A Balada de Leithian

Escrito por Aegnor. Publicado em History of Middle-Earth

VIII

Haviam cães em Valinor
com coleiras de prata. Veados e javalis,
raposas e lebres e ágeis cabritos
ali nas verdes florestas andavam.
Oromë era o divino senhor
de todos os bosques. Potentes vinhos
havia nos seus salões e cantos de caça.
Os Noldor de outro modo o chamavam à muito
Tauros, o Deus cujas trompas tocaram
sobre as montanhas à muito tempo;
aquele dos Deuses que sozinho amou o mundo
antes das bandeiras do Sol e da Lua
serem desfraldadas; e ferrados a ouro
eram os seus grandes cavalos. Cães incontáveis
ladrando nos bosques para além do Oeste
de raça imortal ele possuía:
cinzentos e ágeis, pretos e fortes,
brancos com longas peles de seda,
castanhos e malhados, rápidos e certeiros
como setas de um arco de teixo;
as suas vozes como os profundos sinos
que tocam nas cidadelas de Valmar,
os seus olhos como jóias vivas, os seus dentes
como marfim. Como espadas desembainhadas
eles cintilavam e corriam da trela ao cheiro
para alegria e felicidade de Tauros.

Nas florestas e verdes pastagens de Tauros
tinha Huan quando um cachorrinho estado.
Ele cresceu o mais rápido dos rápidos,
e Oromë deu-o como prenda
a Celegorm, que adorava seguir
a grande trompa do Deus sobre colinas e vales.
Dos cães da Terra da Luz,
quando os filhos de Fëanor fizeram a fuga
e chegaram ao Norte, só ele ficou
ao lado do seu mestre. Todos os ataques
e todas as incursões selvagens ele partilhou,
e em batalhas mortais entrou.
Muitas vezes ele salvou o seu senhor Élfico
de Orcs e lobos e espadas traiçoeiras.
Um cão-lobo, incansável, cinzento e feroz
ele cresceu; os seus brilhantes olhos penetravam
todas as sombras e névoas, o cheiro
com muitos dias ele encontrava através de pântanos e campos,
através de folhas roçantes e areias poeirentas;
todos os caminhos da grande Beleriand
ele sabia. Mas lobos, ele gostava deles por demais;
ele adorava encontrar as suas gargantas e acabar
com as suas vidas de rosnar e maléfico bafo.
As matilhas de Sauron temiam-no como a Morte.
Nem magia, nem feitiços, nem dardos,
nem presas, nem os venenos que a arte demoníaca
podia fazer o tinham magoado; pois o seu destino
estava traçado. No entanto ele pouco receava
esse destino decretado e conhecido de todos:
diante do mais forte ele cairia,
só diante do mais poderoso lobo
que alguma vez foi criado em cavernas de pedra.

Ouvi! longe em Nargothrond,
para lá do Sirion e mais além,
há gritos fracos e trompas tocando,
e cães ladrando através das árvores passam.
A caçada começou, os bosques estão agitados.
Quem cavalga hoje? Não ouvistes dizer
que Celegorm e Curufin
soltaram os seus cães? Com alegre barulheira
eles montaram antes do Sol despertar,
e pegaram nas lanças e levaram os seus arcos.
Os lobos de Sauron recentemente atreveram-se
a ir mais longe. Os seus olhos olharam
pela noite para lá do trovejante leito
do Narog. Quererá o seu senhor saber,
por acaso, dos planos e conselhos profundos,
dos segredos que os senhores Élficos guardam,
dos movimentos no reino Noldor
e missões debaixo da faia e olmo?

Curufin falou: "Meu bom irmão,
eu não gosto disto. Que escuro desígnio
terá este presságio? Estas coisas más,
nós temos rapidamente que acabar com as suas vagueações!
E mais, agradaria imenso ao meu coração
caçar um pouco lobos escondidos."
E depois ele dobrou-se e murmurou baixo
que Orodreth era um idiota lento;
muito tempo passara desde que o rei partira,
e nenhum rumor ou notícias tinham chegado.
"Pelo menos do teu interesse seria
saber se ele está morto ou livre;
para reunir os teus homens e as tuas tropas.
"Eu vou caçar" então tu dirias,
e os homens pensariam que pelo bem do Narog
tu ias. Mas no bosque
coisas podem ser ouvidas; e se por graça,
por algum cego destino ele voltar
pelo mesmo louco caminho, e se ele tiver
um Silmaril - Eu não preciso dizer
mais nada em palavras; mas uma por direito
é tua (e nossa), a jóia da luz;
outra coisa pode ser ganha - um trono.
O sangue mais velho da nossa casa merece-o."

Celegorm ouviu. Nada disse,
mas uma poderosa hoste conduziu;
e Huan saltou com os alegres sons,
o chefe e capitão dos seus cães.
Três dias eles cavalgaram por bosques e montes
para os lobos de Sauron caçar e matar,
e muitas cabeças e peles cinzentas
eles apanham, e muitos afugentam para longe,
até que perto das fronteiras ocidentais
de Doriath eles descansam um pouco.

