A Balada de Leithian

Escrito por Aegnor. Publicado em History of Middle-Earth

IX

Na Ilha do Feiticeiro ainda estavam esquecidos,
enredados e torturados naquela gruta
fria, horrível, sem portas, sem luz,
e com olhos em branco olhavam a eterna noite
dois camaradas. Agora sozinhos eles estavam.
Os outros não mais viviam, mas nus
os seus ossos partidos no chão estavam e contavam
como dez tinham servido bem o seu mestre.

A Felagund então Beren disse:
"Seria pouca a perda se eu estivesse morto,
e eu estou inclinado a tudo contar,
e assim, talvez, deste escuro inferno
a tua vida soltar. Eu liberto-te
do teu velho juramento, pois mais por mim
tu suportaste do que ganhaste."

"A! Beren, Beren ainda não aprendeste
que promessas do povo de Morgoth
são frágeis como o ar. Desta escura prisão
de dor nenhum de nós jamais sairá,
quer ele saiba os nossos nomes ou não,
com o consentimento de Sauron. Nunca mais, eu penso,
no entanto mais tormento nós beberíamos,
soubesse ele que o filho de Barahir
e Felagund estavam cativos aqui,
e ainda pior se ele soubesse
a temível busca em que estávamos."

Um riso diabólico ouviram
dentro do seu buraco. "Verdade, verdade a palavra
que eu vos ouço falar," uma voz então disse.
"Seria pouca a perda se ele estivesse morto,
o bandido mortal. Mas o rei,
o Elfo imortal, muitas coisas
que nenhum homem pode sofrer ele pode suportar.
Talvez, quando o que estes muros guardam
de terrível angustia o teu povo souber,
o seu rei por um resgate eles desejarão
com ouro e gemas e grandes corações acobardados;
ou talvez Celegorm o orgulhoso
considerara a prisão de um rival barata,
e com a coroa e ouro se manterá.
Talvez, a busca eu venha a saber,
antes de tudo terminar, onde iam vocês.
O lobo têm fome, a hora está perto;
não mais precisa Beren esperar para morrer."

O lento tempo passou. Então na escuridão
dois olhos ali brilharam. Ele viu o seu destino,
Beren, silencioso, enquanto as suas correntes ele forçava
para além da sua força mortal encarcerada.
Olhai! subitamente ouve-se um som estilhaçante
de correntes que se partem e se desfazem,
de elos partidos. Para a frente se lançou
sobre a criatura que rastejava
na sombra o fiel Felagund,
não se preocupando com presas ou ferida venenosas.
Ali no escuro eles lutaram lentamente,
sem remorsos, emaranhados, para a frente e trás,
dentes na carne, mão na garganta,
dedos fechados na peluda pele,
empurrando Beren que ali deitado
ouviu o lobisomem suspirando, morrendo.
Então uma voz ele ouviu: "Adeus!
Na terra não mais preciso de viver,
amigo e camarada, Beren ousado.
O meu coração está ferido, os meus membros frios.
Aqui todo o meu poder eu gastei
para partir as minhas correntes, e horrível ferida
de dentes venenosos está no meu peito.
Eu agora tenho que ir para o meu longo descanso
em Aman, para lá da costa
de Eldamar para sempre
em memoria viver." Assim morreu o rei,
como ainda os harpistas élficos cantam.

Ali Beren jazia. A sua dor sem lágrimas,
o seu desespero não tinha horror nem medo,
esperando por passos, uma voz, pelo destino.
Silêncios mais profundos que as masmorras
dos à muito esquecidos reis, debaixo de anos
e areias incontáveis escondidos em tumbas
e enterrados em eterna escuridão,
lentamente e sem obstáculos à sua volta rastejavam.

Os silêncios foram subitamente quebrados
em fragmentos de prata. Fraca ali cantava
uma voz numa canção que paredes de pedra,
colinas encantadas, e barras e fechaduras,
e os poderes das trevas perfurava com luz.
Ele sentiu à sua volta a doce noite
de muitas estrelas, e no ar
havia folhas a voar e um perfume raro;
os rouxinóis estavam nas árvores,
esbeltos dedos a flauta e viola agarravam
debaixo da lua, e uma mais bela
do que tudo o que existiu ou existirá
sobre um solitário monte de pedras
com cintilante vestido dançava sozinha.

