A Balada de Leithian

Escrito por Aegnor. Publicado em History of Middle-Earth

Introdução do tradutor:

Finalmente acabei a tradução deste longo poema "The Lay of Leithian", A Libertação do Cativeiro. Podem encontrar a versão original no 3º volume da série "HoME": The Lays of Beleriand.
Comecei a traduzir pequenos excertos à mais de um ano, e posso dizer que fiquei apaixonado por este texto. Sempre gostei da História de Beren e Lúthien no Silmarillion, mas este poema dá uma nova dimensão à história. :)

Deixo aqui um comentário de C. S. Lewis (amigo de Tolkien), acerca do poema:

“Eu sentei-me tarde ontem à noite e li a Aventura até onde Beren e os seus aliados elfos derrotam os orcs acima das nascentes do Narog e se disfarçam no rëaf [Inglês Antigo: "vestimentas, armas, tiradas dos mortos"]. Eu posso dizer muito honestamente que havia tempos desde que eu tinha uma tarde tão deliciosa: e o interesse pessoal de ler o trabalho de um amigo teve muito pouco a ver com isso. Eu teria gostado igualmente se a tivesse comprado numa livraria, feita por um autor desconhecido. As duas coisas que se destacam são o sentido de realidade no segundo plano e o valor mítico: a essência de um mito é que não deve ter nenhum gosto de alegoria para o criador e no entanto deverá sugerir alegorias incipientes ao leitor.”

"A Balada de Leithian" tem duas versões, o texto A e B. O texto aqui traduzido é o B com as últimas alterações feitas por Tolkien após a publicação do "Senhor dos Anéis".

Este artigo está dividido por Capítulos. Boa Leitura!

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A Aventura de Beren filho de Barahir e Lúthien a elfa chamada Tinúviel o rouxinol ou a
Balada de Leithian
Libertação do Cativeiro

I – De Thingol em Doriath

Havia um rei nos dias de antigamente:
antes dos homens caminharem na terra
o seu poder era reverenciado na sombra das cavernas,
a sua mão estava sobre os vales e clareiras.
De folhas a sua coroa, o seu manto verde,
as suas lanças prateadas longas e afiadas,
a luz das estrelas no seu escudo era apanhada,
antes da Lua ser feita ou o Sol forjado.
Nos dias futuros quando para a costa
da Terra-Média de Valinor
as hostes Élficas em força regressaram,
e bandeiras voaram e faróis queimaram,
quando os reis de Eldamar passaram
em força de guerra, debaixo do céu
então ainda as suas trompas de prata troaram
quando o Sol era jovem e a Lua nova.
Longe então em Beleriand,
na terra cercada de Doriath,
o Rei Thingol sentava-se no trono guardado
nos muitos salões de colunas de pedra:
ali o berilo, pérolas, e a pálida opala,
e o metal forjado como escamas de peixe,
escudos e coletes, machados e espadas,
e brilhantes lanças eram deitadas em tesouros:
tudo isto ele tinha e achava pouco,
pois mais querida do que toda a riqueza em salões,
e mais bela do que as nascidas dos Homens,
uma filha ele tinha, Lúthien.

De Lúthien a Amada

Tais ágeis membros não mais correrão
na verde terra debaixo do Sol;
tão bela uma donzela não mais será
desde a aurora ao anoitecer, desde o Sol ao Mar.
O seu vestido era azul como os céus de Verão,
mas cinzentos como o entardecer eram os seus olhos;
o seu manto bordado com belos lilios,
mas escuros como as sombras os seus cabelos.
Os seus pés eram rápidos como um pássaro a voar,
o seu riso alegre como a Primavera;
o esbelto salgueiro, o dobradiço junco,
a fragrância de um prado florido,
a luz sobre as folhas das árvores,
a voz da água, mais que tudo isto
era a sua beleza e bem-aventurança,
a sua glória e encanto.

Ela habitava na terra encantada
enquanto o poder élfico ainda dominava
os bosques entrelaçados de Doriath:
ninguém nunca para ai encontrou o caminho
sem ser convidado, nem a beira da floresta
se atreveu a passar, ou agitar as folhas atentas.
Para norte ficava uma terra de medo,
Dungortheb onde todos os caminhos acabavam
em colinas de sombras escuras e frias;
para lá era o domínio da Mortífera Floresta sob a Noite
na crescente sombra de Taur-nu-Fuin,
onde o Sol era doentio e a Lua pálida.
Para Sul a grande terra inexplorada;
para Oeste o antigo Oceano troava,
não navegado e sem costas, imenso e selvagem;
para Este em picos de azul empilhadas,
em silêncio envolvidas, encimadas de névoa,
as montanhas do mundo exterior.

Assim Thingol no seu belo salão
entre as altas Mil Cavernas
de Menegroth como rei vivia:
para ele nenhuma estrada mortal levava.
Ao seu lado sentava-se a sua rainha imortal,
a bela Melian, que tecia invisíveis
redes de encantamentos em redor do seu trono,
e feitiços eram postos em árvore e pedra:
aguçada era a sua espada e alto o seu elmo,
o rei da faia, carvalho e olmo.
Quando a erva era verde e as folhas longas,
quando o tentilhão e o tordo cantavam a sua canção,
ai por baixo dos ramos e debaixo do Sol
na sombra e na luz corria
a bela Lúthien a dama élfica,
dançando em vales e verdejantes clareiras.

De Daeron o menestrel de Thingol

Quando o céu era claro e as estrelas intensas,
então Daeron com os seus dedos debruçava-se,
assim que a luz do dia se fundia no entardecer,
e uma vibrante e doce música tecia
em flautas de prata, fina e clara
para Lúthien, a donzela amada.

Ali havia alegria e vozes claras;
ali a tarde era pacífica e a manhã suave,
ali as jóias cintilavam e a prata empalidecia
e ouro vermelho em dedos brancos resplandecia,
e a elanor e niphredil
desabrochavam na erva ainda inalterável,
enquanto os intermináveis anos da terra Élfica
rolavam sobre Beleriand,
até que um dia de destino aconteceu,
como ainda os harpistas élficos cantam.

 


II – De Morgoth e a Traição de Gorlim

Longe nas colinas de pedra do Norte
em cavernas escuras havia um trono
por chamas cercado; ali o fumo
em turbilhantes colunas subia para sufocar
o sopro da vida, e ai em fundas
e sufocantes masmorras perdidas arrastavam-se
para a morte sem esperança todos aqueles que se perdiam
debaixo daquela sombra horrenda.
Um rei ai se sentava, o mais escuro e terrível
de todos os que sob o céu habitam.
Do que a terra ou o mar, do que lua ou estrela
mais antigo ele era, mais poderoso
em mente abismal do dele pensavam
os Eldar ou os Homens, e forjado
com força primitiva; antes da pedra
ser cortada para construir o mundo, sozinho
ele andou na escuridão, feroz e terrível,
queimou-a, enquanto a manejava pelo fogo.
Ele era aquele que deixou em negra ruína
o Reino Abençoado e depois fugiu para
a Terra-Média de novo para construir
por baixo das montanhas mansões cheias
com ilegítimos escravos de ódio:
a sombra da morte reproduzia-se à sua porta.
As suas hostes ele armou com lanças de aço
e archotes em chamas, e no seu encalço
o lobo andava e a serpente rastejava
com olhos vigilantes. Agora em frente eles lançavam-se,
as suas ruinosas legiões, ateando a guerra
em campos, baías e antigas florestas.
Onde longamente a dourada elanor
tinha cintilado entre a erva eles enterraram
os seus estandartes negros, onde o tentilhão tinha cantado
e os harpistas harpas de prata tocado
agora escuros corvos voavam em círculos e gritavam
entre a fumaça, e longe e extensamente
as espadas de Morgoth pingavam com vermelho
acima dos decepados e espezinhados mortos.
Lentamente a sua sombra como uma nuvem
rolou do Norte, e nos orgulhosos
que não cediam a sua vingança caiu;
para a morte ou escravidão sob o Inferno
todas as coisas ele condenou: a terra do Norte
permaneceu encolhida debaixo da sua horrenda mão.

Mas ainda ali vivia em frios esconderijos
o filho de Bëor, Barahir o ousado,
da terra roubado e do senhorio privado
aquele que para príncipe dos Homens nasceu,
e agora um fora-da-lei escondido e deitado
na dura erva e florestas cinzentas.

Do salvamento do Rei Finrod Felagund pelos XII Bëorings

Doze homens ao seu lado ainda estavam,
ainda fiéis quando toda a esperança tinha acabado.
Os seus nomes ainda são nas canções élficas
relembrados, apesar de os anos serem muitos
desde que os valentes Dagnir e Ragnor,
Radhruin, Dairuin, e Gildor,
Gorlim o Infeliz, e Urthel,
e Arthad e Hathaldir caíram;
desde que a boca negra com ferida venenosa
levou Belegund e Baragund,
os valorosos filhos de Bregolas;
desde que aquele cujas acções e destino superam
todos os contos dos Homens foi deitado na tumba,
o belo Beren filho de Barahir.
Pois estes eram, os homens escolhidos
da casa de Bëor, que no pântano
do juncoso Serech ficaram a proteger
a retaguarda do Rei Finrod no dia
da sua derrota, e com as suas espadas
assim salvaram de todos os senhores Élficos
o mais belo; e o seu amor ganharam.
E ele escapando para Sul, regressou
a Nargothrond o seu grande reino,
onde ainda usou o seu elmo coroado;
mas eles para as suas casas no Norte cavalgaram,
destemidos e poucos, e ai viveram
ainda inconquistados, desafiando o destino,
perseguidos pelo ódio incansável de Morgoth.

De Tarn Aeluin o Abençoado

Tais proezas de ousadia ai forjaram
que logo os caçadores que os procuravam
ao rumor da sua chegada fugiam.
Apesar do preço em cada cabeça
igualar o resgate de um rei,
nenhum soldado podia a Morgoth trazer
notícias sequer do seu lar escondido;
pois onde a terra alta castanha e nua
acima dos escuros pinheiros subia
do íngreme Dorthonion para as neves
e estéreis ventos de montanha, ai ficava
um lago de água, azul de dia,
pela noite um espelho de vidro preto
para as estrelas de Elbereth que passavam
acima do mundo para Oeste.
Antigamente sagrado, ainda esse lugar era abençoado:
nenhuma sombra de Morgoth, e nenhuma coisa má
ainda lá tinha chegado; um anel murmurante
de elegantes bétulas cinzentas prateadas
inclinava-se nas suas margens, à volta ficava
uma solitária charneca, e os ossos nus
da antiga Terra como pedras erguidas
impelidas através da erva e do tojo;
e ai no desabrigado Aeluin
o senhor caçado e os fiéis homens
sob as cinzentas pedras fizeram o seu refúgio.

De Gorlim o Infeliz

Gorlim o Infeliz, filho de Angrim,
como a história conta, destes era o
mais impetuoso e desesperado. Ele para esposa,
enquanto boa a sorte da sua vida,
escolheu a branca donzela Eilinel:
doce amor eles tinham antes do mal chegar.
Para a guerra ele foi; da guerra regressou
para encontrar os seus campos e quinta queimados,
a sua casa esquecida sem tecto estava,
vazia entre o bosque sem folhas;
e Eilinel, branca Eilinel,
foi levada para onde ninguém podia dizer,
para a morte e escravidão muito longe.
Negra foi a sombra desse dia
para sempre no seu coração, e a duvida
ainda o roía enquanto ele andava
pela natureza procurando, ou à noite
muitas vezes sem sono, pensando que ela podia
antes do mal ter vindo fugido a tempo
para os bosques: ela não estava morta,
ela vivia, ela voltaria outra vez
para o procurar, e considera-lo ia morto.
Assim às vezes ele deixava o esconderijo,
e secretamente, sozinho, ia correndo perigo,
visitar a sua velha casa à noite,
partida e fria, sem fogo ou luz,
e nada senão desgosto renovado ganhava,
observando e esperando em vão.

Em vão, ou pior - pois muitos espiões
tinha Morgoth, muitos olhos ocultos
bem usados para penetrar o escuro mais negro;
e a chegada de Gorlim eles assinalaram
e reportaram. Assim chegou um dia
quando uma vez mais Gorlim rastejou até lá,
pela deserta estrada de erva
ao entardecer de um triste Outono com chuva
e frio vento lamentoso. Olhai! uma luz
na janela flutuando na noite
pasmado ele viu; e aproximando-se,
com fraca esperança e súbito medo,
ele olhou para dentro. Era Eilinel!
Apesar de estar diferente, ele conheceu-a bem.
Com desgosto e fome ela estava cansada,
os seus cabelos emaranhados, vestido rasgado;
seus olhos gentis com lágrimas estavam sombrios,
enquanto docemente chorava: "Gorlim, Gorlim!
Tu não me podes ter esquecido.
Então morto, ai de mim! Tu deves estar morto!
E eu devo permanecer fria, sozinha,
e sem amor como uma pedra estéril!"

Um grito ele deu - e então a luz
apagou-se, e no vento da noite
lobos uivaram; e no seu ombro caíram
subitamente as tormentosas mãos do inferno.
Ali os servos de Morgoth rapidamente o apanharam
e ele foi cruelmente atado, e trazido
a Sauron, capitão da hoste,
o senhor de lobisomens e fantasmas,
o mais hediondo e cruel de todos os que se ajoelham
diante do trono de Morgoth. Em grandeza ele habitava
na Ilha de Gaurhoth; mas agora tinha conduzido
a sua força para fora, a mando de Morgoth
para encontrar o rebelde Barahir.
Ele estava num escuro acampamento próximo,
e para ai os seus carniceiros arrastaram a sua presa.
Agora ali em angustia estava Gorlim:
com corda no pescoço, em mão e pé,
a cruel tormento foi sujeito,
para quebrar a sua vontade e o forçar
a comprar com traição o fim da dor.
Mas nada ele revelou
de Barahir, nem quebrou o selo
de fé que na sua língua estava posto;
até que por fim uma pausa foi feita,
e um chegou calmamente a seu lado,
uma forma escura que se inclinou, e falou
lhe de Eilinel sua mulher.
"Queres tu," disse ele, "esquecer a tua vida,
que com umas poucas palavras pode ganhar a libertação
para ela, e para ti, podendo partir em paz,
vivendo juntos longe da guerra,
amigos do Rei? Que queres tu mais?"
E Gorlim, agora muito cansado com dor,
e ansiando por ver a sua esposa outra vez
(que ele supunha que tinha sido também apanhada
na rede de Sauron), permitiu o pensamento
crescer, e vacilou no seu juramento.
Então direito, com pouca vontade e relutante,
eles trouxeram-no para a cadeira de pedra
onde Sauron se sentava. Ele ficou sozinho
diante daquela escura e tenebrosa face,
e Sauron disse: "Vamos, escória mortal!
O que é que eu ouvi? Que tu ousas querer
negociar comigo? Bem, fala a verdade!
Qual é o teu preço?" E Gorlim lentamente
baixou a cabeça, e com grande desgosto,
palavra por palavra, por fim implorou
aquele impiedoso e pérfido senhor
que ele pudesse partir livre, e pudesse
outra vez encontrar Eilinel a Branca,
e viver com ela, e deixar a guerra
contra o Rei. Ele não pediu mais.

Então Sauron sorriu, e disse: "Escravo!
O preço que pedes é pequeno
por traição e vergonha tão grande!
Eu concedo-to com certeza! Bem, eu espero:
Vamos! Fala depressa e fala verdade!"
Então Gorlim hesitou, e recuou
um pouco; mas o olho assustador de Sauron
fê-lo parar, e ele não se atreveu a mentir:
assim que ele começou, assim ele se encaminhou
do primeiro passo em falso para um fim desleal:
a tudo ele teve que responder como sabia,
traindo o seu senhor e irmandade,
e acabando, caiu sobre a sua face.

Então Sauron riu bem alto, "Sua escória,
seu verme curvado! Levanta-te,
e ouve-me! E agora bebe a taça
que eu docemente misturei para ti!
Seu idiota: vistes um fantasma
que eu, eu Sauron fiz para enganar
a tua vista. Nada mais estava ali.
Os espectros de Sauron são demasiado frios para casar!
A tua Eilinel! À muito que está morta,
morta, alimento de vermes menos baixos que tu.
E ainda assim o teu pedido eu concedo:
para junto de Eilinel tu brevemente irás,
e jazerás na sua cama, sem mais saber
de guerra - ou humanidade. Toma a tua paga!"

E Gorlim então foi arrastado para longe,
e cruelmente morto; e por fim
na molhada terra o seu corpo deitaram,
onde Eilinel à muito tempo jazia
nos bosques queimados pelos carniceiros morta.
Assim Gorlim teve uma morte má,
e amaldiçoou-se com o ultimo suspiro,
e Barahir finalmente foi apanhado
na armadilha de Morgoth; pois feita em nada
pela traição foi a antiga graça
que guardava à muito aquele lugar solitário,
Tarn Aeluin: agora tudo estava à vista
fosse caminhos secretos ou lares escondidos.

De Beren filho de Barahir e a sua fuga

Escuras do Norte agora sopravam as nuvens;
os ventos de Outono frios e barulhentos
assobiavam na erva; tristes e cinzentas
estavam as águas do lamentoso Aeluin.
"Filho Beren", disse então Barahir,
"Tu sabes do rumor que ouvimos
da força da Gaurhoth que foi enviada
contra nós; e a nossa comida esta quase acabada.
Em ti a sorte cai pela nossa lei
de ir agora sozinho para encontrar
a ajuda que puderes dos poucos escondidos
que ainda nos alimentam, e que novidades
há a saber. Que a sorte esteja contigo!
Volta depressa, pois relutantemente
nós te dispensamos da nossa irmandade,
tão pequena: pois Gorlim na floresta
à muito que está perdido ou morto. Adeus!"
Enquanto Beren se afastava, como um eco ainda
ressoava no seu coração aquela palavra,
a última do seu pai que ele ouviu.

Através de campos e pântanos, por árvores e mato
ele vagueou; ele viu o fogo
do campo de Sauron, ouviu os uivos
dos Orcs a caçar e de lobos a rondar;
e voltando a trás, por longo caminho,
a noite rapidamente na floresta caiu.
Com cansaço ele então teve de dormir,
satisfeito para um buraco de texugo rastejou,
e ainda assim ele ouviu (ou sonhou que ouvia)
por perto um exército a marchar
com o tilintar da malha e os choques dos escudos
a subir em direcção aos pedregosos campos montanhosos.
Ele caiu então em trevas profundas,
até que, como um homem que se afoga
chega à superfície arfando, parecia-lhe que
ele subia através de visco perto da beira
de sombrios charcos debaixo de árvores mortas.
Os seus ramos lívidos na brisa fria
tremiam, e todas as folhas negras se agitavam:
em cada folha um negro e barulhento pássaro,
cujo bico uma gota de sangue deixava cair.
Ele tremeu, lutando para de lá rastejar,
através das ventosas ervas, quando muito longe
ele viu uma sombra fraca e cinzenta
deslizando através do triste lago.
Lentamente chegou, e calmamente falou:
"Gorlim eu fui, mas agora um espectro
de vontade derrotado, fé quebrada,
traidor traído. Vai! Não fiques aqui!
Acorda, filho de Barahir,
e apressa-te! Pois os dedos de Morgoth fecham-se
sobre a garganta do teu pai; ele sabe
os vossos locais de encontro, os vossos caminhos, o vosso lar secreto."
Então ele revelou a armadilha diabólica
em que tinha caído, e falhado; e por último
pedindo perdão, chorou, e passou
para a escuridão. Beren acordou,
saltou como que subitamente atacado
com o fogo da raiva cheio. O seu arco
e espada ele agarrou e como um cabrito
rápido nas rochas e no mato ele apressou-se
antes da aurora. Antes do dia morrer
ao Aeluin por fim chegou,
enquanto o sol vermelho se afundava no Oeste em chamas;
mas o Aeluin estava vermelho com sangue,
vermelhas estavam as pedras e a lama pisada.
Pretos nas bétulas sentavam-se em fila
os corvos e aves de carniça;
molhados estavam os seus bicos, e preta a carne
que pingava debaixo das suas patas fechadas.
Um grasnou: "Há, há, ele chega demasiado tarde!"
"Há, há!" os outros responderam, "há! demasiado tarde!"
Então Beren enterrou os ossos do seu pai
com pressa debaixo de um monte de pedras;
nenhumas runas ou palavras ele escreveu
sobre Barahir, mas três vezes bateu
na pedra mais alta, e três vezes bem alto
ele gritou o seu nome. "A tua morte" ele jurou,
"Eu vou vingar. Sim, o meu destino
deve levar-me pelo menos à porta de Angband."
E então ele voltou-se, e não chorou:
tão escuro estava o seu coração, a ferida demasiado funda.
Fora para a noite, tão fria como pedras,
sem amor, sem amigos, ele partiu sozinho.

Da sabedoria dos caçadores ele não precisou
para o rasto encontrar. Com pouca atenção
o seu impiedoso inimigo, seguro e orgulhoso,
marchou para norte com altos sons
de trompas de bronze para o seu senhor saudar,
pisando a terra com pés moedores.
Atrás deles ousado mas esgotado ia
agora Beren, rápido como um cão num rasto,
até que ao lado de um escuro poço,
onde o Rivil subia das profundezas
e descia até ao pântano de Serech em corrente,
ele encontrou os assassinos, os seus inimigos.
De um esconderijo na vertente de uma colina próxima
ele viu-os a todos: apesar de menos do que temia,
demasiados para com a sua espada e arco
matar sozinho. Então, rastejando baixo
como uma cobra na erva, mais perto se chegou.
Ali muitos esgotados com a marcha dormiam,
mas os capitães, deitados na erva,
bebiam e de mão em mão deixavam passar
a sua pilhagem, regateando cada pequena coisa
tirada dos corpos mortos. Um deles um anel
ergueu, e riu: "Agora, companheiros," ele gritou
"aqui está a minha! E eu não serei negado,
apesar de poucos serem iguais a este na terra.
Pois fui eu que o tirei da mão
desse mesmo Barahir que eu matei,
o ladrão maldito. Se as histórias são verdadeiras,
ele recebeu-o de um qualquer senhor élfico,
pelo serviço mercenário da sua espada.
Nenhuma ajuda lhe deu - ele está morto,
São perigosos, os anéis élficos, diz-se;
só pelo ouro eu vou guarda-lo, sim
e assim aumento o meu escasso pagamento.
O velho Sauron mandou-me traze-lo de volta,
e ainda assim, eu acho, que ele não tem falta
de mais riqueza no seu tesouro:
quanto mais grande mais ganancioso o senhor!
Então ouçam, companheiros, isto todos devem jurar
que a mão de Barahir estava nua!"
E assim que acabou de falar uma seta voou
de trás das árvores, e mortalmente
sufocado ele caiu com uma farpa na garganta;
com a face malévola na terra ele bateu.
Avançando, então como um lobo feroz lá saltou
Beren para entre eles. Dois ele varreu
para o lado com a espada; apanhou o anel;
matou um que o agarrou; com um salto
de volta à sombra passou, e fugiu
antes que gritos de raiva e medo
de emboscada nos vales soassem.
Então atrás dele como lobos eles lançaram-se,
uivando e amaldiçoando, rangendo dentes,
cortando e entrando por dentro do mato,
atirando setas selvagens, umas atrás das outras,
às trémulas sombras ou agitadas folhas.
Em profética hora foi Beren nascido:
ele riu-se com os dardos e sonoras trompas;
o mais rápido em pés dos homens vivos,
incansável nos campos e rápido em pântanos,
sábio nos bosques, ele desapareceu,
defendido pela sua malha cinzenta
de arte anã em Nogrod feita,
onde os martelos tocam na sombra das cavernas.

Como destemido Beren foi reconhecido:
quando os homens mais duros sobre a terra
foram cantados o povo falava o seu nome,
predizendo que a sua fama futura
iria até o dourado Hador passar
ou Barahir ou Bregolas;
mas a tristeza agora no seu coração tinha-se tornado
em feroz desespero, não mais ele lutava
com esperança de vida ou alegria ou louvor,
mas procurando usar os seus dias
somente para Morgoth profundamente sentir
o ferrão do seu aço vingador,
antes da morte ele encontrar e o fim da dor:
o seu único medo era as correntes da escravidão.
O perigo ele procurava e a morte perseguia,
e assim escapou do destino por ele pretendido
e acções de espantosa audácia forjou
sozinho, das quais o seu rumor trouxe
nova esperança para muitos homens destroçados.
Eles sussurravam "Beren", e começavam
em segredo espadas a afiar, e docemente
por corações amortalhados ao entardecer muitas vezes
canções eles cantavam do arco de Beren,
de Dagmor a sua espada: como ele ia
silencioso aos acampamentos e matava o chefe,
ou apanhado no seu esconderijo para além da esperança
conseguia escapar, e sobre a noite
pelo nevoeiro ou lua, ou pela luz
do dia aparecia outra vez.
De caçadores caçados, assassinos assassinados
eles cantavam, de Gorgol o Carniceiro decepado,
da emboscada em Ladros, de fogo em Drûn,
de trinta em uma batalha mortos,
de lobos que gemiam como cachorros e fugiam
sim, o próprio Sauron com ferida na mão.
Assim um só encheu toda aquela terra
com medo e morte para o povo de Morgoth;
os seus camaradas eram a faia e o carvalho
que não o traíam, e animais cautelosos
com pêlo e pele e asas emplumadas
que silenciosamente vagueavam, ou que viviam sozinhos
em colinas e na natureza e na desolação das pedras
vigiavam todos os seus caminhos, os seus fiéis amigos.

