A Balada de Leithian

Escrito por Aegnor. Publicado em History of Middle-Earth

III - Da Vinda de Beren para Doriath; mas primeiro
é contado o encontro de Melian e Thingol

Ali à muito tempo nos Dias Antigos
antes da voz ser ouvida ou pisados os caminhos,
o assombro do silêncio ensombrava ainda
os estrelados anoiteceres do bosque de Nan Elmoth.
Em Dias Antigos que à muito estão esquecidos
uma luz por entre as sombras brilhou,
uma voz foi no silêncio ouvida:
o súbito cantar de um pássaro.
Ali Melian chegou, a Senhora cinzenta,
e escuros e longos os seus cabelos deitou
debaixo do seu prateado assento cintado
e debaixo dos seus pés prateados.
Os rouxinóis com ela vieram,
a quem a sua canção ela ensinou,
os quais docemente nas suas brilhantes mãos
tinham cantado nas terras imortais.
De lá errantemente vagueando uma vez
de Lórien ela atreveu-se a trepar
as imortais montanhas
de Valinor, na base das quais batem
as ondas do Mar Sombrio.
Saindo assim livremente,
para aos jardins dos Deuses não mais
voltar, mas em costa mortal,
como um brilho antes da aurora ela vagueou,
cantando os feitiços de clareira em clareira.

Um pássaro na floresta de Nan Elmoth
piou, e ao ouvi-lo Thingol parou
surpreendido; então muito longe ele ouviu
uma voz mais bela do que a mais bela das aves,
uma voz de notas como claro cristal
como um fio de vidro prateado longínquo.

Do povo e família não mais ele pensou;
da missão que trouxe os Eldar
do longínquo Cuivínen,
de terras que ficam para lá do mar
não mais ele quis saber, esqueceu tudo,
atraído somente por aquele distante chamamento
até que profundamente na sombria floresta de Nan Elmoth
perdido e sem ajuda ficou.
E ai viu-a, bela e élfica:
Ar-Melian, a Senhora cinzenta,
silenciosa como as árvores sem vento,
com névoa até aos joelhos,
e no seu rosto longínqua a luz
de Lórien cintilava na noite.
Nenhuma palavra ela disse; mas passo a passo,
uma alta sombra, direita à sua face
avançou o rei do manto prateado,
o alto Elu Thingol. No anel
de árvores expectantes ele tomou-a pela mão.
Um momento face a face ficaram
sozinhos, debaixo do céu estrelado,
enquanto os anos das estrelas na terra passavam
e na floresta de Nan Elmoth as árvores
cresceram escuras e altas. O murmúrio dos mares
subindo e descendo na costa
e a trompa de Ulmo não mais ele ouviu.

Mas longamente o seu povo procurou em vão
o seu senhor, até que Ulmo chamou outra vez,
e então com desgosto eles marcharam em frente,
deixando os bosques. Para portos cinzentos
na costa ocidental, a ultima
longa costa de terra mortal, eles passaram,
e daí foram transportados pelo Mar
para Aman, o Reino Abençoado, para ficarem
no sempre verde Ezellohar
em Valinor, em Eldamar.


Assim Thingol não navegou nos mares
mas viveu entre a terra das árvores,
e Melian ele amou, divina,
cuja voz era potente como o vinho
que os Valar bebem em salões dourados
onde flores desabrocham e fontes desaguam;
mas quando ela cantava era um feitiço,
e nenhuma flor se agitava nem fonte jorrava.
Um rei e Rainha assim viveram longamente,
e Doriath estava cheia de canções,
e todos os Elfos que perderam o seu caminho
e nunca encontraram a baía ocidental,
as brilhantes muralhas da sua longa casa
junto dos mares cinzentos e branca espuma,
que nunca caminharam na terra dourada
onde as torres dos Valar se erguem,
todos estes foram reunidos no seu reino
debaixo da faia, carvalho e olmo.

