A Balada de Leithian

Escrito por Aegnor. Publicado em History of Middle-Earth

XI

Outrora grande e suave uma planície estendia-se,
onde o Rei Fingolfin orgulhosamente liderou
os seus exércitos de prata no verde,
os seus cavalos brancos, as suas lanças afiadas;
os seus elmos altos de aço forjados,
os seus escudos brilhando como a lua.
Ali trompas cantavam longamente e alto,
e desafiavam tocando a nuvem
que jazia na torre norte de Morgoth,
enquanto Morgoth esperava pela sua hora.

Rios de fogo ao fim da noite
no Inverno frio e branco
sobre a planície se espalharam, e alto
o vermelho se reflectiu no céu.
Das muralhas de Hithlum eles viram o fogo,
o vapor e fumo em espirais
a elevar-se, até que na vasta confusão
as estrelas foram sufocadas. E assim pereceu,
o grande campo, tornado em pó,
areias movediças e ferrugem amarela,
em dunas sedentas onde muitos ossos
jaziam partidos entre as pedras estéreis.
Dor-na-Fauglith, Terra da Sede,
eles depois a chamaram, desolação maldita,
a sepultura sem tecto infestada de corvos
de muitos belos e muitos bravos.
Nisto as pedregosas encostas olhavam
do norte da Mortífera Floresta sob a Noite,
de sombrios pinheiros com grandes asas,
emplumadas de negro e tristes, como muitos mastros
de navios da morte envolvidos em negro
lentamente avançando numa brisa mortal.

Dai Beren inflexível agora olha
através das dunas e areias movediças,
e vê ao longe as sombrias torres
onde a medonha Thangorodrim assenta.
O esfomeado cavalo ali curvado estava,
orgulhoso garanhão élfico; temia o bosque;
e sobre a assombrada e fantasmagórica planície
nenhum cavalo voltaria a correr.
"Bom cavalo de mau mestre," disse ele,
"despedimo-nos aqui! Levanta a tua cabeça,
e vai para o vale do Sirion,
por onde viemos, passando a pálida ilha
onde Sauron reinou, para águas doces
e ervas longas debaixo dos teus pés.
E se não mais encontrares Curufin,
não fiques triste! pois livre com veado e corça
irás vaguear, deixando trabalhos e guerra,
e sonha que estás de volta a Valinor,
donde veio outrora a tua poderosa raça
dos terrenos cercados por montanhas de Tauros."

Ainda ali Beren se sentava, e ele cantou,
e alto o seu solitário canto soou.
Apesar dos Orcs poderem ouvir, ou lobos a rondar,
ou qualquer uma das maléficas criaturas
que se escondem e olham da sombra
de Taur-nu-Fuin, ele não se preocupou,
pois pensava deixar a luz e o dia,
coração sombrio, amargo, feroz e certo da morte.

"Despeço-me aqui, das folhas das árvores,
com a vossa musica na brisa matinal!
Adeus folha, flor e erva
que vêem as estações a passar;
das águas murmurantes sobre as pedras,
e de lagos que silenciosamente estão sós!
Adeus montanha, vale e planície!
Adeus vento, gelo e chuva,
névoa e nuvem, e ar do céu;
das estrelas e lua tão cegamente belas
que ainda olharão do céu
para a grande terra, quer Beren morra -
quer Beren viva, ainda que fundo,
fundo, de onde não chega daqueles que choram
nenhum triste eco, jazer e sufocar
no eterno escuro e fumo.
Adeus doce terra e céu do Norte,
eternamente abençoados, pois aqui se deitou,
e aqui com ágeis pernas correu,
debaixo da Lua, debaixo do Sol,
Lúthien Tinúviel,
mais bela do que a língua mortal pode exprimir.
Mesmo que o mundo caísse todo em ruínas,
e fosse dissolvido e arremessado de novo,
desfeito, para o antigo abismo,
mesmo assim a sua feitura valera a pena,
pela alvorada, pelo crepúsculo, pela terra e pelo mar,
e por Lúthien ter durante algum tempo existido!"

A sua espada ele levantou alta na mão,
e dasafiante sozinho ali ficou
diante da ameaça do poder de Morgoth;
e sem medo amaldiçoou-o, salão e torre,
principio, fim, coroa e raiz;
então virou-se para descer a encosta
abandonando o medo, esquecendo a esperança.

