A Balada de Leithian

Escrito por Aegnor. Publicado em History of Middle-Earth

VI

Quando Morgoth naquele dia de perdição
matou as Árvores e encheu com escuridão
a cintilante terra de Valinor,
aí Fëanor e os seus filhos então fizeram
o poderoso juramento sobre a colina
de Tuna coroada de torres, que ainda
tece guerras e tristeza no mundo.
Dos escuros mares os nevoeiros estendem
as suas cegas sombras cinzentas e frias
onde Laurelin outrora floresceu com ouro
e Telperion teve flores de prata.
As névoas envolvem as torres
da branca cidade dos Elfos à beira-mar.
Aí inúmeras tochas agitadas
acenderam e cintilaram, enquanto os Noldor
eram chamados das suas casas,
e caminhavam a longa e enrolada escada
que levava à grande praça ecoante.

Aí Fëanor lamentou as suas jóias divinas,
os Silmarils que ele fez. Como vinho
as suas selvagens e potentes palavras os encheram;
uma grande hoste escuta com quietude mortal.
Mas tudo o que ele disse fosse selvagem e sensato,
metade verdade e metade o fruto de mentiras
que Morgoth semeou em Valinor,
em outras canções e tradições
é recordado. Ele fê-los fugir
das terras divinas, para atravessar o mar,
as planícies não caminhadas, as perigosas costas
onde as águas infestadas de gelo rugem;
para seguir Morgoth para terra sem luz
deixando as suas moradas e velha alegria;
para voltar para as Terras Exteriores
para guerras e sofrimentos. Ali as suas mãos
eles juntaram em juramento, esses sete familiares,
jurando debaixo das estrelas do Céu,
por Varda a Abençoada que as teceu
e as encheu com radiância total
e as pôs nas alturas para cintilar.
Taniquetil a sagrada eles nomeiam,
onde estão construídos os eternos salões
de Manwë Senhor dos Deuses. Quem nomeia
estes nomes como testemunhas não poderá quebrar
este juramento, ainda que terra e céu tremam.

Curufin, Celegorm o belo,
Amrod e Amras estavam lá,
e Caranthir o escuro, e Maedhros o alto
(que após grande tormento cairia),
e Maglor o poderoso que como o mar
com voz profunda canta ainda lamentoso.
"Seja ele amigo ou inimigo, ou semente corrupta
de Morgoth Bauglir, ou criança mortal
que nos dias vindouros na terra viverá,
nem lei, nem amor, nem liga do Inferno,
nem o poder dos Deuses, nem o imutável destino
defenderá da ira e ódio
dos filhos de Fëanor, quem tirar, roubar
ou guardar os Silmarils,
os três encantados globos de luz
que brilharão até à última noite."

Das guerras e vagueações dos Noldor
esta história não conta. Longe das suas casas
eles lutaram e trabalharam no Norte.
Fingon arriscando-se sozinho avançou
e procurou por Maedhros onde ele estava pendurado;
num terrível tormento ele balançava,
o seu pulso numa corrente de aço forjado,
de um grande precipício onde vacilam
os sentidos olhando para baixo
da coroa de pedra da Thangorodrim.
A canção de Fingon os Elfos ainda cantam,
capitão de exércitos, Rei dos Noldor,
que caiu por fim na chama de espadas
com as suas brancas bandeiras e os seus senhores.
Eles cantam como Maedhros ele libertou,
e acalmou a contenda que ainda ensombrava
os filhos do orgulhoso Finwë.
Agora juntos uma vez mais eles cercaram-no,
até o grande Morgoth, e a sua hoste
cercou Angband, até
nenhum Orc nem demónio se atrever
a quebrar o cerco ou a passar por eles.
Então os dias da luz acordaram a terra
debaixo do novo Sol, e a alegria
foi ouvida nas Grandes Terras onde os Homens,
uma raça nova, se espalhavam e vagueavam então.
Esse foi o tempo que as canções chamam
o Cerco de Angband, quando como uma parede
as espadas Élficas fecharam a terra
da ruína de Morgoth, um tempo de nascimento,
de florescimento, de flores, de crescimento;
mas ainda ali estava o imortal juramento,
e ainda eram os Silmarils
guardados nos escuros túneis de Angband.

O fim ali chegou, quando a sorte mudou,
e as chamas da vingança de Morgoth arderam,
e todo o poder que ele preparou
em segredo na sua fortaleza explodiu
e espalhou-se através da Planície Seca;
e escuros exércitos estavam no seu encalço.
O cerco de Angband Morgoth quebrou;
os seus inimigos com fogo e fumo
foram dispersados, e os Orcs ali mataram
e mataram, até o sangue como orvalho
pingar de cada cruel e maldita lamina.
Então Barahir o ousado ajudou
com poderosa lança, com escudo e homens,
o ferido Felagund. Para o pantâno
escapando, ali eles juntam as mãos,
e Felagund faz um juramento
de amizade à sua família e semente,
de amor e socorro em tempos de necessidade.
Mas ali dos quatro filhos de Finarfin
foi Angrod morto e o orgulhoso Aegnor.
Felagund e Orodreth então
reuniram o resto dos seus homens,
as suas donzelas e as suas belas crianças;
esquecendo a guerra eles fizeram o seu lar
e domínio cavernoso longe no sul.
Nas altas margens do Narog a sua boca
estava aberta; a qual eles esconderam e taparam,
e poderosas portas, que inexpugnáveis
até aos dias de Túrin ficaram grandes e cinzentas,
na sombra de árvores eles construíram.
E com eles viveram muito tempo ali
Curufin, e Celegorm o belo;
e um poderoso povo cresceu debaixo das suas mãos
nos secretos salões e terras do Narog.