Em dias posteriores quando Morgoth fugiu
da ira e ergueu uma vez mais a sua cabeça
e Coroa de Ferro, e o seu grande trono
debaixo das fumegantes montanhas
fundou e fortificou outra vez,
então lentamente o medo e as trevas cresceram:
a Sombra do Norte que todos
os Povos da Terra iria escravizar.
Os senhores dos Homens a ajoelhar-se ele obriga,
os reinos dos Reis Exilados
ataca com guerra imparável:
nos seus últimos portos na costa
eles vivem, ou em fortalezas muradas com medo
defendendo as fronteiras temerosas,
até que cada uma cai. Ainda assim reina lá ainda
em Doriath para lá da sua vontade
o Rei Cinzento e imortal Rainha.
Nenhum mal no seu reino é visto;
nenhum poder a sua grandeza pode ainda ultrapassar;
lá ainda existe riso e erva verde,
lá as folhas estão acesas pelo branco Sol,
e muitas maravilhas começam.

Lá ia agora no Reino Guardado
debaixo da faia, debaixo do olmo,
ali com pés leves corria agora no verde
a filha do rei e da rainha:
dos mais velhos de Arda nascida
com a beleza da alvorada élfica
e a única criança destinada pelo nascimento
a andar com vestimentas da Terra
Daqueles que descendem dos que começaram
antes do mundo do Elfo e do Homem.

Para lá das fronteiras de Arda muito longe
ainda brilhavam as Legiões, estrelas e estrelas,
memoriais do seu longo trabalho,
realizações de Visão e de Canção;
e quando debaixo da sua antiga luz
na Terra por baixo estava uma noite sem nuvens,
a musica em Doriath acordou,
e ai debaixo dos ramos do carvalho,
ou sentado nas castanhas folhas das faias,
Daeron o escuro com coroa de fetos
tocava nas suas flautas com arte élfica
insuportável aos corações mortais.
Nenhum outro músico houve,
nenhuns outros lábios ou dedos vistos
tão habilidosos, dito isto em tradição élfica,
excepto Maglor filho de Fëanor,
harpista esquecido, cantor amaldiçoado,
que novo quando Laurelin ainda desabrochava
para a lamentação sem fim passou
e no mar sem fundo se atirou.
Mas Daeron no encanto do seu coração
ainda vivia e tocava na noite estrelada,
até que uma noite de Verão chegou,
como ainda os harpistas élficos cantam.
Então alegremente a sua flauta tocava;
a erva era suave, o vento estava parado,
o entardecer demorava-se fraco e frio
em formas sombrias sobre os charcos
debaixo dos ramos de árvores adormecidas
silenciosas e quietas. Pelos seus joelhos
uma névoa prateada brilhava pálida,
e fantasmagóricas traças em frágeis asas
voavam para a frente e para trás. Ao lado do lago
apressando-se, agitando, elevando-se claramente
a flauta chamou. Então ela chegou,
tão pura e súbita como uma chama
de perlífico branco as sombras trespassando,
a sua morada de donzela em brancos pés abandonando;
e como quando as estrelas do Verão se elevam
radiantes para os escuros céus,
a sua luz viva tudo transformava
em fulgurante prata assim que ela passava.
Ali agora ela andava com passo élfico,
dobrando-se e inclinando-se na sua graça,
um pouco relutante; então começou
a dançar, a dançar: em confusão corria
estonteante, e uma névoa de branco
estava envolta no seu rodopiante voo.
O vento assobia na água cintilante,
e a trémula folha e flor eram vergadas
com orvalho de diamante, enquanto cada vez mais rápido
e mais rápido andavam os seus pés alados.

O seu longo cabelo como uma nuvem caía
sobre os seus brilhantes braços levantados,
enquanto que lentamente sobre as árvores a Lua
na glória da plenitude
erguia-se, e na clareira aberta
a sua luz serena e clara deitava.
Então subitamente os seus pés pararam,
e através dos entrelaçados bosques ali entoou,
metade sem palavras, metade em língua élfica,
a sua voz elevou-se numa alegre canção
que dos rouxinóis aprendera
e na sua alegria de viver a tinha tornado
numa bela escravizadora de corações,
solteira, imortal, entristecida.

