A Balada de Leithian

Escrito por Aegnor. Publicado em History of Middle-Earth

XIII

Para a vasta e ecoante escuridão,
mais horrível do que muitos túmulos escavados
em labirínticas pirâmides
onde a eterna morte se esconde,
descendo terríveis corredores que serpenteiam
para uma escura ameaça oculta;
para as profundas raízes da montanha,
devorada, atormentada, perfurada e escavada
por um agitado verme nascido das pedras;
descendo para as profundezas eles foram sozinhos.
O arco com cinzenta sombra
eles viram afastar-se e diminuindo desaparecer;
o rumor das tempestuosas forjas cresceu,
um ardente vento ali soprou
sujos vapores elevando-se de grandes buracos.
Grandes formas ali estavam como trolls esculpidos
enormemente escavados na rocha partida
para formas que dos mortais zombavam;
monstruosas e ameaçadoras, enterradas,
em todas as esquinas elas silenciosamente olhavam
com inconstantes olhares que saltavam e morriam.
Ali martelos tocavam, e línguas ai gritavam
com sons de pedras a bater; ai chorando
fracamente de muito lá em baixo, clamavam e falhavam
entre o entrechocar do ferro
as vozes dos torturados cativos de Angband.

Alto se elevou um tumulto de riso áspero,
abominável e no entanto sem remorso;
alto chegou um cantar rude e feroz
como espadas de terror a perfurar almas.
Vermelho era o brilho através das portas abertas
como luz do fogo reflectida em chãos de bronze,
e subindo os arcos como torres se elevava
para a escuridão invisível, para a grande cúpula abobadada
envolta em tremidos fumos e vapores
apunhalada com inconstantes raios de luz.
Ao salão de Morgoth, onde uma horrível festa
ele organizava, bebendo o sangue de bestas
e as vidas de Homens, eles tropeçando chegaram:
os seus olhos estavam confusos com o fumo e chamas.
Os pilares, erguendo-se como monstruosas costas
para suportar os imensos andares da terra,
eram demoniacamente esculpidos, talhados com arte
igual à que enche os pesadelos:
eles subiam como árvores para o ar,
cujos troncos estão enraizados em desespero,
cuja sombra é morte, cujo o fruto é maldito,
cujos ramos são como serpentes envoltas em dor.
Debaixo deles armados com lança e espada
estava a hoste de Morgoth com armaduras negras:
o fogo nas laminas e nos escudos
era vermelho como o sangue num campo de batalha.
Debaixo de uma monstruosa coluna espreitava
o trono de Morgoth, e os condenados
e moribundos arquejavam no chão:
o seu horrível descanso para os pés, o roubo da guerra.

À sua volta sentavam-se os seus terríveis capitães,
os Balrogs com jubas de fogo,
mãos vermelhas e na boca presas de aço;
lobos devoradores estavam deitados aos seus pés.
E sobre a hoste do inferno ali brilhava
com uma radiância fria, clara e esvanecida,
os Silmarils, as gemas do destino,
aprisionadas na coroa do ódio.

Olhai! através dos horríveis portais sombrios
subitamente uma sombra esvoaçou e fugiu;
e Beren arquejou – ele estava sozinho,
com a rastejante barriga no chão:
uma forma de morcego, silenciosa, voou
para onde os grandes ramos dos pilares cresciam,
entre os fumos e os vapores.
E como se na margem de escuros sonhos
uma imperceptível sombra invisível cresce
para nuvens de uma vastidão incomoda, e desgraças
são sentidas, indescritíveis, rolando como uma maldição
sobre a alma, então naquela escuridão
as vozes param, e o riso morre
lentamente para silêncios que muitos olham.
Uma duvida oculta, um medo disforme,
tinha entrado nas suas temíveis cavernas,
e crescia, e elevava-se sobre os amedrontados,
fazendo ouvir no coração as sonoras trompas
dos deuses esquecidos. Morgoth falou,
e como um trovão os silêncios quebrou:
“Sombra, desce! E não penses
iludir os meus olhos! Ou em vão te afastares
do olhar do teu Senhor, ou procurares esconderijos.
A minha vontade por ninguém pode ser desafiada.
Nem esperança nem fuga aqui aguardam
aqueles que sem autorização passam a minha porta.
Desce! antes da raiva te rebentar as asas,
sua tola, fraca, coisa com forma de morcego,
e no entanto sem morcego lá dentro! Vem para baixo!”

