A Balada de Leithian

Escrito por Aegnor. Publicado em History of Middle-Earth

V

Então os dias passaram desde o dia pesaroso;
a maldição de silêncio não mais estava
em Doriath, apesar da flauta de Daeron
e das canções de Lúthien estarem ambas mudas.
Os suaves murmúrios acordaram uma vez mais
nos bosques, as águas rugiam
diante das grandes portas dos salões de Thingol;
mas nenhum passo dançante de Lúthien caia
em erva ou folha. Pois ela desesperava,
onde tropeçando outrora, onde ferido e rasgado,
desejando-o como um sonho,
tinha Beren sentado-se junto do amortalhado leito
do Esgalduin o escuro e forte,
ela sentava-se agora e chorava numa baixa canção:
"Eternas passam as águas rolantes!
A estas o meu amor deve chegar por fim,
encantadas águas impiedosas,
uma mágoa e solidão."

O Verão passou. Nos altos ramos
ela ouve o barulho das gotas a cair,
a maré ventosa em mares de folhas,
o ranger de incontáveis árvores;
e espera sem cessar e em vão
ouvir alguém chamando uma vez mais
o querido nome pelo qual os rouxinóis
eram chamados outrora. O eco falha.
"Tinúviel! Tinúviel!"
a memória é como um dobrar de sinos,
um fraco e distante sino cantante:
"Tinúviel! Tinúviel!"

"Ó mãe Melian, diz-me
alguma parte daquilo que os teus escuros olhos vêem!
Diz com a tua magia onde os seus pés
vagueiam! Que inimigos ele encontra?
Ó mãe, diz-me, vive ele ainda
caminhando o deserto e a colina?
Ainda o Sol e a Lua sobre ele brilham,
ainda a chuva cai sobre ele, mãe minha?"

"Não, Lúthien minha filha, eu temo
que ele viva de facto em horríveis prisões.
O Senhor dos Lobos tem prisões escuras,
correntes e encantamentos cruéis e violentos,
onde preso e atado e debilitado
agora Beren sonha que tu cantas."

"Então eu sozinha devo ir ter com ele
e desafiar o horror em obscuras masmorras;
pois não há ninguém que o vá ajudar
em todo este mundo, excepto uma donzela élfica
cuja a única habilidade era a alegria e a canção,
e ambas acabaram e há muito a deixaram."

E nada disse Melian a ela,
apesar de rebeldes as palavras. Ela chorou de novo,
e correu pelos bosques como um veado caçado
com o seu cabelo flutuando e olhos de medo.
Daeron ela encontrou com coroa de fetos
silenciosamente sentado nas castanhas folhas das faias.
Na terra ela se sentou ao seu lado.
"Ó Daeron, Daeron, as minhas lágrimas," ela disse,
"agora choram pelos nossos velhos dias!
Faz-me uma música para a mágoa,
para o desespero e para o temor,
para a luz tornada escura e para o riso morto!"

"Mas para a música morta não há nota."
Daeron respondeu, e na sua garganta
os seus dedos se apertaram. No entanto a sua flauta ele tomou,
e tristemente tremendo a música surgiu;
e todas as coisas pararam enquanto aquela flauta tocava
com dedos nos buracos, e ali atentos
eles ouviam, os seus trabalhos e alegria,
a sua felicidade e a luz da terra
esqueciam; e as vozes dos pássaros falharam
enquanto a flauta de Daeron em Doriath tocava.
Lúthien não chorou por muita dor,
e quando acabou ela falou novamente:
"Meu amigo, eu tenho uma falta de amigos,
como aquele que uma longa e escura viagem prepara,
e teme a estrada, no entanto não se atreve a virar
e a olhar para trás onde as velas ardem
em janelas que ele deixou. Na noite
em frente, ele dúvida que encontrará a luz
que longe nas colinas ele procura."
E assim das palavras de Melian ela falou,
e do seu destino e desejo
de subir montanhas, e o fogo
e a ruína do reino do Norte
enfrentar, uma donzela sem elmo
ou espada, ou força de forte membro,
onde a magia se afunda e cresce fraca.
A sua ajuda ela procurava para a guiar em frente
e encontrar os caminhos para o Norte,
se ele pelo seu amor não
iria ao seu lado viajar.
"Porque razão," disse ele, "deveria Daeron ir
para o maior perigo que a terra conhece
pela saúde do mortal que roubou
o seu riso e alegria? Nenhum amor eu sinto
por Beren filho de Barahir,
nem choro por ele em horríveis masmorras,
aquele que neste bosque tem correntes que cheguem,
pesadas e escuras. Mas vós, eu juro,
eu vou defender de perigos ferozes
e mortais viagens ao Inferno."