No entanto raramente bem um fora-da-lei acaba;
e Morgoth era o rei mais forte
que todo o mundo tinha em canção
registado; escura através da terra
chegava a sombra da sua mão,
a cada recuo regressava outra vez;
mais dois exércitos foram enviados para um só inimigo matar.
A nova esperança foi amordaçada, todos os rebeldes mortos;
apagados os fogos, as canções pararam,
árvores caíram, a erva queimada, e através da desolação
marchou a negra hoste de Orcs a correr.
Quase que fechavam o seu anel de aço
a volta de Beren; dificilmente no seu encalço
agora cavalgavam os espiões; dentro da barreira
toda a ajuda era cortada, na orla
da morte à distância ele se manteve aterrado
e sabia que ou tinha que morrer por fim,
ou fugir da terra de Barahir,
a sua terra amada. Ao lado do lago
debaixo de um monte de pedras sem nome
apodrecem esses outrora grandiosos ossos,
esquecidos por filho e família,
pranteados pelas águas do Aeluin.

Numa noite de Inverno o desabrigado Norte
ele deixou para trás, e iludindo
o cerco de seu atento inimigo
ele passou - uma sombra na neve,
um sopro de vento, e ele tinha desaparecido,
a ruína de Dorthonion,
Tarn Aeluin e as suas águas escureceram,
por nunca mais voltarem a vê-lo.
Não mais o arco escondido cantará,
não mais as afiadas setas voarão,
não mais a sua cabeça cobiçada se deitará
sobre a erva debaixo do céu.
As estrelas do Norte, cujo o fogo prateado
os Homens antigos chamaram de Rosa Ardente,
puseram-se por trás das suas costas, e brilharam
naquela terra esquecida: ele tinha desaparecido.

Para Sul ele virou, e para Sul a
sua longa e solitária jornada ficava,
enquanto aparecessem à frente do seu caminho
os temerosos picos de Gorgoroth.
Nunca tinha o pé do homem mais ousado
ainda pisado aquelas montanhas íngremes e frias,
nem subido até ao seu súbito desfiladeiro,
donde, aterrorizados, os olhos sempre se voltam encolhidos
para ver os penhascos do sul cair desviando-se
em pináculos de rochas e contrafortes
descendentes para as sombras que foram postas
antes do Sol e Lua serem feitos.
Em vales tecidas com engano
e lavadas com águas amargas
a magia negra escondia-se em becos e vales;
mas muito longe do alcance
do olhar mortal o olho da águia
de estonteantes torres que furam o céu
podia cinzenta e brilhante ver ao longe,
tão bela como água sob as estrelas,
Beleriand, Beleriand,
as fronteiras da terra Élfica.

 


III - Da Vinda de Beren para Doriath; mas primeiro
é contado o encontro de Melian e Thingol

Ali à muito tempo nos Dias Antigos
antes da voz ser ouvida ou pisados os caminhos,
o assombro do silêncio ensombrava ainda
os estrelados anoiteceres do bosque de Nan Elmoth.
Em Dias Antigos que à muito estão esquecidos
uma luz por entre as sombras brilhou,
uma voz foi no silêncio ouvida:
o súbito cantar de um pássaro.
Ali Melian chegou, a Senhora cinzenta,
e escuros e longos os seus cabelos deitou
debaixo do seu prateado assento cintado
e debaixo dos seus pés prateados.
Os rouxinóis com ela vieram,
a quem a sua canção ela ensinou,
os quais docemente nas suas brilhantes mãos
tinham cantado nas terras imortais.
De lá errantemente vagueando uma vez
de Lórien ela atreveu-se a trepar
as imortais montanhas
de Valinor, na base das quais batem
as ondas do Mar Sombrio.
Saindo assim livremente,
para aos jardins dos Deuses não mais
voltar, mas em costa mortal,
como um brilho antes da aurora ela vagueou,
cantando os feitiços de clareira em clareira.

Um pássaro na floresta de Nan Elmoth
piou, e ao ouvi-lo Thingol parou
surpreendido; então muito longe ele ouviu
uma voz mais bela do que a mais bela das aves,
uma voz de notas como claro cristal
como um fio de vidro prateado longínquo.

Do povo e família não mais ele pensou;
da missão que trouxe os Eldar
do longínquo Cuivínen,
de terras que ficam para lá do mar
não mais ele quis saber, esqueceu tudo,
atraído somente por aquele distante chamamento
até que profundamente na sombria floresta de Nan Elmoth
perdido e sem ajuda ficou.
E ai viu-a, bela e élfica:
Ar-Melian, a Senhora cinzenta,
silenciosa como as árvores sem vento,
com névoa até aos joelhos,
e no seu rosto longínqua a luz
de Lórien cintilava na noite.
Nenhuma palavra ela disse; mas passo a passo,
uma alta sombra, direita à sua face
avançou o rei do manto prateado,
o alto Elu Thingol. No anel
de árvores expectantes ele tomou-a pela mão.
Um momento face a face ficaram
sozinhos, debaixo do céu estrelado,
enquanto os anos das estrelas na terra passavam
e na floresta de Nan Elmoth as árvores
cresceram escuras e altas. O murmúrio dos mares
subindo e descendo na costa
e a trompa de Ulmo não mais ele ouviu.

Mas longamente o seu povo procurou em vão
o seu senhor, até que Ulmo chamou outra vez,
e então com desgosto eles marcharam em frente,
deixando os bosques. Para portos cinzentos
na costa ocidental, a ultima
longa costa de terra mortal, eles passaram,
e daí foram transportados pelo Mar
para Aman, o Reino Abençoado, para ficarem
no sempre verde Ezellohar
em Valinor, em Eldamar.


Assim Thingol não navegou nos mares
mas viveu entre a terra das árvores,
e Melian ele amou, divina,
cuja voz era potente como o vinho
que os Valar bebem em salões dourados
onde flores desabrocham e fontes desaguam;
mas quando ela cantava era um feitiço,
e nenhuma flor se agitava nem fonte jorrava.
Um rei e Rainha assim viveram longamente,
e Doriath estava cheia de canções,
e todos os Elfos que perderam o seu caminho
e nunca encontraram a baía ocidental,
as brilhantes muralhas da sua longa casa
junto dos mares cinzentos e branca espuma,
que nunca caminharam na terra dourada
onde as torres dos Valar se erguem,
todos estes foram reunidos no seu reino
debaixo da faia, carvalho e olmo.

Em dias posteriores quando Morgoth fugiu
da ira e ergueu uma vez mais a sua cabeça
e Coroa de Ferro, e o seu grande trono
debaixo das fumegantes montanhas
fundou e fortificou outra vez,
então lentamente o medo e as trevas cresceram:
a Sombra do Norte que todos
os Povos da Terra iria escravizar.
Os senhores dos Homens a ajoelhar-se ele obriga,
os reinos dos Reis Exilados
ataca com guerra imparável:
nos seus últimos portos na costa
eles vivem, ou em fortalezas muradas com medo
defendendo as fronteiras temerosas,
até que cada uma cai. Ainda assim reina lá ainda
em Doriath para lá da sua vontade
o Rei Cinzento e imortal Rainha.
Nenhum mal no seu reino é visto;
nenhum poder a sua grandeza pode ainda ultrapassar;
lá ainda existe riso e erva verde,
lá as folhas estão acesas pelo branco Sol,
e muitas maravilhas começam.

Lá ia agora no Reino Guardado
debaixo da faia, debaixo do olmo,
ali com pés leves corria agora no verde
a filha do rei e da rainha:
dos mais velhos de Arda nascida
com a beleza da alvorada élfica
e a única criança destinada pelo nascimento
a andar com vestimentas da Terra
Daqueles que descendem dos que começaram
antes do mundo do Elfo e do Homem.

Para lá das fronteiras de Arda muito longe
ainda brilhavam as Legiões, estrelas e estrelas,
memoriais do seu longo trabalho,
realizações de Visão e de Canção;
e quando debaixo da sua antiga luz
na Terra por baixo estava uma noite sem nuvens,
a musica em Doriath acordou,
e ai debaixo dos ramos do carvalho,
ou sentado nas castanhas folhas das faias,
Daeron o escuro com coroa de fetos
tocava nas suas flautas com arte élfica
insuportável aos corações mortais.
Nenhum outro músico houve,
nenhuns outros lábios ou dedos vistos
tão habilidosos, dito isto em tradição élfica,
excepto Maglor filho de Fëanor,
harpista esquecido, cantor amaldiçoado,
que novo quando Laurelin ainda desabrochava
para a lamentação sem fim passou
e no mar sem fundo se atirou.
Mas Daeron no encanto do seu coração
ainda vivia e tocava na noite estrelada,
até que uma noite de Verão chegou,
como ainda os harpistas élficos cantam.
Então alegremente a sua flauta tocava;
a erva era suave, o vento estava parado,
o entardecer demorava-se fraco e frio
em formas sombrias sobre os charcos
debaixo dos ramos de árvores adormecidas
silenciosas e quietas. Pelos seus joelhos
uma névoa prateada brilhava pálida,
e fantasmagóricas traças em frágeis asas
voavam para a frente e para trás. Ao lado do lago
apressando-se, agitando, elevando-se claramente
a flauta chamou. Então ela chegou,
tão pura e súbita como uma chama
de perlífico branco as sombras trespassando,
a sua morada de donzela em brancos pés abandonando;
e como quando as estrelas do Verão se elevam
radiantes para os escuros céus,
a sua luz viva tudo transformava
em fulgurante prata assim que ela passava.
Ali agora ela andava com passo élfico,
dobrando-se e inclinando-se na sua graça,
um pouco relutante; então começou
a dançar, a dançar: em confusão corria
estonteante, e uma névoa de branco
estava envolta no seu rodopiante voo.
O vento assobia na água cintilante,
e a trémula folha e flor eram vergadas
com orvalho de diamante, enquanto cada vez mais rápido
e mais rápido andavam os seus pés alados.

O seu longo cabelo como uma nuvem caía
sobre os seus brilhantes braços levantados,
enquanto que lentamente sobre as árvores a Lua
na glória da plenitude
erguia-se, e na clareira aberta
a sua luz serena e clara deitava.
Então subitamente os seus pés pararam,
e através dos entrelaçados bosques ali entoou,
metade sem palavras, metade em língua élfica,
a sua voz elevou-se numa alegre canção
que dos rouxinóis aprendera
e na sua alegria de viver a tinha tornado
numa bela escravizadora de corações,
solteira, imortal, entristecida.

Ir Ithil ammen Eruchín
menel-vîr síla díriel
si loth a galadh lasto dîn!
A Hîr Annûn gilthoniel,
le linnon im Tinúviel!

Ó Lúthien mais bela das elfas
que prodígio moveu as tuas danças então?
Nessa noite que magia da Elficidade
encantada a tua voz possuía?
Tal maravilha não mais existirá
na Terra ou a Oeste para lá do mar,
ao entardecer ou amanhecer, pela noite ou dia
ou debaixo do espelho da Lua!
Em Neldoreth foi posto um feitiço;
a música no silêncio caiu,
pois Daeron jogou a sua flauta fora,
desdenhada na erva a deixou,
num encantamento preso como pedra ficou
com o coração partido na floresta atenta.
E ainda ela cantava acima da noite,
como luz regressando à luz
elevando-se do mundo subterrâneo
quando subitamente ali chegou um lento
e vagaroso passo de pesados pés nas folhas,
e das trevas na beira
da brilhante clareira uma forma saiu
com mãos a tactear, como que se em dúvida
ou cego, e enquanto tropeçando passava
sob a Lua uma sombra lançou
torcida e escura. Então do alto
como quando a cotovia cai a pique do céu
a canção de Lúthien baixou e cessou;
mas Daeron do feitiço libertado
acordou para o medo, e gritou em desespero:
"Foge Lúthien, ah Lúthien vai!
Um mal anda nos bosques! Vai!"
Então ele fugiu no seu terror
sempre chamando-a para segui-lo,
até que muito longe o seu grito era fraco
"Ah foge, ah foge agora Lúthien".
Mas silenciosa ela ficou no vale
imóvel, pois nunca o medo havia conhecido,
como uma esbelta e solitária flor ao luar,
branca e quieta com rosto elevado,
esperando, até que o medo chegou até ela, totalmente sozinha,
vendo aquela forma com cabelo emaranhado
e longa sombra que parava ali.
Então de repente ela desapareceu como um sonho
em esquecida escuridão, um brilho
em apressadas nuvens, pois ela tinha saltado
por entre os altos abetos, e espreitou
por baixo de uma grande planta com folhas
grandes e escuras, cujo tronco em feixes
sustentava umas cem belas sombrinhas;
nos seus brancos braços e ombros nus
a sua vestimenta pálida, e nos seus cabelos
as bravas rosas brancas cintilavam,
tudo estava com branco luar espalhado
em brilhantes poças sobre o chão.
Então o selvagem olhou preso de espanto
as árvores silenciosas, o chão deserto;
ele cegamente tacteou através da clareira
para as escuras árvores de sombra cercadas,
e, enquanto ela olhava com olhos ocultos,
tocou o seu suave braço em doce surpresa.
Como a agitada traça que de mortal sono
em abrigo escuro ou agitados arbustos fundos
ela correu rapidamente, para a frente e trás
com a sabedoria que os dançarinos élficos sabem
sobre os troncos das árvores ela traçou
um caminho fantástico. De muito longe
encantado, selvagem e desamparado
Beren chegou tropeçando, ferido e rasgado:
Esgalduin o rio élfico,
no qual entre a sombra das árvores brilham
as estrelas, corria forte diante dos seus pés.
Algum secreto caminho ela encontrou, e fugindo
passou por ele e não mais foi vista,
e deixou-o esquecido na margem.
"Escura a divisora corrente passa por mim!
A isto chega por fim a minha longa estrada -
a esfomeadas e solitárias,
impiedosas águas encantadas."

Um Verão terminou, um Outono brilhou,
e Beren nos bosques habitou,
tão selvagem e cauteloso como a fauna
que subitamente acorda na sussurrante manhã,
e salta de sombra em sombra, e foge
da luminosidade do Sol, e ainda assim vê
todos os invisíveis movimentos na floresta.
Os quentes murmúrios em tempos bons,
os zumbidos de muitas asas, os chamamentos
de muitos pássaros, o rufar da queda
da súbita chuva sobre as árvores,
as ventosas ondas em mares de folhas,
o coaxar nos pântanos, ele ouviu;
mas a canção do mais belo pássaro não
trouxe alegria ou conforto ao seu coração,
um vagabundo surdo que vivia aparte;
que procurava sem descanso e em vão
ouvir e ver aquelas coisas outra vez:
uma canção mais bela que o rouxinol,
uma maravilha ao pálido luar.

Um Outono passou, um Inverno caiu
nas secas folhas em bosques e clareiras;
as faias nuas estavam tristes e cinzentas,
e vermelhas as suas folhas debaixo delas jaziam.
De pálidas cavernas os húmidos olhos da Lua
as brancas névoas que da terra se elevam
para esconder o Sol do dia seguinte e pingam
todo o cinzento dia de cada ponta dos ramos.
Pela manhã ou tarde ele ainda a procura;
pelo dia ou noite em frios vales,
nem ouve um só som mas o lento batimento
em folhas encharcadas dos seus próprios pés.

O vento do Inverno soprava a sua trompa;
o véu de névoa está rasgado e cortado.
O vento morre; os coros de estrelas
saltam no silencioso céu em fogo,
cuja luz chega com frio cortante e pura
através de cúpulas de claro cristal gelado.

Uma faísca através das escuras árvores,
um penetrante brilho de luz ele vê,
e ali ela dança completamente sozinha
em cima de um livre cabeço de pedras!
O seu manto azul com jóias brancas
apanhava todos os raios de luz gelada.
Ela brilhava com fria e branca chama,
enquanto dançando descia a colina,
e passando diante do seu atento olhar silencioso,
um brilho como de estrelas em chamas.
E flocos de neve levantaram-se debaixo dos seus pés,
e um pássaro, subitamente, tardio e doce,
piou assim que ela passou.
Um gelado ribeiro para uma borbulhante canção
acordou e riu; mas Beren parou
ainda preso pelo encantamento na floresta.
A luz dela desvaneceu-se e a noite
fechou-se sobre a brilhante neve branca.

Depois disso numa verde colina
ele viu muito longe a bela donzela
de brancos membros e jóias brilhantes
muitas e muitas vezes em noites de luar;
e a flauta de Daeron acordou uma vez mais,
e suavemente ela cantou como antigamente.
Então perto ele se escondeu atrás das árvores,
e a mágoa misturou-se com o alívio.

Uma noite chegou quando o Inverno morria;
então sozinha ela cantou e chorou
e dançou até à aurora da Primavera,
e cantou alguma coisa mágica e selvagem
que o agitou, até que subitamente quebrou
os encantamentos que o prendiam, e ele acordou
da doce loucura e bravo desespero.
Ele levantou os braços para o ar da noite,
e lá dançou sem preocupações, rápido,
encantado, com pés encantados.
Ele apressou-se em direcção à verde colina,
aos ágeis membros, à bela dançarina;
ele saltou sobre a verdejante colina
os seus braços com amor por encher:
os seus braços estavam vazios, e ela fugiu;
fugindo, fugindo os seus brancos pés se apressam.
Mas enquanto ela abalava ele rápido chegou
e chamou-a com o suave nome
dos rouxinóis em língua élfica,
que todos os bosques agora subitamente tocavam:
"Tinúviel! Tinúviel!"
E clara a sua voz foi como um sino;
os seus ecos teceram um cativante feitiço:
"Tinúviel! Tinúviel!"
A sua voz de tanto amor e espera cheia
que um momento ela parou, o medo acabou;
só um momento; como uma chama
ele saltou direito a ela enquanto ela parava
e apanhou e beijou aquela donzela élfica.

Enquanto o amor ali acordou com doce surpresa
a luz das estrelas tremeu nos seus olhos.
Á! Lúthien! Á! Lúthien!
mais bela que qualquer criança dos Homens;
Ó! encantadora donzela da Elficidade,
que loucura possuis agora!
Á! ágeis membros e sombrios cabelos
e grinalda de brancas flores;
Ó! estrelado diadema e brancas
pálidas mãos debaixo do pálido luar!
Ela deixou os seus braços e fugiu
mesmo ao raiar do dia.

 


IV

Ele deitou-se sobre o chão de folhas,
a sua face sobre o frio seio da terra,
desfalecido em esmagadora felicidade,
encantado com um beijo élfico,
vendo dentro dos seus escuros olhos
a luz que por nenhumas trevas morre,
o amor que não desaparecerá,
apesar de tudo em frias cinzas se tornar.
Então envolto nas névoas do sono
ele afundou-se em abismos profundos,
afogado num enorme desgosto
por partir após tão breve encontro;
uma sombra e uma bela fragrância
persistiam, desvaneciam e desapareciam.
Esquecido, estéril, nu como pedra,
o dia encontrou-o frio, sozinho.

"Para onde fostes tu? O dia está vazio,
a luz do Sol escura, e fria no ar!
Tinúviel, para onde foram os teus pés?
Ó estrela errante! Ó doce donzela!
Ó flor da Terra Élfica demasiado bela
para o coração mortal! Os bosques estão vazios!
Os bosques estão vazios!" ele levantou-se e gritou.
"Antes da Primavera nascer, a Primavera morreu!"
E vagueando por caminhos e mente
ele tacteou como alguém que fica subitamente cego,
que tenta agarrar a luz escondida
com mãos vacilantes em mais que a noite.

E assim em angustia Beren pagou
por esse grande destino sobre ele posto,
o imortal amor de Lúthien,
demasiado bela para o amor de Homens mortais;
e para o seu destino foi Lúthien atraída,
a imortal a sua mortalidade partilhou;
e o Destino para eles forjou uma corrente unida
por amor vivo e dor mortal.

Para lá de toda a esperança os seus pés regressaram
ao entardecer, quando no céu brilhava
a chama das estrelas; e nos seus olhos
ali tremia a luz estrelada dos céus,
e do seu cabelo caía uma fragrância
de flores élficas num vale élfico.

Assim Lúthien, a quem nenhuma perseguição,
nem armadilha, nem dardos que caçadores lancem,
podem esperar ganhar ou apanhar, ela chegou
ao doce chamamento do seu nome;
e assim na dele a sua esbelta mão
foi ligada na longínqua Beleriand;
numa hora encantada à muito tempo
os seus braços à volta do pescoço dele se envolveram,
e gentilmente ela se baixou para descansar
a cabeça cansada dele sobre o seu peito.
A! Lúthien, Tinúviel,
porque fostes tu ao escuro vale
com olhos brilhantes e passo dançante,
com o entardecer brilhando na tua face?
Cada dia antes do fim da tarde
ela procurava o amor dele, não o deixando,
até que as estrelas se apagassem, e o dia
viesse cintilando do Este cinzento prateado.
Então tremendo ela apareceria
e dançava diante dele, com um pouco de receio;
ali correndo mesmo diante dos pés dele
ela gentilmente dizia com um doce riso:
"Vem! dança agora, Beren, dança comigo!
Pois satisfeita a tua dança quero ver.
Vem! deves cortejar com pés mais ágeis
do que esses que caminharam onde as montanhas encontram
os amargos céus para lá deste reino
de maravilhoso luar em faias e olmos."

Em Doriath Beren à muito tempo
nova arte e saber aprendeu a conhecer;
os seus membros foram libertados; os seus olhos iluminados,
acessos com uma nova visão encantada;
e para os dançantes pés dela os seus
em harmonia foram dançando livres e rápidos;
o seu sorriso jorrou como que de uma fonte
de música, e a sua voz cantou
como as vozes daqueles em Doriath
onde pavimentados com flores são chão e estrada.
O ano assim para o Verão rolou,
da Primavera a um Verão de ouro.

Assim dançando rapidamente as suas curtas horas voaram,
enquanto Daeron vigiava com olhos fogosos,
escondido no escuro das árvores emaranhadas
todo o dia, até que à noite ele vê
no instável luar os seus pés dançantes,
dois namorados ligados em doce dança,
duas sombras cintilando no verde
onde dançando sozinha a donzela tinha estado.
"Odiosa és tu, Ó Terra das Árvores!
Possa o medo e o silencio apanhar-te!
A minha flauta cairá da mão ociosa
e a alegria deixará Beleriand;
a música perecerá e as vozes falharão
e as árvores mudas ficarão em vales e montes!"

Parecia que um silêncio tinha caído ali
sobre o parado ar da floresta;
e muitas vezes murmurou o povo de Thingol
em dúvida, e ao seu rei eles falaram:
"Este feitiço de silêncio quem o teceu?
Que teia terá apanhado a música de Daeron?
Parece que os próprios pássaros cantam baixo;
murmurante o Esgalduin agora corre;
as folhas escassamente suspiram nas árvores,
e sem som batem as asas das abelhas!"

Isto Lúthien ouviu, e ali a rainha
os seus súbitos olhares viu sem ser vista.
Mas Thingol espantou-se, e procurou
por Daeron o flautista, assim foi
e sentou-se sobre o seu grande assento -
o seu verde trono aos pés cinzentos
da Rainha das Faias, Hirilorn,
sobre aqueles triplos troncos nasceu
a maior abóbada de folhas e ramos
do princípio do mundo até agora.
Ela ficava acima da costa do Esgalduin,
onde longas encostas caíam ao lado da porta,
os portões guardados, os fortes portais
das Mil ecoantes Cavernas escuras.
Ali Thingol sentou-se e não ouviu nenhum som
salvo muito longe passos no chão;
nem flauta, nem voz, nem canções de pássaros,
nem coros de ventosas folhas ali agitadas;
e Daeron chegando nenhuma palavra falou,
silencioso por entre o povo da floresta.
Então Thingol disse: "Ó sábio Daeron,
que com ouvidos incansáveis o olhos atentos,
tudo o que se passa nesta terra
ouves e compreendes,
que presságio pode este silêncio carregar?
Que trompa muito longe sobre o ar,
que chamamento os escuros bosques aguardam?
Poderá ser que o Senhor Tauros da sua porta
e salões sustentados por árvores, o deus da floresta,
cavalgue o seu grande garanhão ferrado a ouro
por entre as sonoras tempestades de trompas,
por entre os seus orgulhosos caçadores de verdes trajes,
deixando as suas amadas e divinas planícies
e florestas de esmeraldas? Algum fraco sinal
da sua grande investida pode ter chegado
sobre os ventos Ocidentais, e mudos
os bosques agora esperam por uma caçada
que aqui uma vez mais a grandiosa raça fará
debaixo das árvores de Ennorath.
Assim fosse! Uma era já
passou desde que Nahar cavalgou nesta terra
nos dias da nossa paz e antiga alegria,
antes dos rebeldes senhores de Eldamar
perseguindo Morgoth de longe
trazerem guerra e ruína ao Norte.
Virá Tauros em sua ajuda?
Mas se não ele, quem vêm ou o quê?"
E Daeron disse: "Ele não vêm!
Nenhuns pés divinos deixarão aquela costa
onde as últimas ondas dos Mares Sombrios rugem,
até que muitas coisas se passem,
e muitos males sejam feitos. Aí de mim!
o convidado está aqui. Os bosques estão quietos,
mas não esperam; pois uma arrepiante maravilha
eles possuem e estranhas acções eles vêem,
apesar do rei não - no entanto a rainha, talvez,
possa adivinhar, e a donzela sem duvida saber
quem anda agora ao seu lado."