Planando lentamente sobre a sua coroa de ferro,
relutantemente, tremendo e pequena,
Beren ali viu a sombra cair,
e poisar diante do hediondo trono,
uma fraca e medrosa coisa, sozinha.
E quando para ai o grande Morgoth deitou
o seu escuro olhar, ele tremendo foi,
com barriga no chão, com frio suor molhado
sobre o seu pelo, e rastejando se encolheu
debaixo da escuridão daquele assento,
debaixo da sombra daqueles pés.

Tinúviel falou, um agudo, fino, som
perfurando aqueles silêncios profundos:
“Uma legitima viajem aqui me trouxe;
das escuras mansões de Sauron eu parti,
da sombra de Taur-nu-Fuin eu viajei
para estar diante da tua grande cadeira!”

“O teu nome, seu mendigo estridente, o teu nome!
Notícias suficientes de Sauron de lá chegaram
ainda à pouco. Que quer ele agora?
Porquê mandar tal mensageiro como tu?”

“Thuringwethil eu sou, aquela que lança
uma sombra sobre a face aterrorizada
da pálida lua na condenada terra
de Beleriand.”

“Mentirosa és tu, pois não tecerás
enganos diante dos meus olhos. Agora deixa
a tua forma e falsa vestimenta, e fica
revelada, e entregue na minha mão!”

Ali aconteceu uma lenta e tremenda transformação:
a vestimenta de morcego escura e estranha
foi solta, e lentamente encolheu e caiu
tremendo. Ela ficou revelada no inferno.
Sobre os seus esbeltos ombros pendia
o seu cabelo sombrio, e à sua volta
a sua sombria capa, onde brilhava palidamente
a luz das estrelas apanhada no magico véu.
Vagos sonhos e suaves sonos
caíam docemente dai, em fundas masmorras
um odor roubado de flores élficas
de vales élficos onde chuvas de prata
pingam suavemente através dos ares do entardecer;
e à volta ali rastejavam com olhares gananciosos
escuras formas com terríveis sons esfomeados.

Com braços elevados e cabeça baixa
então suavemente ela começou a cantar
um tema de sono e sonolência,
errante, tecido com feitiços mais fortes
do que as canções que em antigos vales
Melian outrora o crepúsculo encheu,
profundo, insondável e calmo.

Os fogos de Angband estremeceram e morreram,
consumindo-se até à escuridão; através dos grandes
e esburacados salões ali rolavam desfraldadas
as sombras do sub mundo.
Todos as movimentos pararam, todos os sons acabaram,
excepto o vaporoso bafo de Orc e besta.
Um fogo na escuridão ainda persistia:
os vigilantes olhos de Morgoth brilhavam;
um som os silêncios quebrou:
a triste voz de Morgoth falou.

“Então Lúthien, então Lúthien,
uma mentirosa como todos as Elfos e Homens!
No entanto bem-vinda, bem-vinda, ao meu salão!
Eu tenho um uso para cada escravo.
Que novidades de Thingol no seu buraco
espreitando timidamente como um rato?
Que nova loucura está na sua mente,
para não conseguir guardar os seus cegos filhos
de se perderem assim? Ou não conseguirá imaginar
melhor plano para os seus espiões?”

Ela vacilou, e parou a canção.
“A estrada,” ela disse, “foi selvagem e longa,
mas Thingol não me mandou, nem sabe
que caminhos a sua rebelde filha tomou.
No entanto todas as estradas e caminhos levam
ao Norte por fim, e aqui por necessidade
eu tremendo cheguei com humilde semblante,
e aqui diante do teu trono eu me curvo;
pois Lúthien tem muitas artes
para o doce conforto dos corações reais.”