Não mais eles falaram nesse dia, e ela
não percebeu a sua intenção. Tristemente
lhe agradeceu, e o deixou ali.
Uma árvore ela subiu, até que o límpido ar
sobre os bosques o seu escuro cabelo soprou,
e forçando longe os seus olhos pôde ver
os contornos cinzentos, fracos e baixos
de vertiginosas torres onde as nuvens passam,
as faces sul de elevações a pique
em pináculos rochosos e degraus
das Montanhas Sombrias pálidas e frias;
e vastamente as terras à sua frente rolavam.
Mas logo Daeron procurou o rei
e contou-lhe da decisão da filha,
e como a loucura a podia conduzir
à ruína, a não ser que o rei se acautelasse.
Thingol estava enfurecido, e no entanto espantado;
com admiração e um pouco de medo ele olhou
para Daeron e disse: "Verdadeiro fostes tu.
Agora para sempre haverá amizade entre nós,
enquanto Doriath durar; dentro deste reino
tu serás um príncipe da faia e olmo!"
Ele mandou chamar Lúthien, e disse:
"Ó bela donzela, o que é que te levou
a pensar na loucura e desespero
de vaguear na ruína, e viajar
de Doriath contra a minha vontade,
roubando como uma coisa selvagem que os homens matariam
nos desertos exteriores?"
"A sabedoria, pai." ela respondeu;
nem ela prometeu esquecer,
nem jurou por amor ou ameaça
a sua loucura deixar e submissamente
em Doriath a vontade do seu pai cumprir.
Só isto ela jurou, se ela tinha que ir,
então em ninguém senão nela iria agora confiar,
nenhum povo do seu pai iria persuadir
a quebrar a sua vontade ou a ajuda-la;
se ela tinha que ir, ela iria sozinha
e sem amigos enfrentar as muralhas de pedra.

Com amor irado e um pouco de temor
Thingol pediu conselhos em como a sua mais querida
guardar e proteger. Ele não prenderia
em cavernas profundas e entrelaçadas
a doce Lúthien, a sua amada donzela,
que roubada do ar empalideceria e morreria,
aquela que sempre deverá olhar para o céu
e ver o Sol e a Lua passar.
Mas perto do seu grande assento
e verde trono ali corriam os pés
de Hirilorn, a rainha das faias.
Sobre o seu triplo tronco não eram vistas
nenhuma falha ou ramo até muito alto
num brilhante verde, distante, suave,
a maior abóbada de folhas e ramos
do princípio do mundo até agora
flutuava sobre as margens do Esgalduin
e nas longas encostas das portas de Thingol.
Cinzenta era a casca dos altos pilares
e suave como seda, e longínquos e pequenos
para os olhos dos esquilos eram aqueles que andavam
aos seus pés cinzentos sobre a erva.
Agora Thingol mandou na faia,
nessa grande árvore, tão alto quanto chegassem
as suas mais altas escadas, ai construir
uma casa suspensa; e quando ele quis
uma pequena habitação de bela madeira
estava feita, e escondida nas folhas ficava
acima dos primeiros ramos. Três cantos
tinha e janelas difíceis de ver,
e pelos três troncos da Hirilorn
nos cantos estava sustida.
Ali Lúthien foi forçada a viver,
até que ficasse mais sábia e o feitiço
de loucura a deixasse. Para cima trepou
as longas escadas para a sua nova casa
entre as folhas, entre os pássaros;
não cantou nenhuma canção, não falou nenhuma palavra.
Branca cintilante na árvore subiu,
e a sua pequena porta eles a ouviram fechar.
As escadas foram tiradas e não mais
os seus pés puderam caminhar na margem do Esgalduin.