"Talvez as tuas adivinhas sejam claras"
o rei irado disse, "mas digna-te
a faze-las mais claras! Quem é aquele
que merece a minha ira? Como anda ele livre
dentro dos meus bosques por entre o meu povo,
um estranho à faia e ao carvalho?"
Mas Daeron olhou para Lúthien
e vacilou, vendo a sua desgraça
nesses olhos claros. Ele não mais falou,
e silenciosamente a ira de Thingol suportou.
Então Lúthien avançou ligeiramente em frente:
"Longe nas cercadas montanhas do Norte,
meu pai," disse ela, "fica a terra
que geme debaixo da mão do Rei Morgoth.
Daí veio um para cá, dobrado e cansado
de guerras e trabalhos, que tinha jurado
ódio imortal a esse rei;
o ultimo dos filhos de Bëor, eles cantam,
e mesmo para cá longe e fundo
dentro dos teus bosques os ecos rastejam
através das selvagens e frias passagens das montanhas,
o último da casa de Bëor a possuir
uma espada inconquistada, pescoço não curvado,
um coração pelo poder maléfico não tomado.
Nenhum mal precisas tu de pensar ou temer
de Beren filho de Barahir!
Se tendes algo a dizer a ele,
então jura não magoar carne ou membro,
e eu guiá-lo-ei aos teus salões,
um filho de reis, não um escravo mortal."
Então longamente o Rei Thingol olhou-a
enquanto nem mão nem pé nem língua se mexiam,
e Melian, silenciosa, e sem mostrar surpresa,
Lúthien e Thingol olhava.
"Nem lâmina nem corrente os seus membros sentirão"
o rei então jurou. "Ele vagueou por longe,
e notícias, pode ser, que ele tenha para mim,
e palavras eu tenho para ele, talvez!"
Agora Thingol mandou-os a todos partir
excepto Daeron, a quem ele chamou: "Que arte,
que feitiçaria das névoas do Norte
pode este indesejado ter trazido até nós? Ouve!
Esta noite vai por caminhos secretos,
pois conheces toda a grande Doriath,
e vigia aquela Lúthien - filha minha,
que loucura o teu coração entrançou,
que teia dos terríveis salões de Morgoth
apanhou os teus pés e te enfeitiçou! -
que ela não ajude este Beren a fugir
para onde ele veio. Eu quero vê-lo!
Leva contigo sábios archeiros da floresta.
Não deixem ninguém iludir os vossos corações ou olhos!"

Isto Daeron de coração pesado fez,
e os bosques foram cheios com vigias escondidos;
no entanto sem necessidade, pois Lúthien nessa noite
conduziu Beren pela luz dourada
da alta Lua até à margem
e ponte diante das portas do seu pai;
e branca luz silenciosa olhava de dentro
dos quietos portais em abismos indistintos.

Para baixo com mão gentil ela o levou
através de corredores de temor escavados
cujas curvas estavam iluminadas por lanternas penduradas
ou por chamas de tochas que ardiam
em dragões talhados na fria pedra
com jóias nos olhos e dentes de osso.
Então de súbito, fundo debaixo da terra
os silêncios com risos de prata
foram agitados e as rochas ecoavam,
os pássaros de Melian estavam cantando;
e imensamente os caminhos de sombra aumentaram
assim que em salões de colunas ela levou
Beren maravilhado. Ali uma luz
como o dia imortal e como a noite
de estrelas sem nuvens, brilhava e cintilava.
Uma abóbada de altíssimas árvores parecia,
cujos troncos de pedra esculpida ali estavam
como torres de uma encantada madeira
numa magia rápida para sempre presas,
suportando um tecto cujos ramos se entrançavam
em infindáveis traços de verde
acessos por alguma folha que aprisionava o brilho
da Lua e do Sol, e forjadas com gemas,
e cada folha pendurava-se em ramos dourados.

Olhai! ali entre as flores imortais
os rouxinóis em brilhantes ninhos
cantavam sobre a cabeça de Melian,
enquanto a água eternamente pingava e corria
de fontes no chão rochoso.
Ali Thingol sentava-se. A sua coroa usava
de verde e prata, e à volta do seu trono
uma hoste com belas armaduras brilhava.
Então Beren olhou para o rei
e ficou maravilhado; e rapidamente um anel
de armas élficas o rodeou.
Então Beren olhou para o chão,
pois o olhar de Melian tinha procurado a sua face,
e atordoado ali o deixou naquele lugar,
e quando o rei falou profundamente e devagar:
"Quem és tu viajante cansado? Que saibas
que ninguém sem ser convidado procura este trono
e jamais deixa estes salões de pedra!"
nenhuma palavra ele respondeu, cheio de temor.
Mas Lúthien respondeu no seu lugar:
"Veja, meu pai, aquele que chegou
perseguido pelo ódio como uma chama!
Olhai! Beren filho de Barahir!
Que necessidade têm ele da tua ira temer,
inimigo dos nossos inimigos, sem um amigo,
cujos joelhos a Morgoth não se dobram?"

"Deixa Beren responder!" disse Thingol.
"Que pretendes daqui? Que caminhos seguiram
os teus pés vagabundos, ó selvagem mortal?
Como é que enganastes Lúthien
ou te atreveste a caminhar nesta floresta
sem permissão, em segredo? Uma boa razão
deves declarar agora se puderes,
ou nunca mais verás a luz do dia!"
Então Beren olhou nos olhos de Lúthien
e viu a luz de céus estrelados,
e assim foi lentamente atraído o seu olhar
para o rosto de Melian. Como de um labirinto
de encantamento mudo ele acordou; o seu coração
as correntes do espanto ali rebentou em pedaços
e encheu-se com o destemido orgulho de antigamente;
"O meu destino, ó rei," ele disse,
"aqui para além das montanhas feridas me trouxe,
e o que eu procurava não encontrei,
e o amor é aquilo que aqui me prende.
O vosso tesouro mais querido eu desejo;
nem rochas nem aço nem o fogo de Morgoth
nem todo o poder da Elficidade
poderão guardar essa gema que eu quero.
Pois mais bela do que as nascidas dos Homens
uma filha tens tu, Lúthien."

O silêncio então caiu sobre o salão;
como pedras esculpidas ali se imobilizaram todos,
excepto uma que deitava olhares em volta,
e um que ria com amargo som.
Daeron o flautista encostava-se ali pálido
contra um pilar. Os seus dedos fracos
ali tocavam uma flauta que não murmurava;
os seus olhos estavam escuros; o seu coração queimando.
"Morte é a recompensa que merecias,
Ó vil mortal, que aprendestes
no reino de Morgoth a espiar e a rastejar
como os Orcs que cumprem os seus desígnios malvados!"
"Morte!" ecoou Daeron feroz e baixo,
mas Lúthien tremendo arquejou em desgosto.
"E morte," disse Thingol, "tu terias,
não tivesse eu feito um juramento com pressa
que nem lâmina nem corrente na tua carne tocariam.
Ainda assim cativo, preso não por barras,
desacorrentado, livre, tu ficarás
em infindáveis labirintos escuros
que se estendem profundamente sob os meus salões
por magia confusos e entrançados;
ai vagueando sem esperança
tu aprenderás o poder da Elficidade!"
"Isso não pode ser!" Olhai! Beren falou,
e as palavras do rei friamente parou.
"O que são os teus labirintos senão uma corrente
onde os cativos cegos são mortos?
Não deturpes os teus juramentos, ó rei élfico,
como o desleal Morgoth! Por este anel -
o sinal de um eterno laço
que Felagund de Nargothrond
uma vez jurou amizade a Barahir,
que o protegeu com escudo e lança
e o salvou do inimigo perseguidor
nos campos de batalha do Norte à muito tempo -
morte imerecida tu podes dar-me,
mas os nomes eu não aceito de ti
de vil, espião, ou escravo de Morgoth!
São estes os modos dos salões de Thingol?"
Orgulhosas foram as palavras, e todos se voltaram
para ver as jóias verdes que brilhavam
no anel de Beren. Que os Elfos tinham posto
como olhos de serpentes entrelaçadas que se encontram
debaixo de uma dourada coroa de flores.
que uma sustenta e uma devora:
o símbolo que Finarfin fez outrora
e Felagund seu filho agora usava.
A sua raiva arrefeceu, mas pouco mais,
e negros pensamentos possuíram Thingol,
apesar de Melian a pálida se encostar ao seu lado
e sussurrar: "Ó rei, esquece o teu orgulho!
Tal é o meu conselho. Não por ti
será Beren morto, pois longe e livre
destes fundos salões o seu destino o guiará,
ainda que ligado ao teu. Ó rei, toma cautela!"
Mas Thingol olhou para Lúthien.
"Mais bela dos Elfos! Infelizes Homens,
filhos de pequenos senhores e reis
mortais e frágeis, estas coisas passageiras,
poderão eles olhar-te com amor?
No seu coração pensou. "Eu vejo
o teu anel," ele disse, "Ó poderoso homem!
Mas para ganhar a filha de Melian
não bastam os feitos de um pai,
nem as tuas orgulhosas palavras às quais eu me curvo.
Um tesouro precioso eu também desejo,
mas rochas e aço e o fogo de Morgoth
de todos os poderes da Elficidade
guardam a jóia que eu quero.
Ainda assim obstáculos como estes eu ouvi-te dizer
que não temes. Agora segue o teu caminho!
Traz-me um brilhante Silmaril
da coroa de Morgoth, então se ela quiser,
poderá Lúthien por a sua mão na tua;
então terás tu esta jóia minha."

Então os guerreiros de Thingol alto e profundamente
riram; pois longamente famosas em canção
tinham sido as gemas de Fëanor sobre a Terra e Mar,
os incomparáveis Silmarils; e três
só ele fez e acendeu lentamente
na terra dos Valar à muito tempo,
e ali em Túna com a sua própria luz
eles brilharam como maravilhosas estrelas à noite,
nos grandes tesouros Élficos de Tirion,
enquanto Laurelin florescia e Telperion desabrochava
ainda iluminando a terra para lá da costa
onde rugem as ultimas ondas do Mar Sombrio,
antes de Morgoth as roubar e os Elfos
buscando a sua glória deixaram as suas casas,
antes da desgraça cair sobre Elfos e Homens,
antes de Beren nascer ou Lúthien,
antes dos filhos de Fëanor na sua loucura terem feito
o seu horrível juramento. Mas agora não mais
a sua beleza era vista, excepto brilhando claras
nas masmorras de Morgoth vastas e sombrias.
A sua coroa de ferro eles devem adornar,
e brilhar acima de Orcs e escravos esquecidos,
guardados no Inferno acima de todas as riquezas,
só para os seus olhos; e nem poderes nem espiões
lhes podiam tocar, ou mesmo olhar muito tempo
sobre a sua magia. Exércitos e exércitos
de Orcs com vermelhas cimitarras
rodeavam-no, e poderosas barras
e eternas portas e muralhas,
aquele que os usava agora entre os seus escravos.
Então Beren riu mais alto que eles
em amargura, e isto disse:
"Por pouco preço os reis élficos
as suas filhas vendem - por gemas e anéis
e coisas de ouro! Se tal é a vossa vontade,
o vosso pedido eu vou agora cumprir.
Em Beren filho de Barahir
vós não olhastes a ultima vez, eu temo.
Adeus, Tinúviel, dama das estrelas!
Antes do pálido Inverno passar carregado de neve,
eu vou regressar, não para te comprar
com qualquer jóia da Elficidade,
mas para encontrar a meu amor encantador,
uma flor que cresce debaixo do céu."
Curvando-se perante Melian e o rei
ele voltou-se, e empurrou para o lado o anel
de guardas sobre ele, e foi-se,
e as suas pegadas desapareceram uma por uma
nos escuros corredores. "Uma traiçoeira promessa
tu juraste, pai! Tu conseguiste
à lâmina e corrente a sua carne condenar
nas masmorras de Morgoth profundamente enterradas."
disse Lúthien, e as lágrimas
brotaram nos seus olhos, e horrendos medos
fecharam-se no seu coração. Todos viraram o olhar,
e mais tarde relembraram esse triste dia
desde o qual Lúthien nunca mais cantou.
Então claro no silêncio as frias palavras ressoaram
de Melian: "Um estratagema astucioso,
ó rei!" ela disse. "No entanto se os meus olhos
não perderam o seu poder, era bom para ti
que Beren falhasse a sua missão.
Bom para ti, mas para a tua filha
um destino negro e viagens selvagens."

"Eu não vendo a Homens aqueles que amo"
disse Thingol, "os quais acima de tudo
eu estimo; e se esperança houvesse
que Beren pudesse vivo voltar
para as Mil Cavernas uma vez mais, eu juro
que ele nunca mais veria o ar
ou a luz dos céus estrelados outra vez."
Mas Melian sorriu, e ali havia dor
assim como conhecimento longínquo nos seus olhos;
pois tal é a mágoa dos sábios.

 


V

Então os dias passaram desde o dia pesaroso;
a maldição de silêncio não mais estava
em Doriath, apesar da flauta de Daeron
e das canções de Lúthien estarem ambas mudas.
Os suaves murmúrios acordaram uma vez mais
nos bosques, as águas rugiam
diante das grandes portas dos salões de Thingol;
mas nenhum passo dançante de Lúthien caia
em erva ou folha. Pois ela desesperava,
onde tropeçando outrora, onde ferido e rasgado,
desejando-o como um sonho,
tinha Beren sentado-se junto do amortalhado leito
do Esgalduin o escuro e forte,
ela sentava-se agora e chorava numa baixa canção:
"Eternas passam as águas rolantes!
A estas o meu amor deve chegar por fim,
encantadas águas impiedosas,
uma mágoa e solidão."

O Verão passou. Nos altos ramos
ela ouve o barulho das gotas a cair,
a maré ventosa em mares de folhas,
o ranger de incontáveis árvores;
e espera sem cessar e em vão
ouvir alguém chamando uma vez mais
o querido nome pelo qual os rouxinóis
eram chamados outrora. O eco falha.
"Tinúviel! Tinúviel!"
a memória é como um dobrar de sinos,
um fraco e distante sino cantante:
"Tinúviel! Tinúviel!"

"Ó mãe Melian, diz-me
alguma parte daquilo que os teus escuros olhos vêem!
Diz com a tua magia onde os seus pés
vagueiam! Que inimigos ele encontra?
Ó mãe, diz-me, vive ele ainda
caminhando o deserto e a colina?
Ainda o Sol e a Lua sobre ele brilham,
ainda a chuva cai sobre ele, mãe minha?"

"Não, Lúthien minha filha, eu temo
que ele viva de facto em horríveis prisões.
O Senhor dos Lobos tem prisões escuras,
correntes e encantamentos cruéis e violentos,
onde preso e atado e debilitado
agora Beren sonha que tu cantas."

"Então eu sozinha devo ir ter com ele
e desafiar o horror em obscuras masmorras;
pois não há ninguém que o vá ajudar
em todo este mundo, excepto uma donzela élfica
cuja a única habilidade era a alegria e a canção,
e ambas acabaram e há muito a deixaram."

E nada disse Melian a ela,
apesar de rebeldes as palavras. Ela chorou de novo,
e correu pelos bosques como um veado caçado
com o seu cabelo flutuando e olhos de medo.
Daeron ela encontrou com coroa de fetos
silenciosamente sentado nas castanhas folhas das faias.
Na terra ela se sentou ao seu lado.
"Ó Daeron, Daeron, as minhas lágrimas," ela disse,
"agora choram pelos nossos velhos dias!
Faz-me uma música para a mágoa,
para o desespero e para o temor,
para a luz tornada escura e para o riso morto!"

"Mas para a música morta não há nota."
Daeron respondeu, e na sua garganta
os seus dedos se apertaram. No entanto a sua flauta ele tomou,
e tristemente tremendo a música surgiu;
e todas as coisas pararam enquanto aquela flauta tocava
com dedos nos buracos, e ali atentos
eles ouviam, os seus trabalhos e alegria,
a sua felicidade e a luz da terra
esqueciam; e as vozes dos pássaros falharam
enquanto a flauta de Daeron em Doriath tocava.
Lúthien não chorou por muita dor,
e quando acabou ela falou novamente:
"Meu amigo, eu tenho uma falta de amigos,
como aquele que uma longa e escura viagem prepara,
e teme a estrada, no entanto não se atreve a virar
e a olhar para trás onde as velas ardem
em janelas que ele deixou. Na noite
em frente, ele dúvida que encontrará a luz
que longe nas colinas ele procura."
E assim das palavras de Melian ela falou,
e do seu destino e desejo
de subir montanhas, e o fogo
e a ruína do reino do Norte
enfrentar, uma donzela sem elmo
ou espada, ou força de forte membro,
onde a magia se afunda e cresce fraca.
A sua ajuda ela procurava para a guiar em frente
e encontrar os caminhos para o Norte,
se ele pelo seu amor não
iria ao seu lado viajar.
"Porque razão," disse ele, "deveria Daeron ir
para o maior perigo que a terra conhece
pela saúde do mortal que roubou
o seu riso e alegria? Nenhum amor eu sinto
por Beren filho de Barahir,
nem choro por ele em horríveis masmorras,
aquele que neste bosque tem correntes que cheguem,
pesadas e escuras. Mas vós, eu juro,
eu vou defender de perigos ferozes
e mortais viagens ao Inferno."

Não mais eles falaram nesse dia, e ela
não percebeu a sua intenção. Tristemente
lhe agradeceu, e o deixou ali.
Uma árvore ela subiu, até que o límpido ar
sobre os bosques o seu escuro cabelo soprou,
e forçando longe os seus olhos pôde ver
os contornos cinzentos, fracos e baixos
de vertiginosas torres onde as nuvens passam,
as faces sul de elevações a pique
em pináculos rochosos e degraus
das Montanhas Sombrias pálidas e frias;
e vastamente as terras à sua frente rolavam.
Mas logo Daeron procurou o rei
e contou-lhe da decisão da filha,
e como a loucura a podia conduzir
à ruína, a não ser que o rei se acautelasse.
Thingol estava enfurecido, e no entanto espantado;
com admiração e um pouco de medo ele olhou
para Daeron e disse: "Verdadeiro fostes tu.
Agora para sempre haverá amizade entre nós,
enquanto Doriath durar; dentro deste reino
tu serás um príncipe da faia e olmo!"
Ele mandou chamar Lúthien, e disse:
"Ó bela donzela, o que é que te levou
a pensar na loucura e desespero
de vaguear na ruína, e viajar
de Doriath contra a minha vontade,
roubando como uma coisa selvagem que os homens matariam
nos desertos exteriores?"
"A sabedoria, pai." ela respondeu;
nem ela prometeu esquecer,
nem jurou por amor ou ameaça
a sua loucura deixar e submissamente
em Doriath a vontade do seu pai cumprir.
Só isto ela jurou, se ela tinha que ir,
então em ninguém senão nela iria agora confiar,
nenhum povo do seu pai iria persuadir
a quebrar a sua vontade ou a ajuda-la;
se ela tinha que ir, ela iria sozinha
e sem amigos enfrentar as muralhas de pedra.

Com amor irado e um pouco de temor
Thingol pediu conselhos em como a sua mais querida
guardar e proteger. Ele não prenderia
em cavernas profundas e entrelaçadas
a doce Lúthien, a sua amada donzela,
que roubada do ar empalideceria e morreria,
aquela que sempre deverá olhar para o céu
e ver o Sol e a Lua passar.
Mas perto do seu grande assento
e verde trono ali corriam os pés
de Hirilorn, a rainha das faias.
Sobre o seu triplo tronco não eram vistas
nenhuma falha ou ramo até muito alto
num brilhante verde, distante, suave,
a maior abóbada de folhas e ramos
do princípio do mundo até agora
flutuava sobre as margens do Esgalduin
e nas longas encostas das portas de Thingol.
Cinzenta era a casca dos altos pilares
e suave como seda, e longínquos e pequenos
para os olhos dos esquilos eram aqueles que andavam
aos seus pés cinzentos sobre a erva.
Agora Thingol mandou na faia,
nessa grande árvore, tão alto quanto chegassem
as suas mais altas escadas, ai construir
uma casa suspensa; e quando ele quis
uma pequena habitação de bela madeira
estava feita, e escondida nas folhas ficava
acima dos primeiros ramos. Três cantos
tinha e janelas difíceis de ver,
e pelos três troncos da Hirilorn
nos cantos estava sustida.
Ali Lúthien foi forçada a viver,
até que ficasse mais sábia e o feitiço
de loucura a deixasse. Para cima trepou
as longas escadas para a sua nova casa
entre as folhas, entre os pássaros;
não cantou nenhuma canção, não falou nenhuma palavra.
Branca cintilante na árvore subiu,
e a sua pequena porta eles a ouviram fechar.
As escadas foram tiradas e não mais
os seus pés puderam caminhar na margem do Esgalduin.

Para lá às vezes eles subiam e levavam
todas as coisas que ela necessitava ou pedia;
mas a morte era daquele, daquele que só se atrevesse
a deixar uma escada, ou rastejando ali
pusesse uma na árvore à noite;
uma guarda foi posta do entardecer à aurora
à volta dos cinzentos pés de Hirilorn
e Lúthien na prisão e abandonada.
Ali Daeron lamentando-se muitas vezes estava
com pesar pela cativa no bosque,
e melodias fazia na sua flauta
encostado contra uma cinzenta raiz.
Lúthien das suas janelas olhava
e via-o muito lá em baixo tocando,
e ela perdoava-lhe a sua palavra traidora
pois a música e o desgosto ela ouvia,
e só Daeron ela deixava
para lá da sua entrada por o pé.
No entanto longas eram as horas quando ela se sentava
e via os raios de sol a dançar e a correr
nas folhas da faia, ou observava as estrelas
espreitando em claras noites entre as barras
dos ramos da faia. E uma noite
mesmo antes da mudança da luz
um sonho ali chegou, dos Deuses, talvez,
ou da magia de Melian. Ela sonhou que
ouvia a voz de Beren sobre as colinas e charnecas
"Tinúviel" chamou, "Tinúviel".
E o seu coração respondeu: "Deixa me partir
para procurar aquele em que mais ninguém pensa!"
Ela acordou e viu o pálido luar
através das finas folhas. Tremia fragilmente
sobre os seus braços, enquanto estes ela estendia
e ali ansiosamente curvou a cabeça,
e desejou liberdade e fuga.

Agora Lúthien fez da sua ideia realidade;
e a filha de Melian de profundo conhecimento
sabia muitas coisas, sim, mais magia
que então ou agora sabem as donzelas élficas
que brilham e cintilam nas clareiras.
Ela pensou longamente, enquanto a Lua se afundava
e desaparecia, e as estrelas encolhiam,
e a aurora despertava. Por fim um sorriso
na sua cara apareceu. Ela reflectiu um pouco,
e observou o Sol da manhã a crescer,
então chamou aqueles que andavam lá em baixo.
E quando um subiu ela rogou
que ele fosse aos escuros charcos dos vaus
do frio Esgalduin, água clara,
a mais clara água fria e pura
buscar para ela. "À meia-noite,"
ela disse, "numa taça de prata branca
deve ser retirada e trazida a mim
sem palavra falada, silenciosamente."
A outro ela pediu para lhe trazer vinho
num jarro de ouro onde flores se entrançam -
"e cantando deixa-o vir até mim
ao meio-dia, cantando alegremente."
Outra vez ela falou: "Ide agora, eu rogo,
a Melian a rainha, e digam:
"a tua filha muito cansada as horas
lentamente passando vê no seu quarto;
uma roda de fiar ela pede que tu lhe mandes."
Então Daeron chamou: "Eu peço-te, amigo,
sobe e fala com Lúthien!"
E sentada na sua janela então,
ela disse: "Meu Daeron, tu tens habilidades,
para além da tua música, muitas colunas
e muitas ferramentas de madeira esculpida
eu te vi fazer com sabedoria. Era bom,
se tu me fizesses um pequeno tear
para ficar no canto do meu quarto.
Os meus dedos ociosos iriam fiar e tecer
um padrão de cores, da manhã e da tarde,
do Sol e da Lua e da luz inconstante
entre as folhas de faia agitando-se levemente."
Isto Daeron fez e então perguntou-lhe:
"Ó Lúthien, Ó Lúthien,
o que é que tu vais tecer? O que é que vais fiar?"
"Um maravilhoso fio, e enrolar ai
uma potente magia, e um feitiço
eu vou tecer dentro da minha teia que o Inferno
nem todos os poderes das Trevas poderão quebrar."
Então Daeron espantou-se, mas não falou
nenhuma palavra a Thingol, apesar do seu coração
temer o escuro propósito da arte dela.