“E aqui por necessidade tu ficarás
agora, Lúthien, com alegria ou dor –
ou dor, o merecido castigo para todos,
para o rebelde, ladrão, e altivo escravo.
Porque não deverias tu partilhar o nosso destino
de desgosto e trabalho? Ou deveria eu poupar
os teus esbeltos membros e frágil corpo
ao terrível tormento? Qual a utilidade
de aqui tu cantares as tuas murmurantes canções
e riso tolo? Fortes menestréis
estão ao meu serviço. No entanto eu vou dar
um breve adiamento, um tempo para viver,
pouco tempo, apesar de custosamente adquirido,
a Lúthien a bela e clara,
um belo brinquedo para as horas ociosas.
Em preguiçosos jardins muitas flores
como tu estão os amorosos deuses habituados
a beijar docemente, e a deita-las então magoadas,
perdendo a sua fragrância, para debaixo dos pés.
Mas nós aqui raramente encontramos tais belezas
entre os nossos antigos e árduos trabalhadores,
da ociosidade dos deuses barrados.
E quem não quereria provar o doce mel
nos lábios, ou esmagar com os pés
o suave tecido fino de pálidas flores,
aliviando como os deuses as infindáveis horas?
A! amaldiçoados sejam os Deuses! Ó feroz fome,
Ó cegante sede e fogo eterno!
Por um momento tu pararás, e saciarei
o teu ferrão com este petisco que aqui está!”

Nos seus olhos o fogo para chamas foi aumentado,
e em frente ele esticou a sua mão de bronze.
Lúthien como uma sombra desviou-se para o lado.
“Não é assim, ó rei! Não é assim!” ela gritou,
“que os grandes senhores ouvem os humildes pedidos!
Pois cada menestrel tem o seu tom;
e alguns são fortes e outros são suaves,
e cada um levaria a sua canção ao alto,
e cada um deveria ser ouvido por um tempo,
apesar de rude a nota, e leve a palavra.
Mas Lúthien tem hábeis artes
para o doce conforto dos corações reais,
Agora ouvi!” E as suas asas ela apanhou
agilmente subindo, e rápida como o pensamento
esgueirou-se do seu alcance, e planando em círculos,
flutuando diante dos seus olhos, ela teceu
uma intrincada dança alada, e apressou-se
à volta da cabeça coroada de ferro.
Subitamente a sua canção começou novamente;
e suavemente chegou pingando como um orvalho
descendo de onde estava no alto daquele salão abobadado
a sua voz encantada, magica,
e cresceu para murmurantes torrentes de prata
pálida caindo em escuros lagos de sonhos.

Ela deixou a sua esvoaçante vestimenta cair,
enredada com feitiços de sono,
enquanto à volta do escuro vazio ela voava e girava.
De parede em parede ela virava e planava
numa tal dança como nunca Elfo ou fada
tinham antes feito, nem desde esse dia fizeram;
do que a rápida andorinha, do que o morcego
que ao anoitecer esvoaça na escurecida casa,
mais silenciosamente, mais estranha e bela
do que as sílfides donzelas do Ar
cujas asas no celestial salão de Varda
com rítmicos movimentos caem e batem.
Cai o encolhido Orc, e o orgulhoso Balrog;
todos os olhos se fecharam, todas as cabeças se curvaram;
os fogos dos corações e mandíbulas esmoreceram,
e sempre como um pássaro ela vibrou
por cima de um esquecido mundo sem luz
por um êxtase encantado possuída.

Todos os olhos se fecharam, excepto aqueles que brilhavam
debaixo das sobrancelhas de Morgoth, e olhavam
lentamente com espanto as maravilhas à sua volta,
e lentamente eram enredados num encantamento.
A sua vontade vacilou, o seu fogo falhou,
e enquanto debaixo das sobrancelhas eles se desvaneciam,
os Silmarils com luz viva
eram claramente acesos, e num brilho crescente,
brilharam como as estrelas que no Norte
acima dos vapores da terra saltam em frente.