Então no seu sonho parecia que ele cantava,
e alto e feroz o seu canto tocou,
velhas canções de batalha no Norte,
de actos espantosos, de marchar em frente
para enfrentar forças superiores e quebrar
grandes poderes, e torres, e abanar fortes muralhas;
a acima de tudo o fogo prateado
que outrora os Homens chamaram de Rosa Ardente,
as Sete Estrelas que Varda pôs
sobre do Norte, estava ardendo ainda,
uma luz na escuridão, esperança no desgosto,
o vasto emblema dos inimigos de Morgoth.

"Huan, Huan! Eu ouço uma canção
longe nas profundezas, longe mas forte;
uma canção que Beren costumava cantar.
Eu ouço a sua voz, eu ouvi-a às vezes
em sonhos e vagueações." murmurando baixo
assim falou Lúthien. Na ponte do desgosto
no manto envolvida, no fim da noite
ela sentou-se e cantou, e desde o topo
às profundezas a Ilha do Feiticeiro,
rocha sobre rocha e pilar em pilar,
tremeu ecoando. Os lobisomens uivaram,
e Huan escondido ficou e rosnou
vigilante, ouvindo no escuro,
esperando pela batalha cruel e dura.

Sauron ouviu aquela voz, e logo se pôs
embrulhado na sua capa e negro capuz
na sua alta torre. Ele ouviu longamente,
e sorriu, pois conheceu aquela canção élfica.
"Á! pequena Lúthien! O que trouxe
a insensata mosca à temível teia?
Morgoth! uma grande e rica recompensa
a mim tu deverás quando ao teu tesouro
esta jóia for adicionada." Para baixo ele foi,
e em frente os seus mensageiros ele mandou.

Ainda Lúthien cantava. Uma rastejante forma
com língua de sangue e mandíbulas enormes
pisou a ponte; mas ela continuou a cantar
com membros a tremer e grandes olhos pálidos.
A rastejante forma saltou para o seu lado,
e suspirou, e subitamente caiu e morreu.
E continuavam a chegar, ainda um por um,
e cada um era apanhado, e dali nenhum
regressava com pés de lã para dizer
que uma sombra espreitava feroz e terrível
no fim da ponte, e que por baixo
as turbilhantes águas relutantemente fluíam
sobre os corpos cinzentos que Huan matara.
Uma poderosa sombra lentamente encheu
a estreita ponte, um ódio escravizador,
um horrível lobisomem feroz e grande:
o pálido Draugluin, o velho cinzento senhor
de lobos e bestas de sangue abominável,
que se alimentava de carne de Homem e Elfo
debaixo da cadeira de Sauron.

Não mais em silencio eles lutaram.
Uivando e ladrando bateram-se na noite,
até que de volta à cadeira onde se tinha alimentado
para morrer o lobisomem ganindo foge.
"Huan está lá" ele diz e morre,
e Sauron estava cheio de raiva e orgulho.
"Diante do mais forte ele cairá,
diante do mais poderoso lobo de todos,"
assim pensava ele agora, e pensando ele sabia
como o fado à muito falado se poderia tornar verdade.
Agora ali chegou lentamente e olhou
para a noite uma forma com longos cabelos,
húmido com veneno, com horríveis olhos
de lobo, voraz; mas ali jazia
uma luz mais cruel e horrorosa
do que qualquer outra que alimentou olhos de lobo.
Maiores eram os seus membros, as suas mandíbulas imensas,
as suas presas mais afiadas, e cheias
de veneno, tormento, e morte.
O mortal vapor do seu bafo
avançava diante dele. Caindo morre
a canção de Lúthien, e os seus olhos
estão diminuídos e escurecidos com um medo,
frio, venenoso e escuro.

Assim chegou Sauron, como o maior lobo
que alguma vez foi visto da porta de Angband
até ao tórrido sul, que alguma vez espreitou
em terras mortais ou na morte trabalhou.
De repente ele saltou, e Huan desviou-se
para a sombra. Ele saltou
para Lúthien que estava quase a desmaiar.
Aos seus sentidos entorpecidos chegou o gosto
do seu maldito bafo, e ela acordou;
com dificuldade ela fala uma palavra sussurrada,
o seu manto cai pela cara dele.
Ele tropeça nos seus próprios pés.
Para fora salta Huan. Para trás ele se desvia.
Debaixo das estrelas ali é ouvido
o grito dos lobos caçadores à espera,
a língua dos cães que sem medo mata.
Para trás e para a frente eles saltam e correm
fingindo fugir, e à volta eles andam,
e mordem e agarram-se, e caem e levantam-se.
Então subitamente Huan pára e agarra
o seu terrível inimigo; a sua garganta ele prende,
sufocando a sua vida. Nem assim acaba.
De forma para forma, de lobo para serpente,
de monstro para a sua própria forma demoníaca,
Sauron muda, mas esse desesperado aperto
ele não consegue afastar, nem dele se soltar.
Nem magia, nem feitiços, nem dardos,
nem presas, nem veneno, nem a arte demoníaca
podiam ferir esse cão que veados e javalis
caçou outrora em Valinor.