E Lúthien agora foi deixada sozinha.
Uma magica canção aos Homens desconhecida
ela cantou, e cantando então o vinho
com água misturou três vezes nove;
e enquanto no dourado jarro estavam
ela cantou uma canção de crescimento e do dia;
e enquanto estavam na prata branca
outra canção cantou, de noite
e trevas sem fim, de alturas
elevadas às estrelas, e voo
e liberdade. E todos os nomes das coisas
mais altas e longas que há na Terra ela canta:
as madeixas dos anões Barbas Longas; a cauda
de Draugluin o pálido lobisomem;
o corpo de Glaurung a grande serpente;
os vastos picos que se elevam
acima dos fogos na sombra de Angband;
a corrente Angainor que antes do Fim
para Morgoth será pelos Deuses forjada
de aço e tormento. Nomes ela procurou,
e cantou de Glend a espada de Nan;
de Gilim o gigante de Eruman;
e por último e mais longo nomeou então
o infindável cabelo de Uinen,
a Senhora do Mar, que corre
por todas as águas abaixo do céu.

Então ela lavou a sua cabeça e cantou
um tema de sono e de repouso,
profundo, insondável e escuro
tão escuro como o sombrio cabelo de Lúthien -
cada fio era mais esbelto e mais fino
que os fios do entardecer que se entrançam
em delgadas teias na erva passageira
e em flores fechadas assim que o dia passa.
Agora longe e longo crescia o seu cabelo,
e caia aos seus pés, e vagueava ali
como charcos de sombra no chão.
Então de Lúthien um sono se apoderou
deitou-se na cama e dormiu,
até que a manhã através das janelas apareceu
escassa e fraca. E então ela acordou,
e o quarto estava cheio com um fumo
e com as névoas matinais, e profundamente
ela ali ficou deitada afogada em sono.
Olhai! o seu cabelo pelas janelas saia
nos ares da manhã, e escuro crescia
flutuando acima dos cinzentos pilares
de Hirilorn ao raiar do dia.

Então às apalpadelas ela encontrou a sua pequena tesoura,
e cortou o cabelo em redor das orelhas,
e perto o cortou da cabeça,
encantadas madeixas, fio por fio.
Depois disso cresceram lentamente uma vez mais,
ainda mais escuros que antes.
E só agora estava o seu trabalho começando:
longamente esteve a fiar, longamente fiou;
e apesar de com arte élfica tecer,
longo foi o seu trabalho. Se os homens procurassem
chama-la, gritando lá debaixo,
"Não preciso de nada," ela respondia, "vão!
Quero ficar na cama, e só dormir
eu agora desejo, pois acordada choro."

Então Daeron temeu, e com espanto
chamou-a lá debaixo; mas durante três dias
ela não respondeu. Do escuro cabelo
ela teceu uma teia como uma névoa
numa noite sem lua, e dai fez
uma capa de negro esvoaçante como a sombra
debaixo das grandes árvores, um vestido mágico
que estava encharcado com sonolência,
encantado com um feitiço mais poderoso
que o vestido de Melian naquele vale
onde antigamente Thingol vagueou
debaixo da escura e estrelada cúpula
que paira acima do mundo.
E agora esta capa à sua volta dobrou,
e escondeu as vestimentas de branco cintilante;
o seu manto azul com brilhantes jóias
como estrelas de cristal, os lilios de ouro,
foram tapados e escondidos; e de lá rolavam
vagos sonhos e um leve sono
caindo sobre ela, que suavemente se espalhava
por todo o ar. Então rapidamente ela pega
nos fios não usados; destes ela faz
uma esbelta corda de fios entrançados
ainda longa e forte, com as suas mãos
ela lança-a através da abertura
da Hirilorn. Agora, que toda a sua arte
e trabalho acabou, ela olha através
da sua pequena janela virada para Norte.

Já a luz nas árvores
desce vermelha, e o entardecer ela vê
chegar suavemente pelo chão lá em baixo,
e agora ela murmura suave e lentamente.
Cantando claramente para baixo ela deita
o seu longo cabelo, até que chega por fim
da sua janela ao escuro chão.
Os homens lá muito em baixo ouvem o som;
mas o sonolento fio flutuava e balançava agora
acima dos seus guardas. A sua conversa parou,
eles ouviram a sua voz e caíram
subitamente com um cativante feitiço.

Agora vestida como uma nuvem ela pende;
para baixo pela corda de cabelo ela balança
tão leve como um esquilo, e andando,
andando, ela dança, e quem pode dizer
que caminhos ela tomou, que pés élficos
deixam pegadas dançando rapidamente?

 


VI

Quando Morgoth naquele dia de perdição
matou as Árvores e encheu com escuridão
a cintilante terra de Valinor,
aí Fëanor e os seus filhos então fizeram
o poderoso juramento sobre a colina
de Tuna coroada de torres, que ainda
tece guerras e tristeza no mundo.
Dos escuros mares os nevoeiros estendem
as suas cegas sombras cinzentas e frias
onde Laurelin outrora floresceu com ouro
e Telperion teve flores de prata.
As névoas envolvem as torres
da branca cidade dos Elfos à beira-mar.
Aí inúmeras tochas agitadas
acenderam e cintilaram, enquanto os Noldor
eram chamados das suas casas,
e caminhavam a longa e enrolada escada
que levava à grande praça ecoante.

Aí Fëanor lamentou as suas jóias divinas,
os Silmarils que ele fez. Como vinho
as suas selvagens e potentes palavras os encheram;
uma grande hoste escuta com quietude mortal.
Mas tudo o que ele disse fosse selvagem e sensato,
metade verdade e metade o fruto de mentiras
que Morgoth semeou em Valinor,
em outras canções e tradições
é recordado. Ele fê-los fugir
das terras divinas, para atravessar o mar,
as planícies não caminhadas, as perigosas costas
onde as águas infestadas de gelo rugem;
para seguir Morgoth para terra sem luz
deixando as suas moradas e velha alegria;
para voltar para as Terras Exteriores
para guerras e sofrimentos. Ali as suas mãos
eles juntaram em juramento, esses sete familiares,
jurando debaixo das estrelas do Céu,
por Varda a Abençoada que as teceu
e as encheu com radiância total
e as pôs nas alturas para cintilar.
Taniquetil a sagrada eles nomeiam,
onde estão construídos os eternos salões
de Manwë Senhor dos Deuses. Quem nomeia
estes nomes como testemunhas não poderá quebrar
este juramento, ainda que terra e céu tremam.

Curufin, Celegorm o belo,
Amrod e Amras estavam lá,
e Caranthir o escuro, e Maedhros o alto
(que após grande tormento cairia),
e Maglor o poderoso que como o mar
com voz profunda canta ainda lamentoso.
"Seja ele amigo ou inimigo, ou semente corrupta
de Morgoth Bauglir, ou criança mortal
que nos dias vindouros na terra viverá,
nem lei, nem amor, nem liga do Inferno,
nem o poder dos Deuses, nem o imutável destino
defenderá da ira e ódio
dos filhos de Fëanor, quem tirar, roubar
ou guardar os Silmarils,
os três encantados globos de luz
que brilharão até à última noite."

Das guerras e vagueações dos Noldor
esta história não conta. Longe das suas casas
eles lutaram e trabalharam no Norte.
Fingon arriscando-se sozinho avançou
e procurou por Maedhros onde ele estava pendurado;
num terrível tormento ele balançava,
o seu pulso numa corrente de aço forjado,
de um grande precipício onde vacilam
os sentidos olhando para baixo
da coroa de pedra da Thangorodrim.
A canção de Fingon os Elfos ainda cantam,
capitão de exércitos, Rei dos Noldor,
que caiu por fim na chama de espadas
com as suas brancas bandeiras e os seus senhores.
Eles cantam como Maedhros ele libertou,
e acalmou a contenda que ainda ensombrava
os filhos do orgulhoso Finwë.
Agora juntos uma vez mais eles cercaram-no,
até o grande Morgoth, e a sua hoste
cercou Angband, até
nenhum Orc nem demónio se atrever
a quebrar o cerco ou a passar por eles.
Então os dias da luz acordaram a terra
debaixo do novo Sol, e a alegria
foi ouvida nas Grandes Terras onde os Homens,
uma raça nova, se espalhavam e vagueavam então.
Esse foi o tempo que as canções chamam
o Cerco de Angband, quando como uma parede
as espadas Élficas fecharam a terra
da ruína de Morgoth, um tempo de nascimento,
de florescimento, de flores, de crescimento;
mas ainda ali estava o imortal juramento,
e ainda eram os Silmarils
guardados nos escuros túneis de Angband.

O fim ali chegou, quando a sorte mudou,
e as chamas da vingança de Morgoth arderam,
e todo o poder que ele preparou
em segredo na sua fortaleza explodiu
e espalhou-se através da Planície Seca;
e escuros exércitos estavam no seu encalço.
O cerco de Angband Morgoth quebrou;
os seus inimigos com fogo e fumo
foram dispersados, e os Orcs ali mataram
e mataram, até o sangue como orvalho
pingar de cada cruel e maldita lamina.
Então Barahir o ousado ajudou
com poderosa lança, com escudo e homens,
o ferido Felagund. Para o pantâno
escapando, ali eles juntam as mãos,
e Felagund faz um juramento
de amizade à sua família e semente,
de amor e socorro em tempos de necessidade.
Mas ali dos quatro filhos de Finarfin
foi Angrod morto e o orgulhoso Aegnor.
Felagund e Orodreth então
reuniram o resto dos seus homens,
as suas donzelas e as suas belas crianças;
esquecendo a guerra eles fizeram o seu lar
e domínio cavernoso longe no sul.
Nas altas margens do Narog a sua boca
estava aberta; a qual eles esconderam e taparam,
e poderosas portas, que inexpugnáveis
até aos dias de Túrin ficaram grandes e cinzentas,
na sombra de árvores eles construíram.
E com eles viveram muito tempo ali
Curufin, e Celegorm o belo;
e um poderoso povo cresceu debaixo das suas mãos
nos secretos salões e terras do Narog.

Assim Felagund em Nargothrond
ainda reinava, um rei escondido com uma promessa
jurada a Barahir o ousado.
E agora o seu filho através de frias florestas
vagueava sozinho como num sonho.
O escuro e sombrio leito do Esgalduin
ele seguiu, até as suas águas
se juntarem ao Sirion, cinzento Sirion,
pálida agua prateada larga e livre
rolando com esplendor até ao mar.
Agora Beren chegou perto dos charcos,
grandes lagos baixos onde o Sirion arrefecia
as suas águas debaixo das estrelas,
cheio de palha e cercado pelas barras
de bancos de juncos um grande pantâno
ele alimenta e encharca, caindo então
por grandes buracos no subsolo,
onde durante muitas milhas o seu caminho é ferido.
Aelin-uial, Lagos do Crepúsculo,
essas grandes largas águas cinzentas como lágrimas
os Elfos as chamaram. Através de forte chuva
dai através da Planície Guardada
as Colinas dos Caçadores Beren viu
com topos nus áridos e fustigados
pelos ventos ocidentais; mas na névoa
da forte chuva que fustigava e assobiava
nos lagos ele sabia que estava ali
debaixo daquelas colinas o caminho talhado
do Narog, e os atentos salões
de Felagund ao lado das quedas
do Ringwil caindo do alto.
Uma guarda eterna eles mantêm,
os famosos Elfos de Nargothrond,
e cada colina está coroada com uma torre,
onde guardas atentos espreitam e olham
guardando a planície e todos os seus caminhos
entre o rápido Narog e o pálido Sirion;
e archeiros cujas setas nunca falham
ali patrulham os bosques, e secretamente matam
todos os que ali andam contra a sua vontade.
No entanto ele avança para aquela terra
com o brilhante anel de Felagund
na mão, e de vez em quando grita:
"Aqui vem nenhum Orc vagabundo ou espião,
mas Beren filho de Barahir
que outrora a Felagund foi querido."
Assim antes dele chegar à costa leste
do Narog, que espuma e ruge
sobre pedras negras, esses verdes archeiros
o rodearam. Quando o anel foi visto
eles curvaram-se à sua frente, apesar da sua roupa
ser pobre e suja. Então pela noite
eles conduziram-no para norte, pois nenhum vau
ou ponte tinha sido construído onde o Narog desaguava
diante das portas de Nargothrond,
e nem amigos ou inimigos poderiam passar em frente.
Para norte, onde esse rio ainda novo
mais fino corria, abaixo da língua
de terra cheia de espuma que o Ginglith divide
quando a sua curta torrente dourada acaba
e se junta ao Narog, ai eles passaram.
Agora uma rápida jornada eles fazem
para os inclinados terraços de Nargothrond
e gigantescos palácios.
Eles chegaram debaixo da foice da lua
a portas ali escuras suspensas e talhadas
com postes e vergas de poderosas pedras
e grandes troncos de madeira. Agora abrem-se
esses grandes portões, e caminhando eles entram
onde Felagund no seu trono vivia.

Belas foram as palavras do rei do Narog
a Beren, e as suas viagens
e todos os seus confrontos e amargas guerras
logo foram contados. Atrás de portas fechadas
eles sentaram-se, enquanto Beren contava a sua história
de Doriath; e as palavras falharam-lhe
ao recordar-se da bela dança de Lúthien
com brancas rosas selvagens no cabelo,
ao lembrar-se da voz élfica que cantava
enquanto as estrelas do crepúsculo à volta dela flutuavam.
Ele falou dos maravilhosos salões de Thingol
por encantamentos iluminados, onde fontes caem
e onde para sempre o rouxinol cantará
a Melian e ao seu rei.
Ele contou da busca que Thingol pôs
sobre ele por desprezo; como pelo amor de uma donzela
mais bela que do que as nascidas aos Homens,
por Tinúviel, por Lúthien,
ele devia provar a ardente devastação,
tormento e morte certa.

Isto Felagund com espanto ouviu,
e pesadamente por fim estas palavras falou:
"Parece que Thingol deseja
a tua morte. O eterno fogo
dessas jóias encantadas todos sabem
que está amaldiçoado com um juramento de eterno desgosto,
e só os filhos de Fëanor por direito
são os senhores e mestres da sua luz.
Ele não pode esperar dentro do seu tesouro
esta gema guardar, nem é ele senhor
de todo o povo da Elficidade.
E no entanto tu dizes que por nada menos
pode o teu regresso a Doriath
ser comprado? Muitos terríveis caminhos
em verdade estão diante dos teus pés -
depois de Morgoth, ainda um rápido
incansável ódio, como eu bem sei,
te caçaria do céu ao inferno.
Os filhos de Fëanor iriam, se pudessem,
matar-te antes que tu chegasses à floresta
ou pusesses no colo de Thingol esse fogo,
ou ganhasses por fim o teu doce desejo.
Olhai! Celegorm e Curufin
aqui vivem dentro deste mesmo reino,
e apesar de eu, filho de Finarfin,
ser rei, um grande poder eles ganharam
e muito do seu próprio povo governam.
Amizade a mim em todas as necessidades
eles tem mostrado, mas receio
que a Beren filho de Barahir
nem misericórdia ou amor eles mostrem
se a tua terrível busca souberem."

Verdadeiras palavras ele falou. Pois quando o rei
a todo o seu povo contou isto,
e falou do juramento a Barahir,
e como aquele escudo e lança mortal
os tinham salvo de Morgoth e do desgosto
nos campos de batalha do Norte à muito tempo,
então muitos corações acenderam-se
uma vez mais para a guerra. Mas dai salta
entre a multidão, e grita alto
para ser ouvido, um com olhar ardente,
o orgulhoso Celegorm com cintilante cabelo
e brilhante espada. Então todos os homens olham
para aquela face inflexível,
e um grande silêncio cai sobre aquele lugar.

"Seja ele amigo ou inimigo, ou demónio selvagem
de Morgoth, Elfo, ou criança mortal,
ou alguém que aqui na terra venha a viver,
nem lei, nem amor, nem liga do inferno,
nem o poder dos Deuses, nem feitiços,
defenderão do ódio terrível
dos filhos de Fëanor, quem só tiver ou roubar
ou guardar um Silmaril.
Só estas nós reclamamos por direito,
as nossas três brilhantes jóias encantadas."

Muitas selvagens e potentes palavras ele falou,
como antes em Tirion
a voz do seu pai acordara os seus corações para o fogo,
agora escuros medos e ira vingativa
ele lançou sobre eles, predizendo guerra
de amigos com amigos; e lagos de sangue
as suas mentes imaginaram no chão vermelho
em Nargothrond à volta dos mortos,
se a hoste do Narog com Beren fosse;
ou talvez batalha, ruína, e grande desgosto
em Doriath onde o grande Thingol reinava,
se a jóia fatal de Fëanor ele ganhasse.
E embora a tal tivesse que ser verdadeiro
Felagund do seu juramento devia arrepender-se,
e pensar com terror e desespero
nas consequências de procurar Morgoth no seu lar
com força ou astúcia. Isto Curufin
quando o seu irmão acabou então começou
para mais impressionar as suas mentes;
e tal feitiço neles tece
que nunca mais até aos dias de Túrin
iria Elfo do Narog envolver-se
em batalha aberta ou guerra.
Com segredo, emboscadas, espiões e artes
de feitiçaria, com silencioso cerco
de selvagens coisas cautelosas, atentas, ansiosas,
caçadores fantasmas, dardos venenosos,
e invisíveis artes de camuflagem,
perseguindo com ódio a sua presa
com pés de veludo todo o dia,
seguindo sem remorsos longe da vista
e matando-os sem aviso à noite -
assim eles defenderam Nargothrond,
e esqueceram a sua família e solene laço
pelo medo de Morgoth que a arte
de Curufin pôs dentro dos seus corações.

Então não iriam eles nesse dia conflituoso
ao rei Felagund seu senhor obedecer,
mas sombrios murmuravam que nem Finarfin
nem seu filho eram deuses.
Então Felagund tirou a sua coroa
e aos seus pés a deitou,
o elmo de prata de Nargothrond:
"Os vossos vocês podem quebrar, mas o meu juramento
eu devo manter, e o reino aqui esquecer.
Se corações aqui houver que não tremam,
ou que ao filho de Finarfin sejam verdadeiros,
então pelo menos eu devo encontrar uns poucos
para irem comigo, não como um pobre
e rejeitado pedinte desprezado,
afastado das minhas portas para deixar a minha cidade,
o meu povo, e o meu reino e coroa!"

Ouvindo estas palavras ali rapidamente se puseram
ao seu lado dez bons guerreiros experimentados,
homens da sua casa que sempre tinham lutado
onde quer que as suas bandeiras estivessem.
Um baixou-se e levantou a sua coroa,
e disse: "Ó rei, deixar esta cidade
é agora o nosso destino, mas não perder
a tua legitima realeza. Tu deves escolher
um para ser mordomo em teu lugar."
Então Felagund sobre a cabeça
de Orodreth a pôs: " Meu irmão,
até eu regressar esta coroa é tua."
Então Celegorm não mais ficou,
e Curufin sorriu e virou-se.

 


VII

Assim só doze se aventuraram
de Nargothrond, e para o Norte
eles viraram o seu caminho secreto,
e desapareceram no dia findo.
Nenhumas trompas tocaram, nenhuma voz ali cantou,
enquanto envolvidos em malha de anéis
agora escurecidos com elmos cinzentos
e sombrios mantos eles furtivamente avançaram.
Acompanhando o saltitante curso do Narog
eles seguiram até encontrarem a sua fonte,
as trémulas quedas, cujo curso transparente
um brilhante cálice de claro vidro
com águas de cristal enchia até derramar
descendo do Lago Ivrin,
cujas águas reflectem vagamente
as pálidas faces nuas e cinzentas
das Montanhas Sombrias debaixo da lua.

Agora muito longe do reino imune
de Orcs, demónios e do medo
do poder de Morgoth os seus caminhos os levaram.
Em bosques ensombrados pelas alturas
eles vigiaram e esperaram muitas noites,
até que uma vez quando nuvens apressadas
a lua e constelações taparam,
e selvagens ventos de Outono começaram
a zunir nos galhos, e as folhas iam rodopiando
nos escuros remoinhos suavemente sussurrando,
eles ouviram um murmuro áspero impelido pelo vento
de longe, um riso gutural chegando;
agora mais alto; eles ouvem o rufar
de horríveis pés moedores que pisam
a cansada terra. Então muitos fachos
vermelhos eles vêem lentamente aproximar-se,
balançando, e cintilando em lança
e cimitarra. Ai escondidos na noite
eles viram um bando de orcs a passar
com faces órquicas escuras e sujas.
Morcegos estavam sobre eles, e a coruja,
esse fantasmagórico e esquecido pássaro da noite piou
das árvores acima. As vozes morreram,
o riso como pedras a bater em aço
passou e desapareceu. No seu encalço
os Elfos e Beren vão mais suavemente

que raposas a caçar através de uma quinta
em busca de presas. Assim ao campo
iluminado pelo cintilante fogo e fachos
eles chegam furtivamente, e contam sentados ali
trinta Orcs no clarão vermelho
de madeira a arder. Sem um som
eles um por um silenciosamente os rodeiam,
cada um na sombra de uma árvore;
cada um lentamente, inflexível, secretamente
curva o seu arco e puxa o fio.

Ouvi! como eles subitamente esticam e cantam,
quando Felagund deixa sair um grito;
e doze orcs rapidamente caem e morrem.
Então eles saltam deixando os seus arcos.
Desembainham as brilhantes espadas, e rápidos os seus golpes!
Os aflitos Orcs agora gemem e gritam
como coisas profundamente perdidas num inferno sem luz.

A batalha ali é debaixo das árvores
amarga e rápida; mas nenhum orc foge;
ali deixaram as suas vidas que vagueavam em bando
e não mais mancharão a triste terra
com roubos e assassínios. No entanto nenhuma canção
de alegria, ou de triunfo sobre o mal,
os Elfos ali cantam. Em grande perigo
eles estavam, pois nunca sozinho para a guerra
tão pequeno bando de orcs ia, eles sabiam.
Rapidamente as roupas eles tiram
e jogam os corpos num buraco.
Este desesperado conselho tinha a astúcia
de Felagund para eles pensado:
como Orcs os seus camaradas disfarçar.

As lanças envenenadas, os arcos de corno,
as espadas malditas que os seus inimigos usavam
eles tomam; e relutantemente cada um entra
nas sujas e tristes vestes de Angband.
Eles untam as suas mãos e belas faces
com escuros pigmentos; o cabelo emaranhado
todo escorrido e preto das cabeças dos orcs
eles cortam, e juntam-no fio por fio
com arte élfica. Enquanto cada um olha
para os outros consternado, à volta das orelhas
ele balança nauseabundo, horrível.
Então Felagund cantou um feitiço
de transformar e de mudanças de formas;
as orelhas deles cresceram horrivelmente, e a aumentar
as suas bocas começaram, e como um presa
cada dente se tornou, enquanto lentamente ele cantava.
As suas vestes Élficas eles esconderam,
e um por um atrás dele deslizaram,
atrás de uma coisa suja e órquica
que outrora foi um belo rei élfico.

Para Norte eles foram; e Orcs encontraram
que passavam, nem a sua marcha eles paravam,
mas saudavam-nos; e mais ousados
eles ficavam enquanto mais milhas passavam.
Por fim chegaram com pés cansados
para além de Beleriand. Eles encontraram as rápidas
e jovens águas, ondulantes, pálidas prateadas
do Sirion apressando-se através daquele vale
onde Taur-nu-Fuin, Noite Mortífera,
as altas florestas sem caminhos vestidas de pinheiros,
caem escuras lentamente para baixo
sobre o lado leste, enquanto do lado oeste
a curva para norte das Montanhas cinzentas
barra a luz do dia ocidental.

Uma alta ilha ai se erguia sozinha
no meio do vale, como uma pedra
que rolou das vastas e distantes montanhas
quando gigantes em tumulto a arremessaram.
À volta dos seus pés o rio passava,
num leito dividido, que tinha esculpido
as penduradas pontas em cavernas.
Ali eram brevemente estremecidas as ondas do Sirion
e corriam para outras costas mais limpas.
Uma torre élfica tinha sido,
e forte era, e ainda era bela;
mas agora sombria com ameaça olhava
de um lado para a pálida Beleriand,
do outro para aquela triste terra
para além da boca norte do vale.
Dali podiam ser vistos os campos da seca,
as dunas poeirentas, o grande deserto;
e mais longe podia ser avistada
a melancólica nuvem que flutua e desce
sobre as grandes torres das Thangorodrim.

Agora naquele monte vivia
um mais terrível; e a estrada
que de Beleriand ai chegava
ele vigiava com atentos olhos de chama.
(Do Norte para ai não havia nenhum outro caminho,
excepto a leste onde o Desfiladeiro de Aglon estava,
esse escuro caminho de medo cheio
que só com grande necessidade os Orcs caminhariam
através das terríveis sombras da Mortífera Escuridão
onde os ramos de Taur-nu-Fuin assomam;
e Aglon levava a Doriath,
e os Filhos de Fëanor vigiavam esse caminho.)