Ai havia gritos fracos e trompas tocando,
e cães ladrando pelos bosques andavam.
A caçada começara. Os bosques estavam agitados,
e alguém ali fugia como um pássaro assustado,
e o medo estava no seu passo dançante.
Ela não sabia quem nos bosques caçava.
Longe da sua casa, a vaguear, pálida,
ela correu como um fantasma pelo vale;
o seu coração impelia-a avançar e prosseguir,
mas os seus membros estavam esgotados, os seus olhos pálidos.
Os olhos de Huan viram uma sombra
tremer, correndo por uma clareira
como a névoa do entardecer apanhada pelo dia
apressando-se temerosamente para longe.
Ele ladrou, e saltou com fortes membros
para perseguir a esquiva coisa estranha e vaga.
Nas asas do terror, como uma borboleta
perseguida por um pássaro do alto,
ela voava para aqui, corria para ali,
ora parava, ora voava pelo ar -
em vão. Por fim contra uma árvore
ela se encostou e suspirou. Para cima ele saltou.
Nenhuma palavra magica dita com desgosto,
nenhum mistério élfico ela sabia
ou tinha tecido na escura vestimenta
que lhe valessem contra aquele caçador resoluto,
cuja a velha e imortal raça e espécie
nenhum feitiço podia enganar ou apanhar.

Só a Huan quando o conheceu
ela nunca encantamentos pôs
nem com feitiços o prendeu. Mas a encantadora
e gentil voz e pálido sofrimento
e os olhos como céus estrelados turvados com lágrimas
domaram aquele que nem a morte ou monstros teme.

Levemente ele a levantou, carinhosamente transportou
o seu assustado fardo. Nunca antes
tinha Celegorm visto tal presa:
"Que trouxeste tu, diz-me bom Huan!
Escura donzela élfica, espectro, ou fada?
Para caçar tal nós não viemos hoje."

"Esta é Lúthien de Doriath,"
a donzela disse. "Um longo caminho
longe das solarengas clareiras dos Elfos da Floresta
ela tristemente percorre, onde a coragem esmorece
e a esperança enfraquece." E enquanto ela falava
deixou cair o seu manto de sombra,
e ali ficou em branco e prata.
As suas jóias como estrelas piscavam brilhantemente
no sol nascente como o orvalho da manhã;
os lilios dourados no manto azul
brilhavam e cintilavam. Quem poderia olhar
para aquela bela face sem se maravilhar?
Longamente Curufin olhou fixamente.
O perfume do seu cabelo entrançado com flores,
os seus ágeis membros, a sua face élfica,
entraram no seu coração, e naquele lugar
acorrentado ele ficou. "Ó real donzela,
Ó linda senhora, por que razão em trabalhos
e viagens solitárias andais?
Que temerosas noticias de guerra e tristeza
ouvistes em Doriath? Dizei-nos!
Por sorte andastes na direcção certa;
haveis encontrado amigos," disse Celegorm,
e olhou para a sua forma élfica.

No seu coração ele pensava que a história dela
ele sabia em parte, mas nada ela viu
de engano na sua face sorridente.
"Quem sois vós então, a caçada senhorial
que segue neste perigoso reino?"
ela perguntou; e uma boa resposta
eles deram. " Os teus servos, doce senhora,
senhores de Nargothrond que te saúdam,
e pedem que tu com eles vás
de volta às suas colinas, esquecendo a tristeza
por uma estação, procurando esperança e descanso.
E agora era melhor ouvir a tua história."

Então Lúthien conta os feitos de Beren
nas terras do Norte, como o destino o leva
a Doriath, da ira de Thingol,
da temerosa busca que o seu senhor
decretou para Beren. Nem sinais ou palavras
os irmãos deram que alguma coisa que ouviram
os tocava de perto. Da sua fuga
e do maravilhoso manto que usava
ela levemente conta, mas as palavras falham-lhe
ao recordar a luz no vale,
o luar, as estrelas em Doriath,
antes de Beren tomar o perigoso caminho.
"Necessidade, também, meus senhores, há de velocidade!
Nenhum tempo para alívios e descanso se pode gastar.
Pois dias passaram agora desde que a rainha,
Melian cujo coração tem visão apurada,
olhando para longe me disse com medo
que Beren vivia em horrível cativeiro.
O Senhor dos Lobos tem prisões escuras,
correntes e encantamentos cruéis e violentos,
e ai preso e debilitado
deve Beren jazer - se coisa pior
não tiver trazido a morte ou o desejo por ela";
então chorando de desgosto foi privada de ar.