Quando o maldito espírito que Morgoth fez
e criou com mal, tremendo abandonava
a sua escura casa, então Lúthien levantou-se
e olhou para as suas dores.

"Ó escuro demónio, Ó fantasma vilão
tecido com infâmia, com mentiras e traições,
aqui morrerás e o teu espírito rumará
tremendo para a casa do teu mestre
para o seu desprezo e fúria suportar;
a ti ele irá nas entranhas da terra
prender, e num buraco
para toda a eternidade a tua alma nua
ficará a lamentar-se e a gemer - isto acontecerá,
a não ser que me entregues as chaves
da tua escura fortaleza, e o feitiço
que une pedra a pedra tu digas,
e fales as palavras de abertura."

Com bafo sufocado e tremendo
ele falou, submeteu-se quanto pôde
e vencido traiu a confiança do seu mestre.

Olhai! na ponte um brilho de prata,
como estrelas descendo da noite
para arder e tremer aqui em baixo.
Ali Lúthien esticou os seus braços,
e chamou alto com a voz tão clara
como ainda às vezes podem os mortais ouvir
grandes trompas élficas sobre as colinas
escoando, quando todo o mundo está parado.
A aurora espreitou por cima das montanhas escuras,
as suas cinzentas cabeças silenciosas olhavam sobre ela.
O monte tremeu; a cidadela
desfez-se, e todas as suas torres caíram;
as rochas abriram-se e a ponte partiu-se,
e o Sirion espumou com súbito fumo.
Como fantasmas as corujas foram a voar vistas
a piar ao amanhecer, e sujos morcegos
roçaram escuros pelos frios ares
gemendo sem força para encontrar novos lares
na escuridão dos ramos da Mortífera Floresta sob a Noite.
Os lobos ganindo e ladrando fugiram
como sombras cinzentas. E de lá espreitavam
pálidas formas esfarrapadas como se dormindo,
rastejando, protegendo os olhos cegos:
os cativos com medo e surpresa
da longa dor na noite escura
para além de toda a esperança foram libertados para a luz.

Uma forma vampírica com asas enormes
esticando-se saltou do chão, e passou,
o seu sangue escuro pingou nas árvores;
e Huan debaixo dele vê sem vida
um corpo de lobo - pois Sauron tinha voado
para Taur-nu-Fuin, para um novo trono
e escuro domínio ai construir.
Os cativos vieram e choraram e disseram
os seus piedosos gritos de agradecimento e louvor.
Mas Lúthien ansiosamente olhava.
Beren não chegava. Por fim disse:
"Huan, Huan, entre os mortos
devemos nós então encontrar aquele que procuramos,
pelo amor do qual trabalhámos e lutámos?"
Então de lado a lado de pedra a pedra
sobre o Sirion eles treparam. Sozinho
sem se mexer eles o encontraram, pois chorava
por Felagund, e não se virou
para ver que passos se aproximavam.
"Á! Beren, Beren!" chegou o grito dela,
"será que te encontrei demasiado tarde?
Ai de mim! que aqui sobre o chão
o mais nobre da nobre raça
em vão a tua angústia abraça!
Ai de mim! que em lágrimas nos tenhamos que encontrar
aqueles que outrora achavam os encontros alegres!"

A sua voz estava cheia de tanto amor e espera
que ele ergueu os olhos, a sua tristeza acabou,
e sentiu o seu coração novamente em chamas
por ela que através de perigos até ele veio.

"Ó Lúthien, Ó Lúthien,
mais bela que qualquer criança dos Homens,
Ó adorada donzela da Elficidade,
que poder do amor te possuiu
para te trazer aqui ao lar do terror!
Ó ágeis membros e cabelo sombrio,
Ó flores entrançadas em fronte tão branca,
Ó esbeltas mãos nesta nova luz!"

Ela encontrou os seus braços e deixou-se cair
mesmo ao raiar do dia.