Os Homens chamavam-lhe Sauron, e como a um deus
nos dias vindouros debaixo do seu bastão
encantados se curvaram perante ele, e fizeram-lhe
os fantasmagóricos templos na sombra.
Ainda não pelos Homens enfeitiçados adorado,
era agora o servo mais poderoso de Morgoth,
Mestre de Lobos, cujo assustador uivo
para sempre ecoa nos montes, e sujos
encantamentos e escura magia
tecia e manejava. Com feitiços
esse necromante nas suas hostes mantinha
espectros e fantasmas errantes,
feitiços falhados e ilegítimos
monstros que à sua volta se apinhavam,
cumprindo as suas ordens escuras e vilãs:
os lobisomens da Ilha do Feiticeiro.

De Sauron a sua vinda não foi escondida;
e apesar de na beira eles deslizarem
dos ramos da sombria floresta,
ele viu-os de longe, e lobos acordou:
"Vão! tragam-me aqueles Orcs traiçoeiros," ele disse,
"que viajam assim tão estranhamente, como se com medo,
e não vêem, como todos os Orcs costumam
e são ordenados, trazer-me noticias
de todos os seus actos, a mim , a Sauron."

Da sua torre ele olhou, e nele cresceram
suspeitas e um pensamento taciturno,
esperando, olhando de soslaio, até ele serem trazidos.
Agora cercados com lobos eles estão,
e temem o seu destino. Ah! a terra,
a terra do Narog deixada para trás!
As suas mentes prevêem grandes males,
enquanto abatidos, hesitantes eles avançam
e atravessam a desgostosa ponte de pedra
para a Ilha do Feiticeiro, e para o trono
ali feito em pedra escurecida com sangue.

"Onde estiveram? O que viram?"

"Na Elficidade; e lágrimas e sofrimentos,
o fogo soprando e o sangue fluindo,
nós vimos, ai estivemos.
Trinta nós matámos e os corpos jogamos
numa escura vala. Os corvos sentam-se
e a coruja pia onde a nossa ceifa está."

"Vamos, digam-me a verdade, Ó escravos de Morgoth,
o que acontece na Elficidade?
E Nargothrond? Quem reina lá?
Dentro desse reino os vossos pés se atreveram a entrar?"

"Só nas suas fronteiras nós ousámos andar.
Ai reina o belo Rei Felagund."

"Então não ouviram que ele desapareceu,
e que Celegorm se senta agora no seu trono?"

"Isso não é verdade! Se ele desapareceu,
então Orodreth senta-se no seu trono."

Atentos são os vossos ouvidos, rapidamente obteram
noticias de reinos onde não entrastes!
Quais são os vossos nomes, Ó ousados lanceiros?
Quem é o vosso capitão, ainda não o dissestes."

"Nereb e Dungalef e os dez guerreiros,
assim somos chamados, e escuro o nosso lar
debaixo das montanhas. Sobre a desolação
nós marchamos numa missão de necessidade e rapidez.
Boldog o capitão aguarda-nos ai
onde fogos saem das profundezas com fumo e raios."

"Boldog, eu ouvi, foi recentemente morto
a guerrear nas fronteiras desse domínio
onde o Ladrão Thingol e o povo bandido
se encolhe e rasteja debaixo de olmos e carvalhos
na temível Doriath. Não ouvistes então nada
dessa linda elfa, de Lúthien?
O seu corpo é belo, muito branco e belo.
Morgoth iria possui-la no seu lar.
Boldog ele mandou, mas Boldog foi morto:
estranho vocês não estarem na sua coluna.
O Nereb parece furioso, a sua cara está sombria.
Pequena Lúthien! O que o preocupa?
Porque não ri ele ao pensar no seu senhor
a meter uma donzela no seu tesouro,
que sujo seja o que foi limpo,
que a escuridão esteja onde a luz existia?"

"Quem serves tu, a Luz ou a Escuridão?
Quem é o fazedor do maior trabalho?
Quem é o rei dos reis terrenos,
o maior dador de ouro e anéis?
Quem é o mestre da grande terra?
Quem os despojou da sua alegria,
os Deuses gananciosos? Repitam os vossos votos,
Orcs de Bauglir! Não me olhem assim!
Morte à luz, à lei, ao amor!
Amaldiçoada seja a lua e estrelas no céu!
Possa a eterna escuridão
que espera lá fora em vagas frias
afogar Manwë, Varda e o Sol!
Possa tudo em ódio começar,
e tudo em mal acabar,
nos suspiros do grande Mar!"

Mas nenhum verdadeiro Homem nem Elfo ainda livre
iria alguma vez falar essa blasfémia,
e Beren murmurou: "Quem é Sauron
para impedir o trabalho que há a fazer?
A ele nós não o servimos, nem a ele devemos
obediência, e agora vamo-nos."

Sauron riu: "Paciência! Não muito mais tempo
vocês esperarão. Mas primeiro uma canção
eu vou cantar para vocês, para ouvidos atentos."
Então os seus olhos fogosos neles põe,
e escuridão negra caiu à volta deles todos.
Eles só viam como se através de um manto
de fumo aqueles olhos profundos
nos quais os sentidos sufocavam e se afogavam.
Ele cantou um canto de feitiçaria,
de trespassar, abrir, de atraiçoar,
revelar, descobrir, denunciar.
Então de súbito Felagund vacilante
cantou em resposta um canto de ficar,
resistir, batalhar contra o poder,
de segredos guardados, força de torre,
e confiança incólume, liberdade, fuga;
de mudar e de forma mutável,
de ciladas iludidas, armadilhas quebradas,
da prisão a abrir-se, da corrente que quebra.

De cá para lá andava o canto deles.
Cambaleante e soçobrante, quando cada vez mais forte
o canto de Sauron se dilatava, Felagund lutava,
e toda a magia e poder concentrava
da Elficidade nas suas palavras.
Docemente no escuro eles ouviram as aves
cantando longe em Nargothrond,
o suspiro do mar para além,
para além do mundo ocidental, sobre areia,
sobre areia de pérolas na terra Élfica.

Depois adensaram-se as trevas: a escuridão cresceu
em Valinor, o sangue vermelho correu
ao lado do mar, onde os Noldor chacinaram
os Viajantes da Espuma, e roubando levaram
os seus barcos brancos com as suas velas brancas
dos portos iluminados. O vento assobia.
O lobo uiva. Os corvos fogem.
O gelo murmura nas bocas do mar.
Os cativos tristes em Angband choram.
O trovão atroa, as fogueiras ardem,
um grande fumo emerge, um ribombar -
e Felagund cai sobre o chão.

Olhai! eles estão na sua própria e bela forma,
pele branca, olhos brilhantes. Não mais abrem
como Orcs as suas bocas; e agora encontram-se
denunciados nas mãos do feiticeiro.
Assim chegaram eles infelizes ao desgosto,
a masmorras que nem esperança ou luz conhecem,
onde presos por correntes que comem a carne
e enredados em teias de malhas estranguladoras
eles ficaram esquecidos, desesperados.

No entanto nem todos os feitiços
de Felagund foram inúteis; pois Sauron
nem os seus nomes ou propósito sabia.
Estes muito ele ponderou e pensou,
e nas suas desgostosas correntes os procurou,
e os ameaçou a todos com terrível morte,
se um não fosse com palavras traidoras
revelar o seu conhecimento. Lobos haviam de vir
e lentamente devora-los um por um
à frente dos outros, e por fim
deveria um sozinho ser deixado aterrorizado,
depois num lugar de horror pendurados
com angustia deveriam os seus membros ser presos,
nas entranhas da terra seria lentamente,
eternamente, cruelmente, posto à dor
e tormento, até tudo declarar.

Mesmo enquanto ele ameaçava, assim aconteceu.
De tempos a tempos no cego escuro
dois olhos apareciam, e eles ouviam
assustadores gritos, e depois um som
de estraçalhar, de algo a comer no chão,
e sangue a correr eles cheiravam.
Mas nenhum se submeteu, e nenhum disse nada.

 


VIII

Haviam cães em Valinor
com coleiras de prata. Veados e javalis,
raposas e lebres e ágeis cabritos
ali nas verdes florestas andavam.
Oromë era o divino senhor
de todos os bosques. Potentes vinhos
havia nos seus salões e cantos de caça.
Os Noldor de outro modo o chamavam à muito
Tauros, o Deus cujas trompas tocaram
sobre as montanhas à muito tempo;
aquele dos Deuses que sozinho amou o mundo
antes das bandeiras do Sol e da Lua
serem desfraldadas; e ferrados a ouro
eram os seus grandes cavalos. Cães incontáveis
ladrando nos bosques para além do Oeste
de raça imortal ele possuía:
cinzentos e ágeis, pretos e fortes,
brancos com longas peles de seda,
castanhos e malhados, rápidos e certeiros
como setas de um arco de teixo;
as suas vozes como os profundos sinos
que tocam nas cidadelas de Valmar,
os seus olhos como jóias vivas, os seus dentes
como marfim. Como espadas desembainhadas
eles cintilavam e corriam da trela ao cheiro
para alegria e felicidade de Tauros.

Nas florestas e verdes pastagens de Tauros
tinha Huan quando um cachorrinho estado.
Ele cresceu o mais rápido dos rápidos,
e Oromë deu-o como prenda
a Celegorm, que adorava seguir
a grande trompa do Deus sobre colinas e vales.
Dos cães da Terra da Luz,
quando os filhos de Fëanor fizeram a fuga
e chegaram ao Norte, só ele ficou
ao lado do seu mestre. Todos os ataques
e todas as incursões selvagens ele partilhou,
e em batalhas mortais entrou.
Muitas vezes ele salvou o seu senhor Élfico
de Orcs e lobos e espadas traiçoeiras.
Um cão-lobo, incansável, cinzento e feroz
ele cresceu; os seus brilhantes olhos penetravam
todas as sombras e névoas, o cheiro
com muitos dias ele encontrava através de pântanos e campos,
através de folhas roçantes e areias poeirentas;
todos os caminhos da grande Beleriand
ele sabia. Mas lobos, ele gostava deles por demais;
ele adorava encontrar as suas gargantas e acabar
com as suas vidas de rosnar e maléfico bafo.
As matilhas de Sauron temiam-no como a Morte.
Nem magia, nem feitiços, nem dardos,
nem presas, nem os venenos que a arte demoníaca
podia fazer o tinham magoado; pois o seu destino
estava traçado. No entanto ele pouco receava
esse destino decretado e conhecido de todos:
diante do mais forte ele cairia,
só diante do mais poderoso lobo
que alguma vez foi criado em cavernas de pedra.

Ouvi! longe em Nargothrond,
para lá do Sirion e mais além,
há gritos fracos e trompas tocando,
e cães ladrando através das árvores passam.
A caçada começou, os bosques estão agitados.
Quem cavalga hoje? Não ouvistes dizer
que Celegorm e Curufin
soltaram os seus cães? Com alegre barulheira
eles montaram antes do Sol despertar,
e pegaram nas lanças e levaram os seus arcos.
Os lobos de Sauron recentemente atreveram-se
a ir mais longe. Os seus olhos olharam
pela noite para lá do trovejante leito
do Narog. Quererá o seu senhor saber,
por acaso, dos planos e conselhos profundos,
dos segredos que os senhores Élficos guardam,
dos movimentos no reino Noldor
e missões debaixo da faia e olmo?

Curufin falou: "Meu bom irmão,
eu não gosto disto. Que escuro desígnio
terá este presságio? Estas coisas más,
nós temos rapidamente que acabar com as suas vagueações!
E mais, agradaria imenso ao meu coração
caçar um pouco lobos escondidos."
E depois ele dobrou-se e murmurou baixo
que Orodreth era um idiota lento;
muito tempo passara desde que o rei partira,
e nenhum rumor ou notícias tinham chegado.
"Pelo menos do teu interesse seria
saber se ele está morto ou livre;
para reunir os teus homens e as tuas tropas.
"Eu vou caçar" então tu dirias,
e os homens pensariam que pelo bem do Narog
tu ias. Mas no bosque
coisas podem ser ouvidas; e se por graça,
por algum cego destino ele voltar
pelo mesmo louco caminho, e se ele tiver
um Silmaril - Eu não preciso dizer
mais nada em palavras; mas uma por direito
é tua (e nossa), a jóia da luz;
outra coisa pode ser ganha - um trono.
O sangue mais velho da nossa casa merece-o."

Celegorm ouviu. Nada disse,
mas uma poderosa hoste conduziu;
e Huan saltou com os alegres sons,
o chefe e capitão dos seus cães.
Três dias eles cavalgaram por bosques e montes
para os lobos de Sauron caçar e matar,
e muitas cabeças e peles cinzentas
eles apanham, e muitos afugentam para longe,
até que perto das fronteiras ocidentais
de Doriath eles descansam um pouco.

Ai havia gritos fracos e trompas tocando,
e cães ladrando pelos bosques andavam.
A caçada começara. Os bosques estavam agitados,
e alguém ali fugia como um pássaro assustado,
e o medo estava no seu passo dançante.
Ela não sabia quem nos bosques caçava.
Longe da sua casa, a vaguear, pálida,
ela correu como um fantasma pelo vale;
o seu coração impelia-a avançar e prosseguir,
mas os seus membros estavam esgotados, os seus olhos pálidos.
Os olhos de Huan viram uma sombra
tremer, correndo por uma clareira
como a névoa do entardecer apanhada pelo dia
apressando-se temerosamente para longe.
Ele ladrou, e saltou com fortes membros
para perseguir a esquiva coisa estranha e vaga.
Nas asas do terror, como uma borboleta
perseguida por um pássaro do alto,
ela voava para aqui, corria para ali,
ora parava, ora voava pelo ar -
em vão. Por fim contra uma árvore
ela se encostou e suspirou. Para cima ele saltou.
Nenhuma palavra magica dita com desgosto,
nenhum mistério élfico ela sabia
ou tinha tecido na escura vestimenta
que lhe valessem contra aquele caçador resoluto,
cuja a velha e imortal raça e espécie
nenhum feitiço podia enganar ou apanhar.

Só a Huan quando o conheceu
ela nunca encantamentos pôs
nem com feitiços o prendeu. Mas a encantadora
e gentil voz e pálido sofrimento
e os olhos como céus estrelados turvados com lágrimas
domaram aquele que nem a morte ou monstros teme.

Levemente ele a levantou, carinhosamente transportou
o seu assustado fardo. Nunca antes
tinha Celegorm visto tal presa:
"Que trouxeste tu, diz-me bom Huan!
Escura donzela élfica, espectro, ou fada?
Para caçar tal nós não viemos hoje."

"Esta é Lúthien de Doriath,"
a donzela disse. "Um longo caminho
longe das solarengas clareiras dos Elfos da Floresta
ela tristemente percorre, onde a coragem esmorece
e a esperança enfraquece." E enquanto ela falava
deixou cair o seu manto de sombra,
e ali ficou em branco e prata.
As suas jóias como estrelas piscavam brilhantemente
no sol nascente como o orvalho da manhã;
os lilios dourados no manto azul
brilhavam e cintilavam. Quem poderia olhar
para aquela bela face sem se maravilhar?
Longamente Curufin olhou fixamente.
O perfume do seu cabelo entrançado com flores,
os seus ágeis membros, a sua face élfica,
entraram no seu coração, e naquele lugar
acorrentado ele ficou. "Ó real donzela,
Ó linda senhora, por que razão em trabalhos
e viagens solitárias andais?
Que temerosas noticias de guerra e tristeza
ouvistes em Doriath? Dizei-nos!
Por sorte andastes na direcção certa;
haveis encontrado amigos," disse Celegorm,
e olhou para a sua forma élfica.

No seu coração ele pensava que a história dela
ele sabia em parte, mas nada ela viu
de engano na sua face sorridente.
"Quem sois vós então, a caçada senhorial
que segue neste perigoso reino?"
ela perguntou; e uma boa resposta
eles deram. " Os teus servos, doce senhora,
senhores de Nargothrond que te saúdam,
e pedem que tu com eles vás
de volta às suas colinas, esquecendo a tristeza
por uma estação, procurando esperança e descanso.
E agora era melhor ouvir a tua história."

Então Lúthien conta os feitos de Beren
nas terras do Norte, como o destino o leva
a Doriath, da ira de Thingol,
da temerosa busca que o seu senhor
decretou para Beren. Nem sinais ou palavras
os irmãos deram que alguma coisa que ouviram
os tocava de perto. Da sua fuga
e do maravilhoso manto que usava
ela levemente conta, mas as palavras falham-lhe
ao recordar a luz no vale,
o luar, as estrelas em Doriath,
antes de Beren tomar o perigoso caminho.
"Necessidade, também, meus senhores, há de velocidade!
Nenhum tempo para alívios e descanso se pode gastar.
Pois dias passaram agora desde que a rainha,
Melian cujo coração tem visão apurada,
olhando para longe me disse com medo
que Beren vivia em horrível cativeiro.
O Senhor dos Lobos tem prisões escuras,
correntes e encantamentos cruéis e violentos,
e ai preso e debilitado
deve Beren jazer - se coisa pior
não tiver trazido a morte ou o desejo por ela";
então chorando de desgosto foi privada de ar.

A Celegorm disse Curufin
aparte e baixo: "Agora noticias ganhámos
de Felagund, e agora sabemos
a razão das andanças das criaturas de Sauron,"
e outros sussurrados conselhos falou,
e disse-lhe o que ele devia fazer.
"Senhora ," disse Celegorm, "vós vistes
que andamos numa caçada a bestas,
e apesar da nossa hoste ser grande e ousada,
está mal preparada para o refúgio do feiticeiro
e ilha fortificada assaltar.
Não julgues os nossos corações e vontades em falta.
Olhai! eu aqui a nossa caçada esqueço
e para casa o nosso rápido caminho nos levará,
para conselhos e ajudas ai planear
para Beren que em angustia está."

Para Nargothrond eles levaram

Lúthien, cujo coração a fazia suspeitar de algo.
Atrasos ela temia; cada momento pressionava
o seu espírito, no entanto ela adivinhou
que eles não cavalgavam tão rápido quanto podiam.
À frente saltava Huan dia e noite,
sempre olhando para trás o seu pensamento
estava perturbado. Que procurava o seu senhor,
e porque não cavalgava ele como o fogo,
porque olhava Curufin com ardente desejo
Lúthien, ele pensava profundamente,
e sentiu uma sombra má rastejando
da antiga maldição sobre a Elficidade.
O seu coração estava ferido pelo sofrimento
do bravo Beren, de Lúthien querida,
e de Felagund que não conhecia nenhum medo.

Em Nargothrond as tochas brilharam
e a festa e música foram preparadas.
Lúthien não festejou mas chorou.
Os seus caminhos estavam fechados; de perto vigiada
ela não podia fugir. O seu manto magico
estava escondido, e nenhum pedido que ela fizesse
era ouvido, nem respostas encontravam
as suas perguntas. Fora do pensamento,
parecia, estavam aqueles lá longe que definhavam
em angustia e em cegas masmorras
em prisões e em miséria.
Demasiado tarde soube ela da traição deles.
Não foi escondido em Nargothrond
que os filhos de Fëanor a mantinham presa,
que não queriam ajudar Beren, e que
tinham poucas razões para salvar de Sauron
o rei que eles não amavam e cuja busca
velhos juramento de ódio nos seus peitos
tinha acordado do sono. Orodreth sabia
o propósito escuro que eles perseguiam:
o rei Felagund deixar morrer,
e com o sangue do Rei Thingol aliar
a casa de Fëanor pela força
ou tratado. Mas para impedir o caminho deles
ele não tinha poder, pois todo o seu povo
os irmãos ainda tinham debaixo do seu jugo
e todos ainda ouviam as suas palavras.
Os conselhos de Orodreth ninguém ouvia;
a sua vergonha os prendeu, e não queriam ouvir
a história da necessidade de Felagund.

Aos pés de Lúthien ali dia a dia
e à noite ao lado da sua cama ficava
Huan o cão de Nargothrond;
e palavras doces e ternurentas ela falava a ele:
"Ó Huan, Huan, o mais rápido cão
que alguma vez correu em chão mortal,
que mal possuiu os teus senhores
para não ouvirem as minhas lágrimas nem a minha aflição?
Outrora Barahir acima de todos os homens
os bons cães estimou e amou;
outrora Beren no desabrigado Norte,
quando como um fora-da-lei vagueava,
tinha amigos que não lhe falhavam entre as coisas
com pelo e pele e asas emplumadas,
e entre os espíritos que em pedras
nas velhas montanhas e desertos
ainda vivem. Mas agora nem Elfo nem Homem,
nenhum excepto a filha de Melian,
relembra aquele que com Morgoth lutou
e nunca à escravidão se curvou."

Nada disse Huan; mas Curufin
desde ai nunca mais se pôde aproximar
de Lúthien, nem tocar nessa donzela,
mas encolhia-se com medo das presas de Huan.
Então numa noite quando o nevoeiro de Outono
envolvia a brilhante luz
da pálida lua, e inconstantes estrelas
eram vistas a voar por entre as barras
de nuvens a correr, quando a trompa do Inverno
já feria as árvores desoladas,
olhai! Huan desapareceu. Então Lúthien deitou-se
temendo novo mal, até que mesmo antes do dia,
quando tudo está morto e parado
e medos disformes os despertos enchem,
uma sombra veio encostada à parede.
Então algo deixa ali cair docemente
o seu manto magico ao lado da sua cama.
Tremendo ela viu o grande cão sentado
ao seu lado, ouviu uma voz profunda crescer
como se de uma torre com um lento e longínquo sino.

Assim falou Huan, nunca antes ele
tinha dito palavras, e só mais duas vezes
voltaria a falar em língua élfica:
"Senhora amada, a quem todos os Homens,
a quem a Elficidade, e a quem todas as coisas
com pelo e pele e asas emplumadas
deverão servir e amar - levanta-te! vamos!
Põe o teu manto! Antes do dia
chegar de Nargothrond nós fugiremos
para os perigos do Norte, tu e eu."
E antes dele acabar conselhos ele deu
para concretizar as coisas que procuravam.
Ali Lúthien ouviu maravilhada,
e docemente para Huan olhou.
Os seus braços à volta do pescoço dele ela pôs -
com amizade que até à morte duraria.

 


IX

Na Ilha do Feiticeiro ainda estavam esquecidos,
enredados e torturados naquela gruta
fria, horrível, sem portas, sem luz,
e com olhos em branco olhavam a eterna noite
dois camaradas. Agora sozinhos eles estavam.
Os outros não mais viviam, mas nus
os seus ossos partidos no chão estavam e contavam
como dez tinham servido bem o seu mestre.

A Felagund então Beren disse:
"Seria pouca a perda se eu estivesse morto,
e eu estou inclinado a tudo contar,
e assim, talvez, deste escuro inferno
a tua vida soltar. Eu liberto-te
do teu velho juramento, pois mais por mim
tu suportaste do que ganhaste."

"A! Beren, Beren ainda não aprendeste
que promessas do povo de Morgoth
são frágeis como o ar. Desta escura prisão
de dor nenhum de nós jamais sairá,
quer ele saiba os nossos nomes ou não,
com o consentimento de Sauron. Nunca mais, eu penso,
no entanto mais tormento nós beberíamos,
soubesse ele que o filho de Barahir
e Felagund estavam cativos aqui,
e ainda pior se ele soubesse
a temível busca em que estávamos."

Um riso diabólico ouviram
dentro do seu buraco. "Verdade, verdade a palavra
que eu vos ouço falar," uma voz então disse.
"Seria pouca a perda se ele estivesse morto,
o bandido mortal. Mas o rei,
o Elfo imortal, muitas coisas
que nenhum homem pode sofrer ele pode suportar.
Talvez, quando o que estes muros guardam
de terrível angustia o teu povo souber,
o seu rei por um resgate eles desejarão
com ouro e gemas e grandes corações acobardados;
ou talvez Celegorm o orgulhoso
considerara a prisão de um rival barata,
e com a coroa e ouro se manterá.
Talvez, a busca eu venha a saber,
antes de tudo terminar, onde iam vocês.
O lobo têm fome, a hora está perto;
não mais precisa Beren esperar para morrer."

O lento tempo passou. Então na escuridão
dois olhos ali brilharam. Ele viu o seu destino,
Beren, silencioso, enquanto as suas correntes ele forçava
para além da sua força mortal encarcerada.
Olhai! subitamente ouve-se um som estilhaçante
de correntes que se partem e se desfazem,
de elos partidos. Para a frente se lançou
sobre a criatura que rastejava
na sombra o fiel Felagund,
não se preocupando com presas ou ferida venenosas.
Ali no escuro eles lutaram lentamente,
sem remorsos, emaranhados, para a frente e trás,
dentes na carne, mão na garganta,
dedos fechados na peluda pele,
empurrando Beren que ali deitado
ouviu o lobisomem suspirando, morrendo.
Então uma voz ele ouviu: "Adeus!
Na terra não mais preciso de viver,
amigo e camarada, Beren ousado.
O meu coração está ferido, os meus membros frios.
Aqui todo o meu poder eu gastei
para partir as minhas correntes, e horrível ferida
de dentes venenosos está no meu peito.
Eu agora tenho que ir para o meu longo descanso
em Aman, para lá da costa
de Eldamar para sempre
em memoria viver." Assim morreu o rei,
como ainda os harpistas élficos cantam.