Para lá às vezes eles subiam e levavam
todas as coisas que ela necessitava ou pedia;
mas a morte era daquele, daquele que só se atrevesse
a deixar uma escada, ou rastejando ali
pusesse uma na árvore à noite;
uma guarda foi posta do entardecer à aurora
à volta dos cinzentos pés de Hirilorn
e Lúthien na prisão e abandonada.
Ali Daeron lamentando-se muitas vezes estava
com pesar pela cativa no bosque,
e melodias fazia na sua flauta
encostado contra uma cinzenta raiz.
Lúthien das suas janelas olhava
e via-o muito lá em baixo tocando,
e ela perdoava-lhe a sua palavra traidora
pois a música e o desgosto ela ouvia,
e só Daeron ela deixava
para lá da sua entrada por o pé.
No entanto longas eram as horas quando ela se sentava
e via os raios de sol a dançar e a correr
nas folhas da faia, ou observava as estrelas
espreitando em claras noites entre as barras
dos ramos da faia. E uma noite
mesmo antes da mudança da luz
um sonho ali chegou, dos Deuses, talvez,
ou da magia de Melian. Ela sonhou que
ouvia a voz de Beren sobre as colinas e charnecas
"Tinúviel" chamou, "Tinúviel".
E o seu coração respondeu: "Deixa me partir
para procurar aquele em que mais ninguém pensa!"
Ela acordou e viu o pálido luar
através das finas folhas. Tremia fragilmente
sobre os seus braços, enquanto estes ela estendia
e ali ansiosamente curvou a cabeça,
e desejou liberdade e fuga.

Agora Lúthien fez da sua ideia realidade;
e a filha de Melian de profundo conhecimento
sabia muitas coisas, sim, mais magia
que então ou agora sabem as donzelas élficas
que brilham e cintilam nas clareiras.
Ela pensou longamente, enquanto a Lua se afundava
e desaparecia, e as estrelas encolhiam,
e a aurora despertava. Por fim um sorriso
na sua cara apareceu. Ela reflectiu um pouco,
e observou o Sol da manhã a crescer,
então chamou aqueles que andavam lá em baixo.
E quando um subiu ela rogou
que ele fosse aos escuros charcos dos vaus
do frio Esgalduin, água clara,
a mais clara água fria e pura
buscar para ela. "À meia-noite,"
ela disse, "numa taça de prata branca
deve ser retirada e trazida a mim
sem palavra falada, silenciosamente."
A outro ela pediu para lhe trazer vinho
num jarro de ouro onde flores se entrançam -
"e cantando deixa-o vir até mim
ao meio-dia, cantando alegremente."
Outra vez ela falou: "Ide agora, eu rogo,
a Melian a rainha, e digam:
"a tua filha muito cansada as horas
lentamente passando vê no seu quarto;
uma roda de fiar ela pede que tu lhe mandes."
Então Daeron chamou: "Eu peço-te, amigo,
sobe e fala com Lúthien!"
E sentada na sua janela então,
ela disse: "Meu Daeron, tu tens habilidades,
para além da tua música, muitas colunas
e muitas ferramentas de madeira esculpida
eu te vi fazer com sabedoria. Era bom,
se tu me fizesses um pequeno tear
para ficar no canto do meu quarto.
Os meus dedos ociosos iriam fiar e tecer
um padrão de cores, da manhã e da tarde,
do Sol e da Lua e da luz inconstante
entre as folhas de faia agitando-se levemente."
Isto Daeron fez e então perguntou-lhe:
"Ó Lúthien, Ó Lúthien,
o que é que tu vais tecer? O que é que vais fiar?"
"Um maravilhoso fio, e enrolar ai
uma potente magia, e um feitiço
eu vou tecer dentro da minha teia que o Inferno
nem todos os poderes das Trevas poderão quebrar."
Então Daeron espantou-se, mas não falou
nenhuma palavra a Thingol, apesar do seu coração
temer o escuro propósito da arte dela.