"Á, Beren, Beren!" chegou um som,
"quase que demasiado tarde eu te encontrava!
Ó orgulhosa e destemida mão e coração,
ainda não é adeus, ainda não nos separamos!
Não é assim que os de raça élfica
esquecem o amor que abraçaram.
Um amor é meu, como um grande poder
é teu, o de abalar portão e torre
da morte com um desafio fraco e frágil
que ainda dura, e que não vai falhar
nem ceder, invencívelmente atirado
às fundações do mundo.
Amado tolo! fugir para procurar
tal propósito; em poder tão fraco
não confiar, pensando em salvar
do amor a tua amada, aquela que abraça a sepultura
e o tormento mais depressa do que à guarda
de amáveis intenções se deixa ficar, barrada,
sem asas e impotente para o ajudar
para cujo suporte o seu amor foi feito!"

Assim de volta a ele chegou Lúthien:
eles encontraram-se para além dos caminhos dos Homens;
à beira do terror estavam
entre o deserto e a floresta.

Ele olhou para ela, a sua cara levantada
debaixo dos seus lábios num doce abraço:
"Pela terceira vez amaldiçoo o meu juramento," ele disse,
"que te trouxe para debaixo da sombra!
Mas onde está Huan, onde está o cão
a quem te confiei, a quem eu liguei
pelo amor a ti para te manter longe
de perigosas viagens ao inferno?"

"Eu não sei! Mas o coração do bom Huan
é sensato, mais gentil do que tu,
sombrio senhor, mais aberto a suplicas!
No entanto longamente eu lhe supliquei,
até ele me trazer, como pudesse,
pelo teu rastro - um bom cavalo
Huan daria, com passo gracioso:
tu haverias de rir ao ver nos correr,
como um Orc num lobo a cavalgar como fogo
noite após noite através de charcos e pântanos,
através de desertos e florestas! Mas quando eu ouvi
o teu claro canto - (sim, todas as palavras
sobre Lúthien que alguém imprudentemente gritou,
e ouvindo o mal ferozmente desafiar) -
ele pôs me no chão, e apressou-se para longe;
mas para onde foi eu não sei."

Não esperaram muito, pois Huan chegou,
com respiração ofegante, olhos como chamas,
com medo que aquela que ele deixou
de ajudar fosse caçada por alguma coisa má
antes dele voltar. Agora ali ele pôs
diante dos pés deles, tão escuras como sombras,
duas horríveis formas que ele tinha ganho
naquela alta ilha no Sirion:
uma grande pele de lobo - o seu selvagem pelo
era longo e entrançado, escuro era o feitiço
que encharcava a horrível capa e pele,
o manto de lobisomem de Draugluin;
a outra era uma vestimenta de morcego
com grandes asas digitadas, com farpas
como unhas de ferro na extremidade de cada articulação -
tais asas apareciam enquanto escuras nuvens se estendiam
contra a lua, quando no céu
da Mortífera Floresta sob a Noite esguichando voavam
os mensageiros de Sauron.

"Que trouxestes tu,
bom Huan? Qual é o teu pensamento oculto?
De troféus de bravura e de grandes feitos,
quando tu vencestes Sauron, que necessidade
há aqui no deserto?" Isto Beren falou,
e uma vez mais as palavras em Huan despertaram:
a sua voz era como os profundos sinos
que tocam nas cidadelas de Valmar:

"De uma bela gema tu tens que ser ladrão,
de Morgoth ou de Thingol, relutante ou de bom grado;
tu tens aqui de escolher entre o amor e o juramento!
Se não queres o juramento quebrar,
então Lúthien deve morrer
sozinha, ou a morte contigo desafiar
ao teu lado, marchando no teu destino
que escondido diante de ti espera.
Desesperada a busca, mas ainda não louca,
a não ser que tu, Beren, corras assim vestido
com vestes mortais, aspecto mortal,
insensato e desaconselhado, para com a morte dançar.
Olhai! bom era o conselho de Felagund,
mas pode ser melhorado, se o conselho
de Huan vocês se atreverem a tomar,
e rapidamente uma horrível transformação fizerem
para formas amaldiçoadas, sujas e vilãs,
do lobisomem da Ilha do Feiticeiro,
e do monstruoso morcego impiedoso
com fantasmagóricas asas e garras do inferno.
A tão escura situação, ai de mim! são trazidos
vocês que eu amo, por quem eu lutei.
Nem mais longe com vocês posso eu ir -
quem é que viu alguma vez um grande cão
em amizade ao lado de um lobisomem
para os sombrios portões de Angband a caminhar?
No entanto o meu coração diz-me que à porta
o que lá encontrarem, será o meu destino
eu também ver, apesar de para aquela porta
os meus pés nunca mais me levarem.
Escura é a esperança e turvos os meus olhos,
eu não vejo claramente o que o futuro trás;
no entanto talvez de volta o vosso caminho os traga
para além de toda a esperança para Doriath,
e para esse lugar, talvez, nós os três nos encaminharemos,
e nos encontremos outra vez antes do fim."