Ali Beren jazia. A sua dor sem lágrimas,
o seu desespero não tinha horror nem medo,
esperando por passos, uma voz, pelo destino.
Silêncios mais profundos que as masmorras
dos à muito esquecidos reis, debaixo de anos
e areias incontáveis escondidos em tumbas
e enterrados em eterna escuridão,
lentamente e sem obstáculos à sua volta rastejavam.

Os silêncios foram subitamente quebrados
em fragmentos de prata. Fraca ali cantava
uma voz numa canção que paredes de pedra,
colinas encantadas, e barras e fechaduras,
e os poderes das trevas perfurava com luz.
Ele sentiu à sua volta a doce noite
de muitas estrelas, e no ar
havia folhas a voar e um perfume raro;
os rouxinóis estavam nas árvores,
esbeltos dedos a flauta e viola agarravam
debaixo da lua, e uma mais bela
do que tudo o que existiu ou existirá
sobre um solitário monte de pedras
com cintilante vestido dançava sozinha.

Então no seu sonho parecia que ele cantava,
e alto e feroz o seu canto tocou,
velhas canções de batalha no Norte,
de actos espantosos, de marchar em frente
para enfrentar forças superiores e quebrar
grandes poderes, e torres, e abanar fortes muralhas;
a acima de tudo o fogo prateado
que outrora os Homens chamaram de Rosa Ardente,
as Sete Estrelas que Varda pôs
sobre do Norte, estava ardendo ainda,
uma luz na escuridão, esperança no desgosto,
o vasto emblema dos inimigos de Morgoth.

"Huan, Huan! Eu ouço uma canção
longe nas profundezas, longe mas forte;
uma canção que Beren costumava cantar.
Eu ouço a sua voz, eu ouvi-a às vezes
em sonhos e vagueações." murmurando baixo
assim falou Lúthien. Na ponte do desgosto
no manto envolvida, no fim da noite
ela sentou-se e cantou, e desde o topo
às profundezas a Ilha do Feiticeiro,
rocha sobre rocha e pilar em pilar,
tremeu ecoando. Os lobisomens uivaram,
e Huan escondido ficou e rosnou
vigilante, ouvindo no escuro,
esperando pela batalha cruel e dura.

Sauron ouviu aquela voz, e logo se pôs
embrulhado na sua capa e negro capuz
na sua alta torre. Ele ouviu longamente,
e sorriu, pois conheceu aquela canção élfica.
"Á! pequena Lúthien! O que trouxe
a insensata mosca à temível teia?
Morgoth! uma grande e rica recompensa
a mim tu deverás quando ao teu tesouro
esta jóia for adicionada." Para baixo ele foi,
e em frente os seus mensageiros ele mandou.

Ainda Lúthien cantava. Uma rastejante forma
com língua de sangue e mandíbulas enormes
pisou a ponte; mas ela continuou a cantar
com membros a tremer e grandes olhos pálidos.
A rastejante forma saltou para o seu lado,
e suspirou, e subitamente caiu e morreu.
E continuavam a chegar, ainda um por um,
e cada um era apanhado, e dali nenhum
regressava com pés de lã para dizer
que uma sombra espreitava feroz e terrível
no fim da ponte, e que por baixo
as turbilhantes águas relutantemente fluíam
sobre os corpos cinzentos que Huan matara.
Uma poderosa sombra lentamente encheu
a estreita ponte, um ódio escravizador,
um horrível lobisomem feroz e grande:
o pálido Draugluin, o velho cinzento senhor
de lobos e bestas de sangue abominável,
que se alimentava de carne de Homem e Elfo
debaixo da cadeira de Sauron.

Não mais em silencio eles lutaram.
Uivando e ladrando bateram-se na noite,
até que de volta à cadeira onde se tinha alimentado
para morrer o lobisomem ganindo foge.
"Huan está lá" ele diz e morre,
e Sauron estava cheio de raiva e orgulho.
"Diante do mais forte ele cairá,
diante do mais poderoso lobo de todos,"
assim pensava ele agora, e pensando ele sabia
como o fado à muito falado se poderia tornar verdade.
Agora ali chegou lentamente e olhou
para a noite uma forma com longos cabelos,
húmido com veneno, com horríveis olhos
de lobo, voraz; mas ali jazia
uma luz mais cruel e horrorosa
do que qualquer outra que alimentou olhos de lobo.
Maiores eram os seus membros, as suas mandíbulas imensas,
as suas presas mais afiadas, e cheias
de veneno, tormento, e morte.
O mortal vapor do seu bafo
avançava diante dele. Caindo morre
a canção de Lúthien, e os seus olhos
estão diminuídos e escurecidos com um medo,
frio, venenoso e escuro.

Assim chegou Sauron, como o maior lobo
que alguma vez foi visto da porta de Angband
até ao tórrido sul, que alguma vez espreitou
em terras mortais ou na morte trabalhou.
De repente ele saltou, e Huan desviou-se
para a sombra. Ele saltou
para Lúthien que estava quase a desmaiar.
Aos seus sentidos entorpecidos chegou o gosto
do seu maldito bafo, e ela acordou;
com dificuldade ela fala uma palavra sussurrada,
o seu manto cai pela cara dele.
Ele tropeça nos seus próprios pés.
Para fora salta Huan. Para trás ele se desvia.
Debaixo das estrelas ali é ouvido
o grito dos lobos caçadores à espera,
a língua dos cães que sem medo mata.
Para trás e para a frente eles saltam e correm
fingindo fugir, e à volta eles andam,
e mordem e agarram-se, e caem e levantam-se.
Então subitamente Huan pára e agarra
o seu terrível inimigo; a sua garganta ele prende,
sufocando a sua vida. Nem assim acaba.
De forma para forma, de lobo para serpente,
de monstro para a sua própria forma demoníaca,
Sauron muda, mas esse desesperado aperto
ele não consegue afastar, nem dele se soltar.
Nem magia, nem feitiços, nem dardos,
nem presas, nem veneno, nem a arte demoníaca
podiam ferir esse cão que veados e javalis
caçou outrora em Valinor.

Quando o maldito espírito que Morgoth fez
e criou com mal, tremendo abandonava
a sua escura casa, então Lúthien levantou-se
e olhou para as suas dores.

"Ó escuro demónio, Ó fantasma vilão
tecido com infâmia, com mentiras e traições,
aqui morrerás e o teu espírito rumará
tremendo para a casa do teu mestre
para o seu desprezo e fúria suportar;
a ti ele irá nas entranhas da terra
prender, e num buraco
para toda a eternidade a tua alma nua
ficará a lamentar-se e a gemer - isto acontecerá,
a não ser que me entregues as chaves
da tua escura fortaleza, e o feitiço
que une pedra a pedra tu digas,
e fales as palavras de abertura."

Com bafo sufocado e tremendo
ele falou, submeteu-se quanto pôde
e vencido traiu a confiança do seu mestre.

Olhai! na ponte um brilho de prata,
como estrelas descendo da noite
para arder e tremer aqui em baixo.
Ali Lúthien esticou os seus braços,
e chamou alto com a voz tão clara
como ainda às vezes podem os mortais ouvir
grandes trompas élficas sobre as colinas
escoando, quando todo o mundo está parado.
A aurora espreitou por cima das montanhas escuras,
as suas cinzentas cabeças silenciosas olhavam sobre ela.
O monte tremeu; a cidadela
desfez-se, e todas as suas torres caíram;
as rochas abriram-se e a ponte partiu-se,
e o Sirion espumou com súbito fumo.
Como fantasmas as corujas foram a voar vistas
a piar ao amanhecer, e sujos morcegos
roçaram escuros pelos frios ares
gemendo sem força para encontrar novos lares
na escuridão dos ramos da Mortífera Floresta sob a Noite.
Os lobos ganindo e ladrando fugiram
como sombras cinzentas. E de lá espreitavam
pálidas formas esfarrapadas como se dormindo,
rastejando, protegendo os olhos cegos:
os cativos com medo e surpresa
da longa dor na noite escura
para além de toda a esperança foram libertados para a luz.

Uma forma vampírica com asas enormes
esticando-se saltou do chão, e passou,
o seu sangue escuro pingou nas árvores;
e Huan debaixo dele vê sem vida
um corpo de lobo - pois Sauron tinha voado
para Taur-nu-Fuin, para um novo trono
e escuro domínio ai construir.
Os cativos vieram e choraram e disseram
os seus piedosos gritos de agradecimento e louvor.
Mas Lúthien ansiosamente olhava.
Beren não chegava. Por fim disse:
"Huan, Huan, entre os mortos
devemos nós então encontrar aquele que procuramos,
pelo amor do qual trabalhámos e lutámos?"
Então de lado a lado de pedra a pedra
sobre o Sirion eles treparam. Sozinho
sem se mexer eles o encontraram, pois chorava
por Felagund, e não se virou
para ver que passos se aproximavam.
"Á! Beren, Beren!" chegou o grito dela,
"será que te encontrei demasiado tarde?
Ai de mim! que aqui sobre o chão
o mais nobre da nobre raça
em vão a tua angústia abraça!
Ai de mim! que em lágrimas nos tenhamos que encontrar
aqueles que outrora achavam os encontros alegres!"

A sua voz estava cheia de tanto amor e espera
que ele ergueu os olhos, a sua tristeza acabou,
e sentiu o seu coração novamente em chamas
por ela que através de perigos até ele veio.

"Ó Lúthien, Ó Lúthien,
mais bela que qualquer criança dos Homens,
Ó adorada donzela da Elficidade,
que poder do amor te possuiu
para te trazer aqui ao lar do terror!
Ó ágeis membros e cabelo sombrio,
Ó flores entrançadas em fronte tão branca,
Ó esbeltas mãos nesta nova luz!"

Ela encontrou os seus braços e deixou-se cair
mesmo ao raiar do dia.

 


X

As canções têm contado, pelos harpistas tocadas
há muitos anos em língua élfica,
como Lúthien e Beren se demoraram
no vale do Sirion; e muitas clareiras
eles encheram com alegria, e ali os seus pés
passavam levemente, e os dias eram doces.
Apesar de o Inverno caçar através do bosque,
ainda as flores resistiam onde eles estavam.
Tinúviel! Tinúviel!
Ainda sem medo os pássaros agora vivem
e cantam em ramos por entre a neve
onde Lúthien e Beren andaram.

Da Ilha do Sirion eles se foram embora,
mas na colina sozinha ali ficou
uma sepultura verde, e uma pedra foi posta,
e ali ainda estão os brancos ossos
de Finrod o belo, filho de Finarfin,
a não ser que a terra mude e desapareça,
ou se afunde em mares profundos,
enquanto Finrod caminha debaixo das árvores
em Eldamar e não mais virá
para o cinzento mundo de lágrimas e guerra.

Para Nargothrond não mais ele veio
mas para ai rapidamente correu a fama
do seu rei morto e do seu grande feito,
como Lúthien a Ilha tinha libertado:
o Senhor dos Lobisomens estava derrotado,
e quebradas estavam as suas torres de pedra.
Pois chegavam agora a casa muitos
que à muito para as sombras tinham passado;
e como uma sombra tinha regressado
Huan o cão, apesar de pouco ele ter ganho
fosse elogio ou agradecimento de Celegorm.
Agora ali ergue-se uma crescente tempestade,
um clamor de muitas vozes altas,
e o povo que Curufin tinha acobardado
e que o próprio rei tinha negado,
com vergonha e raiva agora grita:
"Vamos! Matem esses pérfidos senhores desleais!
Porque se escondem eles aqui? O que vão eles fazer,
senão tornar a casa de Finarfin em nada,
traiçoeiros cucos indesejados?
Fora com eles!" Mas sabiamente e devagar
Orodreth falou: "Cuidado, não atraiam
vocês mais desgosto e malvadeza!
Finrod caiu. Eu sou rei.
Mas como ele falaria, eu agora
vos comando. Eu não vou permitir
que em Nargothrond a antiga maldição
com mais mal
trabalhe. Com lágrimas por Finrod choramos
arrependidos! Guardai as espadas para Morgoth!
Nenhum sangue de familiares aqui será derramado.
No entanto aqui nem descanso ou pão
os irmãos encontrarão, aqueles que desprezaram
a casa de Finarfin. Libertai-os,
para intocados ficarem diante de mim! Vão!
A cortesia de Finrod assim o exige!"

Com desprezo estava Celegorm, de pé,
com um olhar de fogo e raiva orgulhosa
e ameaçadora; mas ao seu lado
sorridente e silencioso, com olhar desconfiado,
estava Curufin, com a mão no cabo
da sua longa faca. E então ele riu,
e "Então?" disse ele. "Porque chamastes
por nós, Senhor Mordomo? Se no teu salão
não somos bem vindos. Vamos, fala,
se algo queres de nós!

Frias palavras Orodreth respondeu lentamente:
"Diante do rei vocês estão. Mas saibam
que de vós ele não quer nada. A sua vontade
vocês vieram ouvir, e cumprir.
Vão-se para sempre, antes do dia
cair no mar! O vosso caminho
nunca mais vos deverá trazer aqui,
nem a qualquer filho de Fëanor;
de amor não mais haverá laços
entre a vossa casa e Nargothrond!"

"Nós não esqueceremos," eles disseram
e viraram-se de costas, e apressando-se,
prepararam os seus cavalos, arrumaram o seu equipamento,
e partiram com cão, arco e lança,
sozinhos; pois ninguém do povo
os seguiria. Nenhuma palavra falaram,
mas soaram as trompas, e cavalgaram
como o vento no fim de um dia de tempestade.

Perto de Doriath os enamorados agora
se aproximavam. Apesar de nus estarem os ramos,
e o Inverno através das cinzentas ervas
assobiasse com frio, e de breve ser o dia,
eles cantavam debaixo do céu gelado
que acima deles se elevava claro e alto.
Eles chegaram ao Mindeb rápido e brilhante
que das altas montanhas do norte
até Neldoreth vinha saltando
com barulho entre as pedras castanhas,
mas em súbito silêncio caía,
ao passar debaixo do feitiço de guarda
que Melian pôs nas fronteiras
da terra de Thingol. Ai estavam eles agora;
pois um silêncio triste Beren sentiu.
À muito ignorado, por fim demasiado bem
ele ouvia o aviso do seu coração:
Ah! amada, aqui nos separamos.
"Ai de mim, Tinúviel," ele disse,
"esta estrada nós não mais podemos caminhar
juntos, não mais de mãos dadas
podemos viajar na terra Élfica."

"Porque nos despedimos aqui? O que dissestes tu,
mesmo à aurora de um dia brilhante?"

"Por segurança tu viestes para fronteiras
dentro das quais à guarda das mãos
de Melian tu voltarás a andar com alívio
e encontrarás a tua casa e bem amadas árvores."


"O meu coração alegra-se quando as belas árvores
lá muito ao longe altas e cinzentas vê
de Doriath inviolada.
No entanto Doriath o meu coração odeia,
e Doriath os meus pés esqueceram,
a minha casa, a minha família. Não quero olhar
para erva ou folhas ali nunca mais
sem ti ao meu lado. Escura é a costa
do Esgalduin o fundo e forte!
Por que é que ai sozinha esquecendo canções
ao lado de eternas águas a passar
devo eu então sem esperança sentar-me por fim,
e olhar águas impiedosas
com dor e em solidão?"

"Nunca mais para Doriath
pode Beren encontrar o tortuoso caminho,
apesar de Thingol o deixar ou permitir;
pois ao teu pai ali eu jurei
não voltar excepto para cumprir
a busca do brilhante Silmaril,
e ganhar pelo meu valor o meu desejo.
"Nem rochas nem aço nem o fogo de Morgoth
nem todo o poder da Elficidade,
poderão guardar a gema que eu quero."
assim jurei eu outrora por Lúthien
mais bela que qualquer criança dos Homens.
A minha palavra, ai de mim! eu tenho agora que cumprir,
e não ser o primeiro homem a chorar
por um juramento com orgulho e raiva feito.
Demasiado breve o encontro, breve a tristeza,
demasiado cedo chega a noite quando temos que partir!
Todos os juramentos trazem dor ao coração,
com vergonha quebrados, com angústia mantidos.
Ah! quisera que agora eu dormisse
com Barahir debaixo das pedras,
e tu estivesses dançando ainda sozinha,
solteira, imortal, sem tristeza,
cantando na alegria da Elficidade."

"Isso não pode ser. Pois há laços
mais fortes que pedra ou barras de ferro,
mais fortes do que o juramento orgulhosamente feito.
Não te prometi eu a minha fidelidade?
Não terá o amor então orgulho ou honra?
Ou consideras tu então Lúthien
tão frágil de intenção, leve de amor?
Pelas estrelas de Elbereth no céu!
Se tu vais aqui a minha mão esquecer
e deixar-me sozinha caminhos tomar,
então Lúthien não irá para casa,
mas chorando nos bosques vagueará,
nem os perigos ouvirá, nem o riso conhecerá.
E se ela não puder ao teu lado ir
contra a tua vontade os teus desesperados pés
ela perseguirá, até que eles se encontrem,
para além de toda a esperança com amor uma vez mais
na terra ou na costa sombria."

"Não, Lúthien, mais brava de coração,
tu tornas mais difícil a partida.
O teu amor salvou-me do escuro cativeiro,
mas nunca para esse medo longínquo,
para essa mais escura mansão de todo o terror,
poderá a tua bem-aventurada luz ser conduzida."

"Nunca, nunca!" ele disse.
Mas mesmo enquanto nos seus braços ela implorava,
um som chegou como uma trovoada.

Ali Curufin e Celegorm
em súbito tumulto como o vento
cavalgavam. Os cascos dos cavalos faziam
grande barulho na terra. Com raiva e velocidade
assim enlouquecidos para leste eles agora corriam,
para encontrar o velho e perigoso caminho
entre a horrorosa Gorgoroth
e o reino de Thingol. Essa era a estrada
mais rápida para onde a sua família habitava
lá longe, onde a vigilante colina de Himring
sobre o desfiladeiro de Aglon está alta e silenciosa.

Eles viram os enamorados. Com um grito
direitos a eles viraram os seus cavalos
como se para debaixo dos enlouquecidos cascos esmagar
os amantes e o seu amor acabar.
Mas enquanto se aproximavam os cavalos desviaram-se
com narinas abertas e orgulhosos pescoços curvados;
Curufin, inclinando-se, para a sela
com poderoso braço Lúthien atirou,
e riu. Demasiado cedo; pois um salto
mais feroz que o amarelado leão
enraivecido com setas astutas,
maior do que qualquer javali
que ferido um desfiladeiro salta,
ali deu Beren, e com um rugido
saltou sobre Curufin; à volta do seu pescoço
os seus braços enredou, e ao chão
cavalo e cavaleiro deitou;
e ali eles lutaram sem um som.
Atordoada na erva Lúthien ficou
debaixo dos ramos nus e do céu;
o Noldo sentiu os sombrios dedos de Beren
apertarem a sua garganta e estrangula-lo,
e para fora os seus olhos começaram a sair, e a língua
a tossir da sua boca pendia.
Celegorm cavalgou com a sua lança,
e de amarga morte esteve Beren perto.
Com aço élfico ele quase foi morto
aquele que Lúthien ganhou do desesperado cativeiro,
mas ladrando Huan subitamente saltou
diante do seu mestre com presas
brancas a brilhar, e com pelo eriçado,
como se para um javali ou lobo olhasse.
O cavalo com terror saltou para o lado,
e Celegorm com raiva gritou:
"Amaldiçoado sejas, cão maldito, por te atreveres
contra o teu mestre dentes mostrar!"
Mas nem cão nem cavalo nem cavaleiro ousado
se aventurariam perto da raiva fria
do grande Huan feroz a guardar.
Vermelhas eram as suas mandíbulas. Eles encolheram-se,
e temerosos olharam-no de longe:
nem espada nem faca, nem cimitarra,
nem seta de arco, nem lançamento de lança,
nem mestre nem homem Huan temia.

Ali teria Curufin deixado a sua vida,
não tivesse Lúthien impedido aquele golpe.
Acordando levantou-se e docemente gritou
aflita ao lado de Beren:
"Acalma a tua raiva agora, meu senhor!
nem faças o trabalho dos abomináveis Orcs;
pois há incontáveis inimigos
da Elficidade, e eles não diminuem,
enquanto aqui nós guerreamos pela antiga maldição
enlouquecidos, todo o mundo para pior
decai e se desfaz. Façam as pazes!"

Então Beren libertou Curufin;
mas tirou-lhe o cavalo e cota de malha,
e tirou-lhe a sua faca brilhante pálida,
pendurada sem bainha, forjada de aço.
Nunca poderiam os curandeiros sarar a carne
picada por essa ponta; pois à muito tempo
que os anões a tinham feito, cantando lentos
encantamentos, onde os seus martelos caíam
tocando como sinos em Nogrod.
Ferro como madeira macia cortava,
e dividia a malha como um tecido de lã.
Mas outras mãos o seu cabo agora seguravam;
o seu mestre jazia derrubado por um mortal.
Beren levantou-o, e longe o jogou,
e gritou "Vão-se!", com língua afiada;
"Vão-se! seus renegados e tolos,
e deixai a vossa luxúria arrefecer no exílio!
Levanta-te e vai, e não trabalhes mais
como os escravos de Morgoth ou maldito Orc;
e envolve-te, orgulhoso filho de Fëanor,
em actos mais dignos do que até aqui fizestes!"
Então Beren conduziu Lúthien embora,
enquanto Huan ainda ali estava de guarda.

"Adeus," gritou Celegorm o belo,
"Que vão para longe! E é melhor
morrer esfomeado no deserto
que provar a ira dos filhos de Fëanor,
que ainda pode chegar sobre vales e colinas.
Nenhuma gema, nem donzela, nem Silmaril
na tua mão muito tempo se manterá!
Nós amaldiçoamos-te debaixo de nuvem e céu,
nós amaldiçoamos-te do despertar ao deitar!
Adeus!" Ele rápido do cavalo saltou,
o seu irmão levantou do chão;
então do arco de teixo com fio de ouro
puxou, e uma seta disparada ele mandou,
enquanto sem prestar atenção de mão em mão eles andavam;
um dardo anão cruelmente mortal.
Eles nunca se viraram nem para trás olharam.
Alto ladrou Huan, e saltando apanhou
a veloz seta. Rápida como o pensamento
outra seguiu-a cantando mortalmente;
mas Beren tinha-se virado, e saltando de repente
defendeu Lúthien com o seu peito.
Fundo se afundou o dardo na carne.
Ele caiu por terra. Eles foram-se embora,
e rindo deixaram-no onde jazia;
no entanto correram como o vento com medo e temor
da perseguidora fúria vermelha de Huan.
Apesar de Curufin com boca ferida rir,
mais tarde dessa covarde seta
ouve historias e rumores no Norte,
e os Homens lembraram-se dela na Marcha em Frente,
e a vontade de Morgoth o seu ódio ajudou.

Dai em diante nunca cão nascido
iria seguir a trompa de Celegorm
ou Curufin. Apesar de em guerra e tempestade,
apesar de toda a casa deles em ruína vermelha
cair, dai em diante Huan não mais
deitou a sua cabeça aos pés desse senhor,
mas seguiu Lúthien, brava e rápida.
Agora deitou-se ela a chorar ao lado
de Beren, e procurou parar a vaga
de sangue que ali jorrava.
A vestimenta do peito dele ela tira;
do ombro arranca a seta afiada;
a ferida com lágrimas é lavada e limpa.
Então Huan chega e traz uma folha
da melhor de todas as ervas medicinais,
que sempre verde nas clareiras da floresta
cresce com larga e esbranquiçada folha.
Os poderes de todas as ervas Huan sabia,
pois havia percorrido todos os caminhos da floresta.
Com isso a dor ele rapidamente acalmou,
enquanto Lúthien murmurando na sombra
o canto de estancar, que as esposas Élficas
há muitos anos cantavam nessas tristes vidas
de guerra e armas, tecia sobre ele.

As sombras caíram das montanhas cinzentas.
Então avançou sobre o escuro Norte
a Foice dos Valar, e em frente
cada estrela ali brilhou na noite
radiante, cintilando frias e brancas.
Mas no chão há um brilho,
uma faísca de vermelho que salta lá em baixo:
debaixo de ramos ao lado de um fogo
de madeira crepitante e sarça ardente
ai Beren jaz em profunda letargia,
caminhando e vagueando no sono.
Vigilante dobrada sobre ele acorda
uma bela dama; a sua sede ela sacia,
a sua fronte ela acaricia, e suavemente canta
uma canção mais potente do que em runas
ou na arte dos curandeiros foi alguma vez escrita.
Lentamente as vigílias nocturnas passam.
A nebulosa manhã caminha cinzenta
do amanhecer ao relutante dia.