Ir Ithil ammen Eruchín
menel-vîr síla díriel
si loth a galadh lasto dîn!
A Hîr Annûn gilthoniel,
le linnon im Tinúviel!

Ó Lúthien mais bela das elfas
que prodígio moveu as tuas danças então?
Nessa noite que magia da Elficidade
encantada a tua voz possuía?
Tal maravilha não mais existirá
na Terra ou a Oeste para lá do mar,
ao entardecer ou amanhecer, pela noite ou dia
ou debaixo do espelho da Lua!
Em Neldoreth foi posto um feitiço;
a música no silêncio caiu,
pois Daeron jogou a sua flauta fora,
desdenhada na erva a deixou,
num encantamento preso como pedra ficou
com o coração partido na floresta atenta.
E ainda ela cantava acima da noite,
como luz regressando à luz
elevando-se do mundo subterrâneo
quando subitamente ali chegou um lento
e vagaroso passo de pesados pés nas folhas,
e das trevas na beira
da brilhante clareira uma forma saiu
com mãos a tactear, como que se em dúvida
ou cego, e enquanto tropeçando passava
sob a Lua uma sombra lançou
torcida e escura. Então do alto
como quando a cotovia cai a pique do céu
a canção de Lúthien baixou e cessou;
mas Daeron do feitiço libertado
acordou para o medo, e gritou em desespero:
"Foge Lúthien, ah Lúthien vai!
Um mal anda nos bosques! Vai!"
Então ele fugiu no seu terror
sempre chamando-a para segui-lo,
até que muito longe o seu grito era fraco
"Ah foge, ah foge agora Lúthien".
Mas silenciosa ela ficou no vale
imóvel, pois nunca o medo havia conhecido,
como uma esbelta e solitária flor ao luar,
branca e quieta com rosto elevado,
esperando, até que o medo chegou até ela, totalmente sozinha,
vendo aquela forma com cabelo emaranhado
e longa sombra que parava ali.
Então de repente ela desapareceu como um sonho
em esquecida escuridão, um brilho
em apressadas nuvens, pois ela tinha saltado
por entre os altos abetos, e espreitou
por baixo de uma grande planta com folhas
grandes e escuras, cujo tronco em feixes
sustentava umas cem belas sombrinhas;
nos seus brancos braços e ombros nus
a sua vestimenta pálida, e nos seus cabelos
as bravas rosas brancas cintilavam,
tudo estava com branco luar espalhado
em brilhantes poças sobre o chão.
Então o selvagem olhou preso de espanto
as árvores silenciosas, o chão deserto;
ele cegamente tacteou através da clareira
para as escuras árvores de sombra cercadas,
e, enquanto ela olhava com olhos ocultos,
tocou o seu suave braço em doce surpresa.
Como a agitada traça que de mortal sono
em abrigo escuro ou agitados arbustos fundos
ela correu rapidamente, para a frente e trás
com a sabedoria que os dançarinos élficos sabem
sobre os troncos das árvores ela traçou
um caminho fantástico. De muito longe
encantado, selvagem e desamparado
Beren chegou tropeçando, ferido e rasgado:
Esgalduin o rio élfico,
no qual entre a sombra das árvores brilham
as estrelas, corria forte diante dos seus pés.
Algum secreto caminho ela encontrou, e fugindo
passou por ele e não mais foi vista,
e deixou-o esquecido na margem.
"Escura a divisora corrente passa por mim!
A isto chega por fim a minha longa estrada -
a esfomeadas e solitárias,
impiedosas águas encantadas."

Um Verão terminou, um Outono brilhou,
e Beren nos bosques habitou,
tão selvagem e cauteloso como a fauna
que subitamente acorda na sussurrante manhã,
e salta de sombra em sombra, e foge
da luminosidade do Sol, e ainda assim vê
todos os invisíveis movimentos na floresta.
Os quentes murmúrios em tempos bons,
os zumbidos de muitas asas, os chamamentos
de muitos pássaros, o rufar da queda
da súbita chuva sobre as árvores,
as ventosas ondas em mares de folhas,
o coaxar nos pântanos, ele ouviu;
mas a canção do mais belo pássaro não
trouxe alegria ou conforto ao seu coração,
um vagabundo surdo que vivia aparte;
que procurava sem descanso e em vão
ouvir e ver aquelas coisas outra vez:
uma canção mais bela que o rouxinol,
uma maravilha ao pálido luar.