E Lúthien agora foi deixada sozinha.
Uma magica canção aos Homens desconhecida
ela cantou, e cantando então o vinho
com água misturou três vezes nove;
e enquanto no dourado jarro estavam
ela cantou uma canção de crescimento e do dia;
e enquanto estavam na prata branca
outra canção cantou, de noite
e trevas sem fim, de alturas
elevadas às estrelas, e voo
e liberdade. E todos os nomes das coisas
mais altas e longas que há na Terra ela canta:
as madeixas dos anões Barbas Longas; a cauda
de Draugluin o pálido lobisomem;
o corpo de Glaurung a grande serpente;
os vastos picos que se elevam
acima dos fogos na sombra de Angband;
a corrente Angainor que antes do Fim
para Morgoth será pelos Deuses forjada
de aço e tormento. Nomes ela procurou,
e cantou de Glend a espada de Nan;
de Gilim o gigante de Eruman;
e por último e mais longo nomeou então
o infindável cabelo de Uinen,
a Senhora do Mar, que corre
por todas as águas abaixo do céu.

Então ela lavou a sua cabeça e cantou
um tema de sono e de repouso,
profundo, insondável e escuro
tão escuro como o sombrio cabelo de Lúthien -
cada fio era mais esbelto e mais fino
que os fios do entardecer que se entrançam
em delgadas teias na erva passageira
e em flores fechadas assim que o dia passa.
Agora longe e longo crescia o seu cabelo,
e caia aos seus pés, e vagueava ali
como charcos de sombra no chão.
Então de Lúthien um sono se apoderou
deitou-se na cama e dormiu,
até que a manhã através das janelas apareceu
escassa e fraca. E então ela acordou,
e o quarto estava cheio com um fumo
e com as névoas matinais, e profundamente
ela ali ficou deitada afogada em sono.
Olhai! o seu cabelo pelas janelas saia
nos ares da manhã, e escuro crescia
flutuando acima dos cinzentos pilares
de Hirilorn ao raiar do dia.

Então às apalpadelas ela encontrou a sua pequena tesoura,
e cortou o cabelo em redor das orelhas,
e perto o cortou da cabeça,
encantadas madeixas, fio por fio.
Depois disso cresceram lentamente uma vez mais,
ainda mais escuros que antes.
E só agora estava o seu trabalho começando:
longamente esteve a fiar, longamente fiou;
e apesar de com arte élfica tecer,
longo foi o seu trabalho. Se os homens procurassem
chama-la, gritando lá debaixo,
"Não preciso de nada," ela respondia, "vão!
Quero ficar na cama, e só dormir
eu agora desejo, pois acordada choro."

Então Daeron temeu, e com espanto
chamou-a lá debaixo; mas durante três dias
ela não respondeu. Do escuro cabelo
ela teceu uma teia como uma névoa
numa noite sem lua, e dai fez
uma capa de negro esvoaçante como a sombra
debaixo das grandes árvores, um vestido mágico
que estava encharcado com sonolência,
encantado com um feitiço mais poderoso
que o vestido de Melian naquele vale
onde antigamente Thingol vagueou
debaixo da escura e estrelada cúpula
que paira acima do mundo.
E agora esta capa à sua volta dobrou,
e escondeu as vestimentas de branco cintilante;
o seu manto azul com brilhantes jóias
como estrelas de cristal, os lilios de ouro,
foram tapados e escondidos; e de lá rolavam
vagos sonhos e um leve sono
caindo sobre ela, que suavemente se espalhava
por todo o ar. Então rapidamente ela pega
nos fios não usados; destes ela faz
uma esbelta corda de fios entrançados
ainda longa e forte, com as suas mãos
ela lança-a através da abertura
da Hirilorn. Agora, que toda a sua arte
e trabalho acabou, ela olha através
da sua pequena janela virada para Norte.

Já a luz nas árvores
desce vermelha, e o entardecer ela vê
chegar suavemente pelo chão lá em baixo,
e agora ela murmura suave e lentamente.
Cantando claramente para baixo ela deita
o seu longo cabelo, até que chega por fim
da sua janela ao escuro chão.
Os homens lá muito em baixo ouvem o som;
mas o sonolento fio flutuava e balançava agora
acima dos seus guardas. A sua conversa parou,
eles ouviram a sua voz e caíram
subitamente com um cativante feitiço.

Agora vestida como uma nuvem ela pende;
para baixo pela corda de cabelo ela balança
tão leve como um esquilo, e andando,
andando, ela dança, e quem pode dizer
que caminhos ela tomou, que pés élficos
deixam pegadas dançando rapidamente?