Então Beren acordou e abriu os olhos,
levantou-se e gritou: "Debaixo de outros céus,
em terras mais terríveis e desconhecidas,
eu vagueei longamente, eu acho, sozinho
para a profunda sombra onde os mortos habitam;
mas sempre uma voz que eu conhecia bem,
como sinos, como violas, como harpas, como pássaros,
como uma tocante musica sem palavras,
chamava-me, chamava-me através da noite,
encantado puxou-me de volta para a luz!
Curou a ferida, aliviou a dor!
Agora chegámos novamente à manhã,
novas viagens outra vez nos incitam -
para perigos onde a vida pode ser ganha,
arduamente por Beren; e para ti
uma espera nos bosques eu vejo,
debaixo das árvores de Doriath,
enquanto que para sempre seguirão o meu caminho
os ecos da tua canção élfica,
onde as colinas são selvagens e as estradas longas."

"Não, agora não mais temos só como inimigo
o escuro Morgoth, mas ao desgosto,
a guerras e contendas da Elficidade
a tua busca está ligada; e morte, sem duvida,
para ti e para mim, para o ousado Huan
o fim do antigo fado destinado,
tudo isto eu prevejo que rapidamente aconteça,
se tu continuares. A tua mão levantará
e pousará no colo de Thingol a terrível
e flamejante jóia, o fogo de Fëanor,
nunca, nunca! Porquê ir?
Por que não viramos costas ao medo e tristeza
para debaixo das árvores andar e vaguear
sem tecto, com todo o mundo como casa,
sobre montanhas, ao lado dos mares,
na luz do sol, na brisa?"

Assim longamente eles falaram com corações pesados;
e no entanto nem todas as artes élficas dela,
nem ágeis membros, nem olhos cintilantes
como as trémulas estrelas nos céus molhados,
nem lábios suaves, voz encantada,
o seu propósito mudaram ou a sua escolha alteraram.

Nunca para Doriath iria ele viajar
excepto para ali guardada a deixar;
nunca para Nargothrond iria
com ela, não chegasse ali guerra e tristeza;
e nunca iria no mundo desconhecido
faze-la sofrer vagueando, cansada, descalça,
sem tecto e sem paz, aquela que ele trouxe
com amor dos reinos escondidos que ela conhecia.
"Pois o poder de Morgoth está agora acordado;
já colinas e vales estremecem,
a caçada começou, a presa é selvagem:
uma donzela perdida, uma criança élfica.
Agora Orcs e fantasmas vagueiam e espreitam
de árvore em árvore, e enchem de medo
cada sombra e buraco. Por ti procuram!
Ao pensar nisso a minha esperança esmorece,
o meu coração arrepia-se. Eu amaldiçoo o meu juramento,
eu amaldiçoo o destino que nos juntou
e atraiu os teus pés para a minha triste sorte
de fuga e vagueações na escuridão!
Agora apressemo-nos, e antes do dia
cair, tomamos o mais rápido caminho,
até às marcas da tua terra
para debaixo da faia e carvalho ficarmos
em Doriath, bela Doriath
para onde nenhum mal encontra o caminho,
sem poder para passar as atentas folhas
que caem sobre o beiral da floresta."

Então à sua vontade ela aparentemente se dobrou.
Rapidamente para Doriath eles foram,
e atravessaram as suas fronteiras. Ai pararam
descansando numa profunda e musgosa clareira;
ai deitaram-se eles protegidos do vento
debaixo de altas faias de pele sedosa,
e cantaram do amor que ainda havia de vir,
mesmo que a terra se afundasse debaixo do mar,
e separados aqui, para sempre
se encontrariam na Costa Ocidental.

Uma manhã enquanto ela dormia
sobre o musgo, como se o dia
fosse demasiado amargo para uma flor gentil
se abrir numa hora sem sol,
Beren levantou-se e beijou o seu cabelo,
e chorou, e suavemente a deixou ali.
"Bom Huan," disse ele, "guarda-a bem!
Em campo deserto nenhum asfódelo,
em espinhosa mata nunca uma rosa
durou, tão frágil e fragrante nasce.
Guarda-a do vento e da geada, e esconde-te
de mãos que agarram e empurram;
guarda-a de vagueações e desgostos,
pois o orgulho e o destino obrigam-me a ir."

O cavalo levou e cavalgou para longe,
nem se atreveu a virar; mas todo esse dia
com o coração como pedra avançou velozmente
e tomou os caminhos em direcção ao Norte.

 


XI

Outrora grande e suave uma planície estendia-se,
onde o Rei Fingolfin orgulhosamente liderou
os seus exércitos de prata no verde,
os seus cavalos brancos, as suas lanças afiadas;
os seus elmos altos de aço forjados,
os seus escudos brilhando como a lua.
Ali trompas cantavam longamente e alto,
e desafiavam tocando a nuvem
que jazia na torre norte de Morgoth,
enquanto Morgoth esperava pela sua hora.

Rios de fogo ao fim da noite
no Inverno frio e branco
sobre a planície se espalharam, e alto
o vermelho se reflectiu no céu.
Das muralhas de Hithlum eles viram o fogo,
o vapor e fumo em espirais
a elevar-se, até que na vasta confusão
as estrelas foram sufocadas. E assim pereceu,
o grande campo, tornado em pó,
areias movediças e ferrugem amarela,
em dunas sedentas onde muitos ossos
jaziam partidos entre as pedras estéreis.
Dor-na-Fauglith, Terra da Sede,
eles depois a chamaram, desolação maldita,
a sepultura sem tecto infestada de corvos
de muitos belos e muitos bravos.
Nisto as pedregosas encostas olhavam
do norte da Mortífera Floresta sob a Noite,
de sombrios pinheiros com grandes asas,
emplumadas de negro e tristes, como muitos mastros
de navios da morte envolvidos em negro
lentamente avançando numa brisa mortal.

Dai Beren inflexível agora olha
através das dunas e areias movediças,
e vê ao longe as sombrias torres
onde a medonha Thangorodrim assenta.
O esfomeado cavalo ali curvado estava,
orgulhoso garanhão élfico; temia o bosque;
e sobre a assombrada e fantasmagórica planície
nenhum cavalo voltaria a correr.
"Bom cavalo de mau mestre," disse ele,
"despedimo-nos aqui! Levanta a tua cabeça,
e vai para o vale do Sirion,
por onde viemos, passando a pálida ilha
onde Sauron reinou, para águas doces
e ervas longas debaixo dos teus pés.
E se não mais encontrares Curufin,
não fiques triste! pois livre com veado e corça
irás vaguear, deixando trabalhos e guerra,
e sonha que estás de volta a Valinor,
donde veio outrora a tua poderosa raça
dos terrenos cercados por montanhas de Tauros."

Ainda ali Beren se sentava, e ele cantou,
e alto o seu solitário canto soou.
Apesar dos Orcs poderem ouvir, ou lobos a rondar,
ou qualquer uma das maléficas criaturas
que se escondem e olham da sombra
de Taur-nu-Fuin, ele não se preocupou,
pois pensava deixar a luz e o dia,
coração sombrio, amargo, feroz e certo da morte.

"Despeço-me aqui, das folhas das árvores,
com a vossa musica na brisa matinal!
Adeus folha, flor e erva
que vêem as estações a passar;
das águas murmurantes sobre as pedras,
e de lagos que silenciosamente estão sós!
Adeus montanha, vale e planície!
Adeus vento, gelo e chuva,
névoa e nuvem, e ar do céu;
das estrelas e lua tão cegamente belas
que ainda olharão do céu
para a grande terra, quer Beren morra -
quer Beren viva, ainda que fundo,
fundo, de onde não chega daqueles que choram
nenhum triste eco, jazer e sufocar
no eterno escuro e fumo.
Adeus doce terra e céu do Norte,
eternamente abençoados, pois aqui se deitou,
e aqui com ágeis pernas correu,
debaixo da Lua, debaixo do Sol,
Lúthien Tinúviel,
mais bela do que a língua mortal pode exprimir.
Mesmo que o mundo caísse todo em ruínas,
e fosse dissolvido e arremessado de novo,
desfeito, para o antigo abismo,
mesmo assim a sua feitura valera a pena,
pela alvorada, pelo crepúsculo, pela terra e pelo mar,
e por Lúthien ter durante algum tempo existido!"

A sua espada ele levantou alta na mão,
e dasafiante sozinho ali ficou
diante da ameaça do poder de Morgoth;
e sem medo amaldiçoou-o, salão e torre,
principio, fim, coroa e raiz;
então virou-se para descer a encosta
abandonando o medo, esquecendo a esperança.

"Á, Beren, Beren!" chegou um som,
"quase que demasiado tarde eu te encontrava!
Ó orgulhosa e destemida mão e coração,
ainda não é adeus, ainda não nos separamos!
Não é assim que os de raça élfica
esquecem o amor que abraçaram.
Um amor é meu, como um grande poder
é teu, o de abalar portão e torre
da morte com um desafio fraco e frágil
que ainda dura, e que não vai falhar
nem ceder, invencívelmente atirado
às fundações do mundo.
Amado tolo! fugir para procurar
tal propósito; em poder tão fraco
não confiar, pensando em salvar
do amor a tua amada, aquela que abraça a sepultura
e o tormento mais depressa do que à guarda
de amáveis intenções se deixa ficar, barrada,
sem asas e impotente para o ajudar
para cujo suporte o seu amor foi feito!"

Assim de volta a ele chegou Lúthien:
eles encontraram-se para além dos caminhos dos Homens;
à beira do terror estavam
entre o deserto e a floresta.

Ele olhou para ela, a sua cara levantada
debaixo dos seus lábios num doce abraço:
"Pela terceira vez amaldiçoo o meu juramento," ele disse,
"que te trouxe para debaixo da sombra!
Mas onde está Huan, onde está o cão
a quem te confiei, a quem eu liguei
pelo amor a ti para te manter longe
de perigosas viagens ao inferno?"

"Eu não sei! Mas o coração do bom Huan
é sensato, mais gentil do que tu,
sombrio senhor, mais aberto a suplicas!
No entanto longamente eu lhe supliquei,
até ele me trazer, como pudesse,
pelo teu rastro - um bom cavalo
Huan daria, com passo gracioso:
tu haverias de rir ao ver nos correr,
como um Orc num lobo a cavalgar como fogo
noite após noite através de charcos e pântanos,
através de desertos e florestas! Mas quando eu ouvi
o teu claro canto - (sim, todas as palavras
sobre Lúthien que alguém imprudentemente gritou,
e ouvindo o mal ferozmente desafiar) -
ele pôs me no chão, e apressou-se para longe;
mas para onde foi eu não sei."

Não esperaram muito, pois Huan chegou,
com respiração ofegante, olhos como chamas,
com medo que aquela que ele deixou
de ajudar fosse caçada por alguma coisa má
antes dele voltar. Agora ali ele pôs
diante dos pés deles, tão escuras como sombras,
duas horríveis formas que ele tinha ganho
naquela alta ilha no Sirion:
uma grande pele de lobo - o seu selvagem pelo
era longo e entrançado, escuro era o feitiço
que encharcava a horrível capa e pele,
o manto de lobisomem de Draugluin;
a outra era uma vestimenta de morcego
com grandes asas digitadas, com farpas
como unhas de ferro na extremidade de cada articulação -
tais asas apareciam enquanto escuras nuvens se estendiam
contra a lua, quando no céu
da Mortífera Floresta sob a Noite esguichando voavam
os mensageiros de Sauron.

"Que trouxestes tu,
bom Huan? Qual é o teu pensamento oculto?
De troféus de bravura e de grandes feitos,
quando tu vencestes Sauron, que necessidade
há aqui no deserto?" Isto Beren falou,
e uma vez mais as palavras em Huan despertaram:
a sua voz era como os profundos sinos
que tocam nas cidadelas de Valmar:

"De uma bela gema tu tens que ser ladrão,
de Morgoth ou de Thingol, relutante ou de bom grado;
tu tens aqui de escolher entre o amor e o juramento!
Se não queres o juramento quebrar,
então Lúthien deve morrer
sozinha, ou a morte contigo desafiar
ao teu lado, marchando no teu destino
que escondido diante de ti espera.
Desesperada a busca, mas ainda não louca,
a não ser que tu, Beren, corras assim vestido
com vestes mortais, aspecto mortal,
insensato e desaconselhado, para com a morte dançar.
Olhai! bom era o conselho de Felagund,
mas pode ser melhorado, se o conselho
de Huan vocês se atreverem a tomar,
e rapidamente uma horrível transformação fizerem
para formas amaldiçoadas, sujas e vilãs,
do lobisomem da Ilha do Feiticeiro,
e do monstruoso morcego impiedoso
com fantasmagóricas asas e garras do inferno.
A tão escura situação, ai de mim! são trazidos
vocês que eu amo, por quem eu lutei.
Nem mais longe com vocês posso eu ir -
quem é que viu alguma vez um grande cão
em amizade ao lado de um lobisomem
para os sombrios portões de Angband a caminhar?
No entanto o meu coração diz-me que à porta
o que lá encontrarem, será o meu destino
eu também ver, apesar de para aquela porta
os meus pés nunca mais me levarem.
Escura é a esperança e turvos os meus olhos,
eu não vejo claramente o que o futuro trás;
no entanto talvez de volta o vosso caminho os traga
para além de toda a esperança para Doriath,
e para esse lugar, talvez, nós os três nos encaminharemos,
e nos encontremos outra vez antes do fim."

Eles ficaram maravilhados por ouvirem
a sua poderosa voz tão profunda e clara;
então subitamente ele desapareceu da vista deles
mesmo ao cair da noite.

O seu temível conselho então eles tomaram,
e as suas próprias formas graciosas esqueceram;
a pele de lobisomem e asas de morcego
prepararam-se para vestir, arrepiados.
Magia élfica Lúthien teceu,
temendo que a suja vestimenta carregada de maldade
a uma horrível loucura conduzisse os seus corações;
e ali ela forjou com artes élficas
uma forte defesa, um cativante poder,
cantando até à meia-noite.

Logo que vestiu a capa de lobo,
Beren caiu no chão babando-se,
língua vermelha e esfomeado; mas com
uma dor e anseio nos olhos,
um olhar de horror quando ele vê
uma forma de morcego rastejando aos seus joelhos
e arrastando as suas asas enrugadas.
Então uivando sob a Lua ele salta
nas quatro patas, rápido, de pedra em pedra,
da colina para a planície - mas não sozinho:
uma escura forma roçou a encosta descendo,
e pairando esvoaçou sobre ele.

Cinzas, poeira e dunas sedentas
queimadas e secas sob a Lua,
debaixo do frio e rápido ar
peneirento e suspirante, desolado e nu;
com pedras fustigadas e areia sufocante,
com ossos espalhados foi construída essa terra,
sobre a qual agora corre com pele poeirenta
e língua pendurada uma forma do inferno.
Muitas quentes léguas ainda jaziam diante deles
quando o doentio dia apareceu outra vez;
muitas sufocantes milhas ainda se estendiam pela frente
quando a noite fria uma vez mais se espalhou
com sombra duvidante e som fantasmagórico
que assobiava e passava sobre dunas e montes.
Uma segunda manhã com nuvens e vapor
nasceu, quando tropeçando, cego e fraco,
uma forma de lobo chegou cambaleando
e alcançou os contrafortes do Norte;
sobre as suas costas ali dobrada jazia
uma coisa enrugada que olhava o dia.

As rochas estavam erguidas como dentes de osso,
e garras que arranhavam de bainhas abertas,
ao lado da triste estrada
que em frente levava a essa habitação
muito dentro da escura Montanha
com túneis de medo e fortes portões.
Eles rastejaram para dentro de uma ameaçadora sombra,
e encolhidos no escuro deitaram-se.
Longamente se esconderam ao lado do caminho,
e tremeram, sonhando com Doriath,
com riso e musica e ar limpo,
e em folhas flutuantes belos pássaros a cantar.
Eles acordaram, e sentiram o som retumbante,
o eco batedor muito fundo
tremia debaixo deles, o vasto rumor
das forjas de Morgoth; e com medo
eles ouviram o bater de pés pesados
que ferrados com ferro caminhavam por aquela estrada:
os Orcs iam para o roubo e guerra,
e os capitães Balrogs marchavam à sua frente.

Eles agitaram-se, e sob as nuvens e sombras
ao entardecer avançaram, e não mais pararam;
como coisas velozes numa escura missão
subindo as longas encostas com pressa eles foram.
Sempre com abruptos precipícios nos lados,
onde aves de carniça se sentavam e gritavam;
e abismos negros com fumo elevando-se,
onde apareciam enroscadas formas de serpentes;
até que por fim nessa grande escuridão,
pesada como uma pendente maldição,
que cai aos pés das Thangorodrim
como um trovão na raiz das montanhas,
eles chegaram, como que a um escuro pátio
cercado com grandes torres, fortaleza sobre fortaleza
em precipícios fortificados, a essa última planície
que se abre, abismal e insana,
diante da ultima mais alta muralha
dos incomensuráveis salões de Bauglir,
debaixo da qual na escuridão espera
a gigantesca sombra das suas portas.

 


XII

Naquela vasta sombra de antigamente
Fingolfin estava: o seu escudo ele usava
com campo de azul celeste e estrelas
de cristal brilhando pálidas muito ao longe.
Dominando a ira e o ódio
desesperadamente ele bateu naquela porta,
o rei Noldor, ali esperando sozinho,
enquanto infindáveis fortalezas de pedra
engoliam o fino e claro toque penetrante
da trompa de prata em boldrié verde.
O seu desesperado desafio sem medo gritou
Fingolfin ali: "Vem, abre,
escuro rei, as tuas tenebrosas portas de bronze!
Avança, aquele que a terra e os céus abominam!
Avança, ó monstruoso senhor cobarde,
e luta com a tua própria mão e espada,
seu comandante de hostes de escravos bandidos,
seu tirano protegido com fortes muralhas,
seu inimigo de Deuses e raça élfica!
Eu espero-te aqui! Vem! Mostra a tua cara!"

Então Morgoth veio. Pela última vez
nessas grandes guerras ele atreveu-se a subir
do profundo trono subterrâneo,
o barulho dos seus pés um som
de um retumbante terramoto profundo.
Armadura negra, alto como uma torre, coroado de ferro
ele avançou; o seu grande escudo
um vasto campo preto sem brasão
com uma sombra como uma trovoada;
e sobre o cintilante rei se curvou,
alto no ar uma maça ele arremessou
esse martelo do mundo subterrâneo,
Grond. Direito ao chão desceu
como um raio, e desfez
as rochas por baixo; fumo elevou-se,
um buraco abriu-se, e um fogo subiu.

Fingolfin como uma estrela cadente
debaixo de uma nuvem, um brilho branco
nasce ao seu lado, e Ringil é desembainhada
como gelo que brilha frio e azul,
a sua espada feita com perícia élfica
para penetrar a carne com frieza mortal.
Com sete feridas rasgou o seu inimigo,
e sete grandes gritos de dor
ecoaram nas montanhas e a terra tremeu
e os assustados exércitos de Angband vacilaram.
No entanto os Orcs iriam depois rindo contar
o duelo às portas do inferno;
apesar das canções élficas desde então feitas
antes desta - quando tristemente foi deitado
o poderoso rei no monte elevado,
e Thorondor, a Águia do céu,
as terríveis noticias ter trazido e contado
à lamentosa Elficidade de outrora.
Três vezes foi Fingolfin com grandes golpes
aos joelhos dobrado, três vezes ele se levantou
ainda saltando por baixo da nuvem
para no ar segurar a estrela brilhante, orgulhoso,
o seu escudo partido, o seu elmo fendido,
que trevas nem poderes puderam esmagar
até toda a terra estar esventrada e lacerada
com buracos à volta dele. Ele estava esgotado.
Os seus pés tropeçaram. Ele caiu destroçado
sobre o chão, e no seu pescoço
um pé como um monte caído foi posto,
e ele foi esmagado - ainda não conquistado;
um último desesperado golpe ele deu:
o grande pé a pálida Ringil cortou
acima do calcanhar, e preto o sangue
jorrou como de uma fonte fumegante.
Manco anda para sempre daquele golpe
o grande Morgoth; mas o rei ele quebrou
e cortado e mutilado tê-lo ia atirado
aos lobos devoradores. Olhai! do trono
que Manwë mandou construir no alto,
num pico não escalado debaixo do céu,
para Morgoth vigiar, agora para baixo voava
Thorondor o Rei das Águias, precipitando-se,
com o cortante bico de ouro ele bateu
na cara de Bauglir, então para cima ele voou
em asas de trinta braças de largura
levando para longe, apesar de alto eles gritarem
o poderoso corpo, o Rei Elfo;
e onde as montanhas fazem um anel
longe no sul em torno dessa planície
onde depois Gondolin reinou,
cidade fortificada, a grande altura
sobre um vertiginoso pico branco
num monte funerário o poderoso morto
ele deitou sobre a cabeça da montanha.
Nunca Orc nem demónio depois se atreveram
a essa passagem subir, sobre a qual olhava
o alto e sagrado tumulo de Fingolfin,
até se cumprir o destino de Gondolin.

Assim recebeu Bauglir a vincada cicatriz
que o seu escuro rosto desfigurou,
a assim o seu coxeante passo ganhou;
mas depois profundamente ele reinou
nas trevas sobre o seu trono escondido;
e com trovões passeava nos seus salões de pedra,
lentamente construindo ali o seu vasto desígnio
o mundo em escravidão confinar.
Comandante de exércitos, senhor do desgosto,
nenhum descanso agora ele dava fosse escravo ou inimigo;
a sua vigia e guarda ele três vezes aumentou,
os seus espiões foram enviados do Oeste ao Leste
e noticias trouxeram de todo o Norte,
quem lutava, quem caia; quem o desafiava,
quem se escondia; quem tinha tesouros;
se donzela era bela ou orgulhoso o senhor;
bem perto todas as coisas ele sabia, todas os corações
bem enredados em artes maléficas.
Só Doriath, para lá do véu
tecido por Melian, nenhum ataque
podia sofrer ou entrar, só rumores fracos
de coisas ali se passando chegavam a ele.
Um rumor ruidoso e noticias claras
de outros movimentos longe e perto
entre os seus inimigos, e ameaça de guerra
dos sete filhos de Fëanor,
de Nargothrond, de Fingon ainda
reunindo os seus exércitos sobre as colinas
e debaixo das árvores na sombra de Hithlum,
estas diariamente chegavam. Ele ficou com medo
apesar do seu poder uma vez mais; a fama
de Beren perturbou os seus ouvidos, e sob
as florestas era ouvido
o grande Huan a ladrar. Então chegou a noticia
muito estranha de Lúthien
a vaguear por bosques e vales,
e o propósito de Thingol longamente ele ponderou,
e maravilhou-se, pensando naquela donzela
tão bela, tão frágil. Um capitão terrível,
Boldog, ele mandou com espada e fogo
para a marca de Doriath; mas a batalha caiu
subitamente sobre ele: noticias
nunca vieram sobre a hoste de Boldog,
e Thingol humilhou o orgulho de Morgoth.
Então o seu coração de duvida e ira ficou cheio:
novas noticias de desalento ele soube,
como Sauron estava derrotado e a sua forte ilha
partida e pilhada, como com engano
os seus inimigos agora o engano atacavam; e espiões
ele temia, até cada Orc aos seus olhos
parecer suspeito. Ainda sob
as florestas chegava a fama
de Huan a ladrar, o cão de guerra
que os Deuses soltaram em Valinor.

Então Morgoth pensou no destino de Huan
à muito falado, e no escuro ele trabalhou.
Ferozes alcateias esfomeadas ele tinha
que em formas de lobo e carne estavam vestidas,
mas terríveis espíritos demoníacos continham;
e sempre selvagens as suas vozes soavam
nas cavernas e montanhas onde estavam guardados
e infindáveis rosnadelas ecoavam.
Destes um cachorro ele escolheu e alimentou
com a sua própria mão de corpos mortos,
da bela carne de Elfos e Homens,
até enormemente ele crescer e na sua toca
não mais caber, mas ao lado da cadeira
de Morgoth se deitou e olhava,
nem permitia a Balrog, Orc ou besta
tocar-lhe. Muitos horríveis banquetes
ele teve debaixo desse terrível trono,
cortando a carne e roendo ossos.
Ali profundos encantamentos nele caíram,
a angustia e o poder do inferno;
muito maior e terrível ele se tornou
com olhos vermelhos como fogo e mandíbulas incandescentes,
um bafo como vapores da sepultura,
do que qualquer besta da floresta ou caverna,
do que qualquer besta da terra ou inferno
que em qualquer tempo tenha existido,
ultrapassando toda a sua raça e família,
a horrível tribo de Draugluin.

Carcharoth, o Goela Vermelha, lhe chamam
as canções dos Elfos. E ainda não tinha ele vindo
desastroso, voraz, das portas
de Angband. Ai sem dormir ele aguarda;
onde esses grandes portais ameaçadoramente assomam
os seus olhos vermelhos ardiam na escuridão,
os seus dentes estão nus, as suas mandíbulas abertas;
e ninguém podia andar, rastejar, deslizar,
ou confiar em poderes para a sua ameaça passar
para entrar nas vastas masmorras de Morgoth.