A Celegorm disse Curufin
aparte e baixo: "Agora noticias ganhámos
de Felagund, e agora sabemos
a razão das andanças das criaturas de Sauron,"
e outros sussurrados conselhos falou,
e disse-lhe o que ele devia fazer.
"Senhora ," disse Celegorm, "vós vistes
que andamos numa caçada a bestas,
e apesar da nossa hoste ser grande e ousada,
está mal preparada para o refúgio do feiticeiro
e ilha fortificada assaltar.
Não julgues os nossos corações e vontades em falta.
Olhai! eu aqui a nossa caçada esqueço
e para casa o nosso rápido caminho nos levará,
para conselhos e ajudas ai planear
para Beren que em angustia está."

Para Nargothrond eles levaram

Lúthien, cujo coração a fazia suspeitar de algo.
Atrasos ela temia; cada momento pressionava
o seu espírito, no entanto ela adivinhou
que eles não cavalgavam tão rápido quanto podiam.
À frente saltava Huan dia e noite,
sempre olhando para trás o seu pensamento
estava perturbado. Que procurava o seu senhor,
e porque não cavalgava ele como o fogo,
porque olhava Curufin com ardente desejo
Lúthien, ele pensava profundamente,
e sentiu uma sombra má rastejando
da antiga maldição sobre a Elficidade.
O seu coração estava ferido pelo sofrimento
do bravo Beren, de Lúthien querida,
e de Felagund que não conhecia nenhum medo.

Em Nargothrond as tochas brilharam
e a festa e música foram preparadas.
Lúthien não festejou mas chorou.
Os seus caminhos estavam fechados; de perto vigiada
ela não podia fugir. O seu manto magico
estava escondido, e nenhum pedido que ela fizesse
era ouvido, nem respostas encontravam
as suas perguntas. Fora do pensamento,
parecia, estavam aqueles lá longe que definhavam
em angustia e em cegas masmorras
em prisões e em miséria.
Demasiado tarde soube ela da traição deles.
Não foi escondido em Nargothrond
que os filhos de Fëanor a mantinham presa,
que não queriam ajudar Beren, e que
tinham poucas razões para salvar de Sauron
o rei que eles não amavam e cuja busca
velhos juramento de ódio nos seus peitos
tinha acordado do sono. Orodreth sabia
o propósito escuro que eles perseguiam:
o rei Felagund deixar morrer,
e com o sangue do Rei Thingol aliar
a casa de Fëanor pela força
ou tratado. Mas para impedir o caminho deles
ele não tinha poder, pois todo o seu povo
os irmãos ainda tinham debaixo do seu jugo
e todos ainda ouviam as suas palavras.
Os conselhos de Orodreth ninguém ouvia;
a sua vergonha os prendeu, e não queriam ouvir
a história da necessidade de Felagund.

Aos pés de Lúthien ali dia a dia
e à noite ao lado da sua cama ficava
Huan o cão de Nargothrond;
e palavras doces e ternurentas ela falava a ele:
"Ó Huan, Huan, o mais rápido cão
que alguma vez correu em chão mortal,
que mal possuiu os teus senhores
para não ouvirem as minhas lágrimas nem a minha aflição?
Outrora Barahir acima de todos os homens
os bons cães estimou e amou;
outrora Beren no desabrigado Norte,
quando como um fora-da-lei vagueava,
tinha amigos que não lhe falhavam entre as coisas
com pelo e pele e asas emplumadas,
e entre os espíritos que em pedras
nas velhas montanhas e desertos
ainda vivem. Mas agora nem Elfo nem Homem,
nenhum excepto a filha de Melian,
relembra aquele que com Morgoth lutou
e nunca à escravidão se curvou."

Nada disse Huan; mas Curufin
desde ai nunca mais se pôde aproximar
de Lúthien, nem tocar nessa donzela,
mas encolhia-se com medo das presas de Huan.
Então numa noite quando o nevoeiro de Outono
envolvia a brilhante luz
da pálida lua, e inconstantes estrelas
eram vistas a voar por entre as barras
de nuvens a correr, quando a trompa do Inverno
já feria as árvores desoladas,
olhai! Huan desapareceu. Então Lúthien deitou-se
temendo novo mal, até que mesmo antes do dia,
quando tudo está morto e parado
e medos disformes os despertos enchem,
uma sombra veio encostada à parede.
Então algo deixa ali cair docemente
o seu manto magico ao lado da sua cama.
Tremendo ela viu o grande cão sentado
ao seu lado, ouviu uma voz profunda crescer
como se de uma torre com um lento e longínquo sino.

Assim falou Huan, nunca antes ele
tinha dito palavras, e só mais duas vezes
voltaria a falar em língua élfica:
"Senhora amada, a quem todos os Homens,
a quem a Elficidade, e a quem todas as coisas
com pelo e pele e asas emplumadas
deverão servir e amar - levanta-te! vamos!
Põe o teu manto! Antes do dia
chegar de Nargothrond nós fugiremos
para os perigos do Norte, tu e eu."
E antes dele acabar conselhos ele deu
para concretizar as coisas que procuravam.
Ali Lúthien ouviu maravilhada,
e docemente para Huan olhou.
Os seus braços à volta do pescoço dele ela pôs -
com amizade que até à morte duraria.