Assim Felagund em Nargothrond
ainda reinava, um rei escondido com uma promessa
jurada a Barahir o ousado.
E agora o seu filho através de frias florestas
vagueava sozinho como num sonho.
O escuro e sombrio leito do Esgalduin
ele seguiu, até as suas águas
se juntarem ao Sirion, cinzento Sirion,
pálida agua prateada larga e livre
rolando com esplendor até ao mar.
Agora Beren chegou perto dos charcos,
grandes lagos baixos onde o Sirion arrefecia
as suas águas debaixo das estrelas,
cheio de palha e cercado pelas barras
de bancos de juncos um grande pantâno
ele alimenta e encharca, caindo então
por grandes buracos no subsolo,
onde durante muitas milhas o seu caminho é ferido.
Aelin-uial, Lagos do Crepúsculo,
essas grandes largas águas cinzentas como lágrimas
os Elfos as chamaram. Através de forte chuva
dai através da Planície Guardada
as Colinas dos Caçadores Beren viu
com topos nus áridos e fustigados
pelos ventos ocidentais; mas na névoa
da forte chuva que fustigava e assobiava
nos lagos ele sabia que estava ali
debaixo daquelas colinas o caminho talhado
do Narog, e os atentos salões
de Felagund ao lado das quedas
do Ringwil caindo do alto.
Uma guarda eterna eles mantêm,
os famosos Elfos de Nargothrond,
e cada colina está coroada com uma torre,
onde guardas atentos espreitam e olham
guardando a planície e todos os seus caminhos
entre o rápido Narog e o pálido Sirion;
e archeiros cujas setas nunca falham
ali patrulham os bosques, e secretamente matam
todos os que ali andam contra a sua vontade.
No entanto ele avança para aquela terra
com o brilhante anel de Felagund
na mão, e de vez em quando grita:
"Aqui vem nenhum Orc vagabundo ou espião,
mas Beren filho de Barahir
que outrora a Felagund foi querido."
Assim antes dele chegar à costa leste
do Narog, que espuma e ruge
sobre pedras negras, esses verdes archeiros
o rodearam. Quando o anel foi visto
eles curvaram-se à sua frente, apesar da sua roupa
ser pobre e suja. Então pela noite
eles conduziram-no para norte, pois nenhum vau
ou ponte tinha sido construído onde o Narog desaguava
diante das portas de Nargothrond,
e nem amigos ou inimigos poderiam passar em frente.
Para norte, onde esse rio ainda novo
mais fino corria, abaixo da língua
de terra cheia de espuma que o Ginglith divide
quando a sua curta torrente dourada acaba
e se junta ao Narog, ai eles passaram.
Agora uma rápida jornada eles fazem
para os inclinados terraços de Nargothrond
e gigantescos palácios.
Eles chegaram debaixo da foice da lua
a portas ali escuras suspensas e talhadas
com postes e vergas de poderosas pedras
e grandes troncos de madeira. Agora abrem-se
esses grandes portões, e caminhando eles entram
onde Felagund no seu trono vivia.

Belas foram as palavras do rei do Narog
a Beren, e as suas viagens
e todos os seus confrontos e amargas guerras
logo foram contados. Atrás de portas fechadas
eles sentaram-se, enquanto Beren contava a sua história
de Doriath; e as palavras falharam-lhe
ao recordar-se da bela dança de Lúthien
com brancas rosas selvagens no cabelo,
ao lembrar-se da voz élfica que cantava
enquanto as estrelas do crepúsculo à volta dela flutuavam.
Ele falou dos maravilhosos salões de Thingol
por encantamentos iluminados, onde fontes caem
e onde para sempre o rouxinol cantará
a Melian e ao seu rei.
Ele contou da busca que Thingol pôs
sobre ele por desprezo; como pelo amor de uma donzela
mais bela que do que as nascidas aos Homens,
por Tinúviel, por Lúthien,
ele devia provar a ardente devastação,
tormento e morte certa.