Agora, olhai! diante dos seus atentos olhos
uma furtiva forma ele vê ao longe
que rasteja da sombria planície
e para olhando, depois recomeça
a aproximar-se, uma forma de lobo
fatigado, sujo, com mandíbulas abertas;
e sobre ele um morcego em grandes anéis
lentamente voa com uma grande sombra.
Tais formas eram muitas vezes vistas a vaguear,
nesta terra o seu covil e casa nativa;
e no entanto o seu espírito com um estranho desconforto
é cheio, e agourentos pensamentos o apanham.

"Que doloroso terror, que horrível guarda
pôs Morgoth à espera, que barrou
as suas portas contra todos os que querem entrar?
Longos caminhos percorremos para no fim encontrarmos
a própria goela da morte que se abre
entre nós e a nossa busca! No entanto esperanças
nós nunca tivemos. Não há regresso!"
Assim fala Beren, quando no seu caminho
ele para e vê com olhos de lobisomem
ao longe o horror que ali espera.
Então desesperado em frente ele avança,
rodeando os vastos negros buracos abertos,
onde o Rei Fingolfin ruinosamente caiu
sozinho diante das portas do inferno.

Diante dessa portas sozinhos eles estavam,
enquanto Carcharoth com espírito duvidoso
olhava para eles, e rosnando falou,
e ecos nos arcos acordou:
"Salve! Draugluin, senhor da minha família!
Passou muito tempo desde que aqui
estivestes. Sim, é estranho
ver-te agora: uma dolorosa mudança
te aconteceu, senhor, outrora eras tão terrível,
tão impetuoso, e tão rápido como fogo,
a correr em florestas ou desertos, mas agora
de cansaço estás dobrado e encurvado!
É difícil recuperar a respiração
quando os dentes de Huan afiados como a morte
te rasgam a garganta? Que rara sorte
te traz de volta vivo para aqui viajar -
se Draugluin tu és? Aproxima-te!
Eu quero saber mais, e ver-te melhor."

"Quem és tu, cachorro esfomeado,
para barrar o caminho a quem devias ajudar?
Eu viajo com novas e urgentes noticias
para Morgoth do assombrador de florestas Sauron.
Desvia-te! pois eu tenho que entrar; ou então vai
rapidamente lá abaixo a minha chegada anunciar!"

Então lentamente ele se levantou,
olhos brilhando sombriamente com espírito maléfico,
e contrafeito rosnou: "Draugluin,
se tal fores, podes entrar!
Mas o que é isso que rasteja ao teu lado,
sorrateiro como se quisesse esconder-se debaixo de ti?
Apesar das criaturas aladas para a frente e para trás
muitas aqui passarem, eu conheço-as todas.
Eu não conheço essa. Quieto, vampiro, quieto!
Eu não gosto da tua laia nem de ti. Vamos, diz
que furtiva missão te trouxe aqui,
seu verme alado, ao rei!
Pequena coisa, eu não duvido, não importa se ficas
ou entras, ou se nas minhas mãos
eu te esmago como uma mosca na parede,
ou mordo as tuas asas e te deixo a rastejar."

Enorme, fétido, mais perto ele se chegou.
Nos olhos de Beren ali brilhou uma chama;
o pelo no seu pescoço eriçou-se.
Nada podia tapar a bela fragrância,
o odor de flores imortais
numa eterna primavera debaixo de chuvas
que cintilam como prata na erva
em Valinor. Por onde passava
Tinúviel, tal ar lá ficava.
Daquele imundo e aguçado farejo
a sua súbita docidade nenhum disfarce
encantado para enganar os olhos
a podia guardar, se perto aquelas narinas se aproximassem
farejando em duvida. Isto Beren sabia
na beira do inferno preparado
para a batalha e morte. Ali ameaçadoras olhavam
essas horríveis formas, com ódio mutuo,
o falso Draugluin e Carcharoth
quando, olhai! uma maravilha aconteceu:
algum poder, vindo da antiga
raça divina para lá do Oeste,
subitamente possuiu Tinúviel
como um fogo interior. O escuro vampiro
ela deixou, e como uma cotovia
cortando através da noite em direcção à aurora ela apareceu,
enquanto que pura, como prata trespassando o coração, cantava
a sua voz, como essas longas trompas afiadas
vibrantes, insuportáveis, invisíveis
nos frios ares da manhã. A sua capa
por mãos brancas tecida, como um fumo,
como um encantamento, cativante,
envolvida pelo crepúsculo, caindo
dos seus braços levantados, enquanto ela andava,
em frente desses horríveis olhos ela a deitou,
uma sombra e uma névoa de sonhos
onde entrançados estavam o brilho das estrelas.

"Dorme, ó infeliz e torturado escravo!
Ser amaldiçoado, fraqueja e deixa,
deixa a angustia, ódio, dor,
deixa a cobiça, a fome, laços e correntes,
e mergulha nesse olvido, negro e fundo,
o poço, o escuro abismo do sono!
Por uma breve hora escapa da rede,
esquece o terrível destino da vida!"

Os seus olhos fecharam-se, os seus membros soltaram-se;
ele caiu como um boi a correr que tropeça
e tropeçando vai caindo ao chão.
Como se morto, imóvel, sem um som
esticado no chão ele jazia, como se um raio
tivesse caído sobre um enorme carvalho.

 


XIII

Para a vasta e ecoante escuridão,
mais horrível do que muitos túmulos escavados
em labirínticas pirâmides
onde a eterna morte se esconde,
descendo terríveis corredores que serpenteiam
para uma escura ameaça oculta;
para as profundas raízes da montanha,
devorada, atormentada, perfurada e escavada
por um agitado verme nascido das pedras;
descendo para as profundezas eles foram sozinhos.
O arco com cinzenta sombra
eles viram afastar-se e diminuindo desaparecer;
o rumor das tempestuosas forjas cresceu,
um ardente vento ali soprou
sujos vapores elevando-se de grandes buracos.
Grandes formas ali estavam como trolls esculpidos
enormemente escavados na rocha partida
para formas que dos mortais zombavam;
monstruosas e ameaçadoras, enterradas,
em todas as esquinas elas silenciosamente olhavam
com inconstantes olhares que saltavam e morriam.
Ali martelos tocavam, e línguas ai gritavam
com sons de pedras a bater; ai chorando
fracamente de muito lá em baixo, clamavam e falhavam
entre o entrechocar do ferro
as vozes dos torturados cativos de Angband.

Alto se elevou um tumulto de riso áspero,
abominável e no entanto sem remorso;
alto chegou um cantar rude e feroz
como espadas de terror a perfurar almas.
Vermelho era o brilho através das portas abertas
como luz do fogo reflectida em chãos de bronze,
e subindo os arcos como torres se elevava
para a escuridão invisível, para a grande cúpula abobadada
envolta em tremidos fumos e vapores
apunhalada com inconstantes raios de luz.
Ao salão de Morgoth, onde uma horrível festa
ele organizava, bebendo o sangue de bestas
e as vidas de Homens, eles tropeçando chegaram:
os seus olhos estavam confusos com o fumo e chamas.
Os pilares, erguendo-se como monstruosas costas
para suportar os imensos andares da terra,
eram demoniacamente esculpidos, talhados com arte
igual à que enche os pesadelos:
eles subiam como árvores para o ar,
cujos troncos estão enraizados em desespero,
cuja sombra é morte, cujo o fruto é maldito,
cujos ramos são como serpentes envoltas em dor.
Debaixo deles armados com lança e espada
estava a hoste de Morgoth com armaduras negras:
o fogo nas laminas e nos escudos
era vermelho como o sangue num campo de batalha.
Debaixo de uma monstruosa coluna espreitava
o trono de Morgoth, e os condenados
e moribundos arquejavam no chão:
o seu horrível descanso para os pés, o roubo da guerra.

À sua volta sentavam-se os seus terríveis capitães,
os Balrogs com jubas de fogo,
mãos vermelhas e na boca presas de aço;
lobos devoradores estavam deitados aos seus pés.
E sobre a hoste do inferno ali brilhava
com uma radiância fria, clara e esvanecida,
os Silmarils, as gemas do destino,
aprisionadas na coroa do ódio.

Olhai! através dos horríveis portais sombrios
subitamente uma sombra esvoaçou e fugiu;
e Beren arquejou – ele estava sozinho,
com a rastejante barriga no chão:
uma forma de morcego, silenciosa, voou
para onde os grandes ramos dos pilares cresciam,
entre os fumos e os vapores.
E como se na margem de escuros sonhos
uma imperceptível sombra invisível cresce
para nuvens de uma vastidão incomoda, e desgraças
são sentidas, indescritíveis, rolando como uma maldição
sobre a alma, então naquela escuridão
as vozes param, e o riso morre
lentamente para silêncios que muitos olham.
Uma duvida oculta, um medo disforme,
tinha entrado nas suas temíveis cavernas,
e crescia, e elevava-se sobre os amedrontados,
fazendo ouvir no coração as sonoras trompas
dos deuses esquecidos. Morgoth falou,
e como um trovão os silêncios quebrou:
“Sombra, desce! E não penses
iludir os meus olhos! Ou em vão te afastares
do olhar do teu Senhor, ou procurares esconderijos.
A minha vontade por ninguém pode ser desafiada.
Nem esperança nem fuga aqui aguardam
aqueles que sem autorização passam a minha porta.
Desce! antes da raiva te rebentar as asas,
sua tola, fraca, coisa com forma de morcego,
e no entanto sem morcego lá dentro! Vem para baixo!”

Planando lentamente sobre a sua coroa de ferro,
relutantemente, tremendo e pequena,
Beren ali viu a sombra cair,
e poisar diante do hediondo trono,
uma fraca e medrosa coisa, sozinha.
E quando para ai o grande Morgoth deitou
o seu escuro olhar, ele tremendo foi,
com barriga no chão, com frio suor molhado
sobre o seu pelo, e rastejando se encolheu
debaixo da escuridão daquele assento,
debaixo da sombra daqueles pés.

Tinúviel falou, um agudo, fino, som
perfurando aqueles silêncios profundos:
“Uma legitima viajem aqui me trouxe;
das escuras mansões de Sauron eu parti,
da sombra de Taur-nu-Fuin eu viajei
para estar diante da tua grande cadeira!”

“O teu nome, seu mendigo estridente, o teu nome!
Notícias suficientes de Sauron de lá chegaram
ainda à pouco. Que quer ele agora?
Porquê mandar tal mensageiro como tu?”

“Thuringwethil eu sou, aquela que lança
uma sombra sobre a face aterrorizada
da pálida lua na condenada terra
de Beleriand.”

“Mentirosa és tu, pois não tecerás
enganos diante dos meus olhos. Agora deixa
a tua forma e falsa vestimenta, e fica
revelada, e entregue na minha mão!”

Ali aconteceu uma lenta e tremenda transformação:
a vestimenta de morcego escura e estranha
foi solta, e lentamente encolheu e caiu
tremendo. Ela ficou revelada no inferno.
Sobre os seus esbeltos ombros pendia
o seu cabelo sombrio, e à sua volta
a sua sombria capa, onde brilhava palidamente
a luz das estrelas apanhada no magico véu.
Vagos sonhos e suaves sonos
caíam docemente dai, em fundas masmorras
um odor roubado de flores élficas
de vales élficos onde chuvas de prata
pingam suavemente através dos ares do entardecer;
e à volta ali rastejavam com olhares gananciosos
escuras formas com terríveis sons esfomeados.

Com braços elevados e cabeça baixa
então suavemente ela começou a cantar
um tema de sono e sonolência,
errante, tecido com feitiços mais fortes
do que as canções que em antigos vales
Melian outrora o crepúsculo encheu,
profundo, insondável e calmo.

Os fogos de Angband estremeceram e morreram,
consumindo-se até à escuridão; através dos grandes
e esburacados salões ali rolavam desfraldadas
as sombras do sub mundo.
Todos as movimentos pararam, todos os sons acabaram,
excepto o vaporoso bafo de Orc e besta.
Um fogo na escuridão ainda persistia:
os vigilantes olhos de Morgoth brilhavam;
um som os silêncios quebrou:
a triste voz de Morgoth falou.

“Então Lúthien, então Lúthien,
uma mentirosa como todos as Elfos e Homens!
No entanto bem-vinda, bem-vinda, ao meu salão!
Eu tenho um uso para cada escravo.
Que novidades de Thingol no seu buraco
espreitando timidamente como um rato?
Que nova loucura está na sua mente,
para não conseguir guardar os seus cegos filhos
de se perderem assim? Ou não conseguirá imaginar
melhor plano para os seus espiões?”

Ela vacilou, e parou a canção.
“A estrada,” ela disse, “foi selvagem e longa,
mas Thingol não me mandou, nem sabe
que caminhos a sua rebelde filha tomou.
No entanto todas as estradas e caminhos levam
ao Norte por fim, e aqui por necessidade
eu tremendo cheguei com humilde semblante,
e aqui diante do teu trono eu me curvo;
pois Lúthien tem muitas artes
para o doce conforto dos corações reais.”

“E aqui por necessidade tu ficarás
agora, Lúthien, com alegria ou dor –
ou dor, o merecido castigo para todos,
para o rebelde, ladrão, e altivo escravo.
Porque não deverias tu partilhar o nosso destino
de desgosto e trabalho? Ou deveria eu poupar
os teus esbeltos membros e frágil corpo
ao terrível tormento? Qual a utilidade
de aqui tu cantares as tuas murmurantes canções
e riso tolo? Fortes menestréis
estão ao meu serviço. No entanto eu vou dar
um breve adiamento, um tempo para viver,
pouco tempo, apesar de custosamente adquirido,
a Lúthien a bela e clara,
um belo brinquedo para as horas ociosas.
Em preguiçosos jardins muitas flores
como tu estão os amorosos deuses habituados
a beijar docemente, e a deita-las então magoadas,
perdendo a sua fragrância, para debaixo dos pés.
Mas nós aqui raramente encontramos tais belezas
entre os nossos antigos e árduos trabalhadores,
da ociosidade dos deuses barrados.
E quem não quereria provar o doce mel
nos lábios, ou esmagar com os pés
o suave tecido fino de pálidas flores,
aliviando como os deuses as infindáveis horas?
A! amaldiçoados sejam os Deuses! Ó feroz fome,
Ó cegante sede e fogo eterno!
Por um momento tu pararás, e saciarei
o teu ferrão com este petisco que aqui está!”

Nos seus olhos o fogo para chamas foi aumentado,
e em frente ele esticou a sua mão de bronze.
Lúthien como uma sombra desviou-se para o lado.
“Não é assim, ó rei! Não é assim!” ela gritou,
“que os grandes senhores ouvem os humildes pedidos!
Pois cada menestrel tem o seu tom;
e alguns são fortes e outros são suaves,
e cada um levaria a sua canção ao alto,
e cada um deveria ser ouvido por um tempo,
apesar de rude a nota, e leve a palavra.
Mas Lúthien tem hábeis artes
para o doce conforto dos corações reais,
Agora ouvi!” E as suas asas ela apanhou
agilmente subindo, e rápida como o pensamento
esgueirou-se do seu alcance, e planando em círculos,
flutuando diante dos seus olhos, ela teceu
uma intrincada dança alada, e apressou-se
à volta da cabeça coroada de ferro.
Subitamente a sua canção começou novamente;
e suavemente chegou pingando como um orvalho
descendo de onde estava no alto daquele salão abobadado
a sua voz encantada, magica,
e cresceu para murmurantes torrentes de prata
pálida caindo em escuros lagos de sonhos.

Ela deixou a sua esvoaçante vestimenta cair,
enredada com feitiços de sono,
enquanto à volta do escuro vazio ela voava e girava.
De parede em parede ela virava e planava
numa tal dança como nunca Elfo ou fada
tinham antes feito, nem desde esse dia fizeram;
do que a rápida andorinha, do que o morcego
que ao anoitecer esvoaça na escurecida casa,
mais silenciosamente, mais estranha e bela
do que as sílfides donzelas do Ar
cujas asas no celestial salão de Varda
com rítmicos movimentos caem e batem.
Cai o encolhido Orc, e o orgulhoso Balrog;
todos os olhos se fecharam, todas as cabeças se curvaram;
os fogos dos corações e mandíbulas esmoreceram,
e sempre como um pássaro ela vibrou
por cima de um esquecido mundo sem luz
por um êxtase encantado possuída.

Todos os olhos se fecharam, excepto aqueles que brilhavam
debaixo das sobrancelhas de Morgoth, e olhavam
lentamente com espanto as maravilhas à sua volta,
e lentamente eram enredados num encantamento.
A sua vontade vacilou, o seu fogo falhou,
e enquanto debaixo das sobrancelhas eles se desvaneciam,
os Silmarils com luz viva
eram claramente acesos, e num brilho crescente,
brilharam como as estrelas que no Norte
acima dos vapores da terra saltam em frente.

Então flamejando eles subitamente caíram,
para baixo, sobre o chão do inferno.
A escura e grande cabeça estava curvada;
como o topo da montanha debaixo de uma nuvem
os ombros cederam, a vasta forma
caiu, como quando numa imensa tempestade
enormes penhascos em ruína deslizam e caem;
e prostrado ficou Morgoth no seu salão.
A sua coroa ali rolou sobre o chão,
uma roda de trovões; então todo o som
morreu, e um silencio cresceu tão fundo
como se o próprio coração da Terra dormisse.

Debaixo do vasto e vazio trono
as serpentes jaziam como pedras torcidas,
os lobos como corpos sujos estavam espalhados;
e ali jazia Beren desmaiado:
nenhum pensamento, nenhum sonho nem cega sombra
se moviam na escuridão da sua mente.
“Vem, vem! A hora chegou,
e o poderoso senhor de Angband está caído!
Acorda, acorda! Pois nós dois encontramo-nos
sozinhos diante do horrível assento.”
Esta voz chegou às profundezas
onde ele jazia afogado em poços de sono;
uma mão suave e fresca como flores
passou sobre a sua face, e o calmo lago
de sonolência vacilou. Logo despertou
a sua mente; dali rastejou.
A pele de lobo ele joga para o lado
e põe-se sobre os pés, e longamente
olhando por entre a escuridão sem som
ele arquejou como um vivo fechado num túmulo.
Ali ao seu lado ele sentiu-a diminuir,
sentiu Lúthien tremendo cair,
a sua força e magia estavam fracas e gastas,
e rapidamente os seus braços a seguraram.

Diante dos seus pés ele viu espantado
as gemas de Fëanor, que flamejavam
com branco fogo cintilando na coroa
do poderoso Morgoth agora caído.
Para mover aquele vasto elmo de ferro
ele não teve forças, e dai aterrorizado
ele lutou com dedos para soltar
a recompensa da sua desesperada busca,
até que lhe vem ao coração a lembrança
daquela fria manhã quando ele lutou
com Curufin; então do seu cinto
a faca sem bainha ele tira, ajoelha-se,
e tenta a sua dura ponta, frieza cortante,
sobre a qual em Nogrod canções tinham rolado
dos armeiros anões cantando lentamente
ao som dos martelos à muito tempo.
Ferro como madeira macia cortava
e malha como tecido de lã rasgava.
Em garras de ferro a gema estava presa;
a faca as cortou, pois elas não eram nada
senão frágeis pregos numa mão morta.
Olhai! a esperança da Elficidade,
o fogo de Fëanor, Luz da Manhã
antes do sol e da lua terem nascido,
assim do cativeiro saiu por fim,
do ferro para mão mortal passou.
Ali Beren estava. A jóia ele segurava,
e a sua pura radiância lentamente jorrou
através de carne e osso, e tornou-se em fogo
com a cor do sangue vivo. Um desejo
então tomou o seu coração de desafiar a maldição,
e das profundezas do Inferno levar
todas as três gemas imortais, e salvar
a luz élfica da sepultura de Morgoth.
De novo ele se baixou; com a faca ele forçou;
através de banda e garra de ferro cortou.
Mas à volta dos Silmarils um escuro Destino
estava tecido: eles estavam enredados em ódio,
e ainda não tinha chegado a sua hora destinada
em que arrancados do poder caído
de Morgoth num mundo arruinado,
recuperados e perdidos, eles seriam atirados
num abismo ardente e no mar sem fundo,
esquecidos enquanto o Tempo existir.
O aço anão da manhosa lamina
pelos traiçoeiros ferreiros de Nogrod feita
partiu-se; então tilintando com aguçado e claro som
em duas se quebrou, e como uma lança
ou errante seta a testa roçou
da cabeça dormente de Morgoth, e encheu
de medo os seus corações. Pois Morgoth rosnou
com voz sepulcral, como o vento que geme
em esburacadas cavernas encurralado e preso.
Ali chegou uma respiração; um som ofegante
movia-se pelos salões, enquanto Orc e besta
voltavam aos seus sonhos de festas hediondas;
no incomodo sono Balrogs agitavam-se,
e muito acima foi vagamente ouvido
um eco que nos túneis rolava,
um uivo de lobo longo e frio.

 


XIV

Subindo através da negra e ecoante escuridão
como fantasmas de um tumulo escavado,
subindo das profundas raízes da montanha
e da vasta ameaça subterrânea,
os seus membros tremiam com medo mortal,
terror nos olhos, e horror nos ouvidos,
juntos eles fugiam, com o batimento
assustado dos seus pés alados.

Por fim diante deles muito ao longe
eles viram um brilho, vago e cinzento
de luz fantasmagórica que tremendo caía
das escancaradas portas do Inferno.
Então a esperança acordou, e logo morreu –
as portas estavam abertas, o portão era largo;
mas na soleira o terror caminhava.
O horrível lobo acordado ali esperava
e nos seus olhos o fogo vermelho brilhava;
ali Carcharoth ameaçante se erguia,
uma morte anunciada, uma maldição incansável:
as suas mandíbulas estavam abertas como um tumulo,
os seus dentes nus, a sua língua em chamas;
de pé ele vigiava para que ninguém viesse,
nem esvoaçante sombra nem caçadora forma,
procurando escapar de Angband.
Por aquela guarda que astúcia ou poder
poderia esperar da morte para a luz passar?

Ele ouviu ao longe os pés apressados,
ele sentiu um odor estranho e doce;
ele cheirou a sua chegada muito antes
deles verem a expectante ameaça na porta.
Os seus membros ele estica e sacode-se para despertar,
então pára olhando. Com um súbito salto
sobre eles enquanto eles se apressavam ele avança,
e o seu uivo nos arcos ecoa.
Demasiado rápido para o pensamento o seu ataque chegou,
demasiado rápido para algum feitiço o domar;
e Beren em desespero então ultrapassou
Lúthien para barrar a estrada,
desarmado, sem defesa, para defender
a donzela élfica até ao fim.
Com a esquerda ele agarrou a peluda garganta,
com a direita nos olhos bateu –
a sua direita, da qual a radiância jorrava
do sagrado Silmaril que ele segurava.
Como o brilho de espadas em fogo ali brilharam
as presas de Carcharoth, e fecharam-se
como uma armadilha, que rasgou
a mão pelo pulso, e cortou
através do fraco osso e tendão,
devorando a frágil carne mortal;
e aquela cruel boca suja
engoliu o sagrado brilho da jóia.

 


Cantos Inacabados

Comentário de Christopher Tolkien:

A Balada de Leithian acaba aqui, tanto no texto A como no B, e também nas páginas dos esboços, mas uma folha isolada encontrada noutro lugar dá umas poucas linhas de continuação, juntamente com variantes, no primeiro estado de composição:

Contra a parede então Beren cambaleou
mas ainda com a esquerda ele tentava proteger
a bela Lúthien, que gritou alto
ao ver a sua dor, e para baixo ela se curvou
em angústia deitando-se ao chão.

Há também uma pequena passagem, encontrada numa folha separada no fim do texto B, com o titulo “uma parte do fim do poema”.

Onde o rio da floresta passava pelo bosque,
silenciosos todos os ramos ali estavam
das altas árvores, quietos, pendurados
com sombras de traças na sua casca
acima do verde e brilhante rio,
ali chegou através das folhas um súbito arrepio,
um ventoso sussurro através dos quietos
frios silêncios; e descendo a colina,
tão vago como a respiração de alguém a dormir,
um eco chegou tão frio como a morte:
"Longos são os caminhos, de sombras feitos
onde nenhuma pegada foi deixada,
sobre as colinas, para além dos mares!
Longe, muito longe são as Terras do Alivio,
mas a Terra dos Perdidos é ainda mais longe,
onde os Mortos aguardam, enquanto nós esquecemos.
Nenhuma lua lá existe, nenhuma voz, nenhum som
de corações a bater; só um suspiro profundo
uma vez em cada Era quando cada Era morre
é ouvido. Longe, muito longe está,
a Terra da Espera onde os Mortos se sentam,
na sombra dos seus pensamentos, por nenhuma lua iluminados.

Com as ultimas linhas compare a passagem no fim da história de Beren e Lúthien no Silmarillion (p. 199):

“Mas Lúthien foi para as mansões de Mandos, onde ficam os lugares destinados aos Eldalië, para lá das mansões do Ocidente, nos confins do mundo. Aí, os que esperam sentam-se à sombra do seu pensamento.”


Não há mais nada, e eu não acho que tivesse havido algo mais. Os últimos trabalhos do meu pai no poema foram dedicados à revisão de tudo o que já existia; e a Balada de Leithian acaba aqui.


Este poema foi traduzido por Aegnor