Um Outono passou, um Inverno caiu
nas secas folhas em bosques e clareiras;
as faias nuas estavam tristes e cinzentas,
e vermelhas as suas folhas debaixo delas jaziam.
De pálidas cavernas os húmidos olhos da Lua
as brancas névoas que da terra se elevam
para esconder o Sol do dia seguinte e pingam
todo o cinzento dia de cada ponta dos ramos.
Pela manhã ou tarde ele ainda a procura;
pelo dia ou noite em frios vales,
nem ouve um só som mas o lento batimento
em folhas encharcadas dos seus próprios pés.

O vento do Inverno soprava a sua trompa;
o véu de névoa está rasgado e cortado.
O vento morre; os coros de estrelas
saltam no silencioso céu em fogo,
cuja luz chega com frio cortante e pura
através de cúpulas de claro cristal gelado.

Uma faísca através das escuras árvores,
um penetrante brilho de luz ele vê,
e ali ela dança completamente sozinha
em cima de um livre cabeço de pedras!
O seu manto azul com jóias brancas
apanhava todos os raios de luz gelada.
Ela brilhava com fria e branca chama,
enquanto dançando descia a colina,
e passando diante do seu atento olhar silencioso,
um brilho como de estrelas em chamas.
E flocos de neve levantaram-se debaixo dos seus pés,
e um pássaro, subitamente, tardio e doce,
piou assim que ela passou.
Um gelado ribeiro para uma borbulhante canção
acordou e riu; mas Beren parou
ainda preso pelo encantamento na floresta.
A luz dela desvaneceu-se e a noite
fechou-se sobre a brilhante neve branca.

Depois disso numa verde colina
ele viu muito longe a bela donzela
de brancos membros e jóias brilhantes
muitas e muitas vezes em noites de luar;
e a flauta de Daeron acordou uma vez mais,
e suavemente ela cantou como antigamente.
Então perto ele se escondeu atrás das árvores,
e a mágoa misturou-se com o alívio.

Uma noite chegou quando o Inverno morria;
então sozinha ela cantou e chorou
e dançou até à aurora da Primavera,
e cantou alguma coisa mágica e selvagem
que o agitou, até que subitamente quebrou
os encantamentos que o prendiam, e ele acordou
da doce loucura e bravo desespero.
Ele levantou os braços para o ar da noite,
e lá dançou sem preocupações, rápido,
encantado, com pés encantados.
Ele apressou-se em direcção à verde colina,
aos ágeis membros, à bela dançarina;
ele saltou sobre a verdejante colina
os seus braços com amor por encher:
os seus braços estavam vazios, e ela fugiu;
fugindo, fugindo os seus brancos pés se apressam.
Mas enquanto ela abalava ele rápido chegou
e chamou-a com o suave nome
dos rouxinóis em língua élfica,
que todos os bosques agora subitamente tocavam:
"Tinúviel! Tinúviel!"
E clara a sua voz foi como um sino;
os seus ecos teceram um cativante feitiço:
"Tinúviel! Tinúviel!"
A sua voz de tanto amor e espera cheia
que um momento ela parou, o medo acabou;
só um momento; como uma chama
ele saltou direito a ela enquanto ela parava
e apanhou e beijou aquela donzela élfica.

Enquanto o amor ali acordou com doce surpresa
a luz das estrelas tremeu nos seus olhos.
Á! Lúthien! Á! Lúthien!
mais bela que qualquer criança dos Homens;
Ó! encantadora donzela da Elficidade,
que loucura possuis agora!
Á! ágeis membros e sombrios cabelos
e grinalda de brancas flores;
Ó! estrelado diadema e brancas
pálidas mãos debaixo do pálido luar!
Ela deixou os seus braços e fugiu
mesmo ao raiar do dia.