Então flamejando eles subitamente caíram,
para baixo, sobre o chão do inferno.
A escura e grande cabeça estava curvada;
como o topo da montanha debaixo de uma nuvem
os ombros cederam, a vasta forma
caiu, como quando numa imensa tempestade
enormes penhascos em ruína deslizam e caem;
e prostrado ficou Morgoth no seu salão.
A sua coroa ali rolou sobre o chão,
uma roda de trovões; então todo o som
morreu, e um silencio cresceu tão fundo
como se o próprio coração da Terra dormisse.

Debaixo do vasto e vazio trono
as serpentes jaziam como pedras torcidas,
os lobos como corpos sujos estavam espalhados;
e ali jazia Beren desmaiado:
nenhum pensamento, nenhum sonho nem cega sombra
se moviam na escuridão da sua mente.
“Vem, vem! A hora chegou,
e o poderoso senhor de Angband está caído!
Acorda, acorda! Pois nós dois encontramo-nos
sozinhos diante do horrível assento.”
Esta voz chegou às profundezas
onde ele jazia afogado em poços de sono;
uma mão suave e fresca como flores
passou sobre a sua face, e o calmo lago
de sonolência vacilou. Logo despertou
a sua mente; dali rastejou.
A pele de lobo ele joga para o lado
e põe-se sobre os pés, e longamente
olhando por entre a escuridão sem som
ele arquejou como um vivo fechado num túmulo.
Ali ao seu lado ele sentiu-a diminuir,
sentiu Lúthien tremendo cair,
a sua força e magia estavam fracas e gastas,
e rapidamente os seus braços a seguraram.

Diante dos seus pés ele viu espantado
as gemas de Fëanor, que flamejavam
com branco fogo cintilando na coroa
do poderoso Morgoth agora caído.
Para mover aquele vasto elmo de ferro
ele não teve forças, e dai aterrorizado
ele lutou com dedos para soltar
a recompensa da sua desesperada busca,
até que lhe vem ao coração a lembrança
daquela fria manhã quando ele lutou
com Curufin; então do seu cinto
a faca sem bainha ele tira, ajoelha-se,
e tenta a sua dura ponta, frieza cortante,
sobre a qual em Nogrod canções tinham rolado
dos armeiros anões cantando lentamente
ao som dos martelos à muito tempo.
Ferro como madeira macia cortava
e malha como tecido de lã rasgava.
Em garras de ferro a gema estava presa;
a faca as cortou, pois elas não eram nada
senão frágeis pregos numa mão morta.
Olhai! a esperança da Elficidade,
o fogo de Fëanor, Luz da Manhã
antes do sol e da lua terem nascido,
assim do cativeiro saiu por fim,
do ferro para mão mortal passou.
Ali Beren estava. A jóia ele segurava,
e a sua pura radiância lentamente jorrou
através de carne e osso, e tornou-se em fogo
com a cor do sangue vivo. Um desejo
então tomou o seu coração de desafiar a maldição,
e das profundezas do Inferno levar
todas as três gemas imortais, e salvar
a luz élfica da sepultura de Morgoth.
De novo ele se baixou; com a faca ele forçou;
através de banda e garra de ferro cortou.
Mas à volta dos Silmarils um escuro Destino
estava tecido: eles estavam enredados em ódio,
e ainda não tinha chegado a sua hora destinada
em que arrancados do poder caído
de Morgoth num mundo arruinado,
recuperados e perdidos, eles seriam atirados
num abismo ardente e no mar sem fundo,
esquecidos enquanto o Tempo existir.
O aço anão da manhosa lamina
pelos traiçoeiros ferreiros de Nogrod feita
partiu-se; então tilintando com aguçado e claro som
em duas se quebrou, e como uma lança
ou errante seta a testa roçou
da cabeça dormente de Morgoth, e encheu
de medo os seus corações. Pois Morgoth rosnou
com voz sepulcral, como o vento que geme
em esburacadas cavernas encurralado e preso.
Ali chegou uma respiração; um som ofegante
movia-se pelos salões, enquanto Orc e besta
voltavam aos seus sonhos de festas hediondas;
no incomodo sono Balrogs agitavam-se,
e muito acima foi vagamente ouvido
um eco que nos túneis rolava,
um uivo de lobo longo e frio.