio as lendas tecidas
podia seguir com o pensamento. No seu trono os homens encontravam
conselhos, conforto e cura,
justiça nos julgamentos. Generosamente ele
dava os seus presentes. A glória era elevada.
Longe, sobre as douradas águas, chegou a sua fama,
através das terras do Norte o seu nome ecoou,
o brilhante rei, Sheave o poderoso.

Sete filhos ele teve, senhores de príncipes,
homens com grandes mentes, fortes
e grandes de coração. Da sua casa vieram
as sementes dos reis, como as canções nos contam,
pais dos pais, que antes da mudança
nos Dias Antigos a terra governaram,
reinos do Norte baptizaram e fundaram,
escudos dos seus povos: descendem de Sheave:
Dinamarqueses e Godos, Suecos e Homens do Norte,
Francos e Frísios, povo das ilhas,
Homens de Espada (3) e Saxões, Suevos (4) e Ingleses,
e os Lombardos que à muito tempo
para lá de Myrcwudu (5) um grande reino
e riquezas ganharam nos países Romanos (6)
onde o herdeiro de Ælfwine Eadwine
foi rei em Itália. Tudo isto acabou.

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Notas sobre o Rei Sheave:

(1)– Sheave – quer dizer feixe, molho, facho. Os homens deram-lhe este nome devido ao feixe de milho que ele trazia consigo.

(2)– Angol – a antiga terra dos Ingleses antes da sua migração pelo Mar do Norte.

(3)– Homens de Espada – no original [i]swordmen[/i]. Cristopher Tolkien: “É evidente que isto é o nome de um povo, mas não é claro qual. Talvez o meu pai tivesse em mente os [i]Brondingas[/i], governados por Breca, o adversário de Beowulf na prova de natação, pois o nome foi interpretado como tendo a palavra [i]brond[/i] – [i]espada[/i].”

(4)– Suevos – no original [i]Swabes[/i]. Cristopher Tolkien: “Os Suevos dos historiadores Romanos, um termo usado para denominar muitas tribos Germânicas, mas aqui usado para se referir particularmente aos Swabianos que habitavam no norte e vizinhos dos Ingleses.”

(5)– Myrcwudu (Inglês Antigo): [i]Mirkwood[/i]. Um antigo e lendário nome Germânico para a grande e escura floresta-fronteira, usada para várias aplicações. Aqui refere-se aos Alpes Orientais.

(6)– Romanos – no original [i]Welsh[/i] – estrangeiro (Romano). Cristopher Tolkien: “O meu pai usou esta palavra com o seu sentido antigo. A antiga palavra Germânica [i]walhoz[/i] significava “estrangeiro Celta ou Romano”. Assim o plural do Inglês Antigo [i]Walas[/i] (a moderna Gales), os Celtas da Bretanha. Por exemplo no [i]Widsith[/i] os Romanos são chamados de [i]Rūm-walas[/i], e César reina sobre as cidades e riquezas de [i]Wala rice[/i], o reino dos [i]Walas[/i]. O antigo significado sobrevive na palavra [i]walnut[/i], “noz das terras Romanas”, também em [i]Wallace[/i], [i]Walloon[/i].


Este poema foi traduzido por Aegnor