Isto Felagund com espanto ouviu,
e pesadamente por fim estas palavras falou:
"Parece que Thingol deseja
a tua morte. O eterno fogo
dessas jóias encantadas todos sabem
que está amaldiçoado com um juramento de eterno desgosto,
e só os filhos de Fëanor por direito
são os senhores e mestres da sua luz.
Ele não pode esperar dentro do seu tesouro
esta gema guardar, nem é ele senhor
de todo o povo da Elficidade.
E no entanto tu dizes que por nada menos
pode o teu regresso a Doriath
ser comprado? Muitos terríveis caminhos
em verdade estão diante dos teus pés -
depois de Morgoth, ainda um rápido
incansável ódio, como eu bem sei,
te caçaria do céu ao inferno.
Os filhos de Fëanor iriam, se pudessem,
matar-te antes que tu chegasses à floresta
ou pusesses no colo de Thingol esse fogo,
ou ganhasses por fim o teu doce desejo.
Olhai! Celegorm e Curufin
aqui vivem dentro deste mesmo reino,
e apesar de eu, filho de Finarfin,
ser rei, um grande poder eles ganharam
e muito do seu próprio povo governam.
Amizade a mim em todas as necessidades
eles tem mostrado, mas receio
que a Beren filho de Barahir
nem misericórdia ou amor eles mostrem
se a tua terrível busca souberem."

Verdadeiras palavras ele falou. Pois quando o rei
a todo o seu povo contou isto,
e falou do juramento a Barahir,
e como aquele escudo e lança mortal
os tinham salvo de Morgoth e do desgosto
nos campos de batalha do Norte à muito tempo,
então muitos corações acenderam-se
uma vez mais para a guerra. Mas dai salta
entre a multidão, e grita alto
para ser ouvido, um com olhar ardente,
o orgulhoso Celegorm com cintilante cabelo
e brilhante espada. Então todos os homens olham
para aquela face inflexível,
e um grande silêncio cai sobre aquele lugar.

"Seja ele amigo ou inimigo, ou demónio selvagem
de Morgoth, Elfo, ou criança mortal,
ou alguém que aqui na terra venha a viver,
nem lei, nem amor, nem liga do inferno,
nem o poder dos Deuses, nem feitiços,
defenderão do ódio terrível
dos filhos de Fëanor, quem só tiver ou roubar
ou guardar um Silmaril.
Só estas nós reclamamos por direito,
as nossas três brilhantes jóias encantadas."

Muitas selvagens e potentes palavras ele falou,
como antes em Tirion
a voz do seu pai acordara os seus corações para o fogo,
agora escuros medos e ira vingativa
ele lançou sobre eles, predizendo guerra
de amigos com amigos; e lagos de sangue
as suas mentes imaginaram no chão vermelho
em Nargothrond à volta dos mortos,
se a hoste do Narog com Beren fosse;
ou talvez batalha, ruína, e grande desgosto
em Doriath onde o grande Thingol reinava,
se a jóia fatal de Fëanor ele ganhasse.
E embora a tal tivesse que ser verdadeiro
Felagund do seu juramento devia arrepender-se,
e pensar com terror e desespero
nas consequências de procurar Morgoth no seu lar
com força ou astúcia. Isto Curufin
quando o seu irmão acabou então começou
para mais impressionar as suas mentes;
e tal feitiço neles tece
que nunca mais até aos dias de Túrin
iria Elfo do Narog envolver-se
em batalha aberta ou guerra.
Com segredo, emboscadas, espiões e artes
de feitiçaria, com silencioso cerco
de selvagens coisas cautelosas, atentas, ansiosas,
caçadores fantasmas, dardos venenosos,
e invisíveis artes de camuflagem,
perseguindo com ódio a sua presa
com pés de veludo todo o dia,
seguindo sem remorsos longe da vista
e matando-os sem aviso à noite -
assim eles defenderam Nargothrond,
e esqueceram a sua família e solene laço
pelo medo de Morgoth que a arte
de Curufin pôs dentro dos seus corações.

Então não iriam eles nesse dia conflituoso
ao rei Felagund seu senhor obedecer,
mas sombrios murmuravam que nem Finarfin
nem seu filho eram deuses.
Então Felagund tirou a sua coroa
e aos seus pés a deitou,
o elmo de prata de Nargothrond:
"Os vossos vocês podem quebrar, mas o meu juramento
eu devo manter, e o reino aqui esquecer.
Se corações aqui houver que não tremam,
ou que ao filho de Finarfin sejam verdadeiros,
então pelo menos eu devo encontrar uns poucos
para irem comigo, não como um pobre
e rejeitado pedinte desprezado,
afastado das minhas portas para deixar a minha cidade,
o meu povo, e o meu reino e coroa!"

Ouvindo estas palavras ali rapidamente se puseram
ao seu lado dez bons guerreiros experimentados,
homens da sua casa que sempre tinham lutado
onde quer que as suas bandeiras estivessem.
Um baixou-se e levantou a sua coroa,
e disse: "Ó rei, deixar esta cidade
é agora o nosso destino, mas não perder
a tua legitima realeza. Tu deves escolher
um para ser mordomo em teu lugar."
Então Felagund sobre a cabeça
de Orodreth a pôs: " Meu irmão,
até eu regressar esta coroa é tua."
Então Celegorm não mais ficou,
e Curufin sorriu e virou-se.