Eles ficaram maravilhados por ouvirem
a sua poderosa voz tão profunda e clara;
então subitamente ele desapareceu da vista deles
mesmo ao cair da noite.

O seu temível conselho então eles tomaram,
e as suas próprias formas graciosas esqueceram;
a pele de lobisomem e asas de morcego
prepararam-se para vestir, arrepiados.
Magia élfica Lúthien teceu,
temendo que a suja vestimenta carregada de maldade
a uma horrível loucura conduzisse os seus corações;
e ali ela forjou com artes élficas
uma forte defesa, um cativante poder,
cantando até à meia-noite.

Logo que vestiu a capa de lobo,
Beren caiu no chão babando-se,
língua vermelha e esfomeado; mas com
uma dor e anseio nos olhos,
um olhar de horror quando ele vê
uma forma de morcego rastejando aos seus joelhos
e arrastando as suas asas enrugadas.
Então uivando sob a Lua ele salta
nas quatro patas, rápido, de pedra em pedra,
da colina para a planície - mas não sozinho:
uma escura forma roçou a encosta descendo,
e pairando esvoaçou sobre ele.

Cinzas, poeira e dunas sedentas
queimadas e secas sob a Lua,
debaixo do frio e rápido ar
peneirento e suspirante, desolado e nu;
com pedras fustigadas e areia sufocante,
com ossos espalhados foi construída essa terra,
sobre a qual agora corre com pele poeirenta
e língua pendurada uma forma do inferno.
Muitas quentes léguas ainda jaziam diante deles
quando o doentio dia apareceu outra vez;
muitas sufocantes milhas ainda se estendiam pela frente
quando a noite fria uma vez mais se espalhou
com sombra duvidante e som fantasmagórico
que assobiava e passava sobre dunas e montes.
Uma segunda manhã com nuvens e vapor
nasceu, quando tropeçando, cego e fraco,
uma forma de lobo chegou cambaleando
e alcançou os contrafortes do Norte;
sobre as suas costas ali dobrada jazia
uma coisa enrugada que olhava o dia.

As rochas estavam erguidas como dentes de osso,
e garras que arranhavam de bainhas abertas,
ao lado da triste estrada
que em frente levava a essa habitação
muito dentro da escura Montanha
com túneis de medo e fortes portões.
Eles rastejaram para dentro de uma ameaçadora sombra,
e encolhidos no escuro deitaram-se.
Longamente se esconderam ao lado do caminho,
e tremeram, sonhando com Doriath,
com riso e musica e ar limpo,
e em folhas flutuantes belos pássaros a cantar.
Eles acordaram, e sentiram o som retumbante,
o eco batedor muito fundo
tremia debaixo deles, o vasto rumor
das forjas de Morgoth; e com medo
eles ouviram o bater de pés pesados
que ferrados com ferro caminhavam por aquela estrada:
os Orcs iam para o roubo e guerra,
e os capitães Balrogs marchavam à sua frente.

Eles agitaram-se, e sob as nuvens e sombras
ao entardecer avançaram, e não mais pararam;
como coisas velozes numa escura missão
subindo as longas encostas com pressa eles foram.
Sempre com abruptos precipícios nos lados,
onde aves de carniça se sentavam e gritavam;
e abismos negros com fumo elevando-se,
onde apareciam enroscadas formas de serpentes;
até que por fim nessa grande escuridão,
pesada como uma pendente maldição,
que cai aos pés das Thangorodrim
como um trovão na raiz das montanhas,
eles chegaram, como que a um escuro pátio
cercado com grandes torres, fortaleza sobre fortaleza
em precipícios fortificados, a essa última planície
que se abre, abismal e insana,
diante da ultima mais alta muralha
dos incomensuráveis salões de Bauglir,
debaixo da qual na escuridão espera
a gigantesca sombra das suas portas.