Carta 310 - Sobre o objectivo da vida

Escrito por Olórin. Publicado em Cartas de J. R. R. Tolkien

Para a menina Unwin, 20 Maio 1969

[Acerca do objectivo da vida]

 

Lamento o atraso da minha resposta. Espero que chegue a tempo. Que grande pergunta! Acho que as «opiniões», sejam de quem forem, não servem de muito sem uma explicação da forma como se formaram, mas, nesta questão, não é fácil ser breve. 
O que significa realmente a pergunta? É preciso definir Objectivo e Vida. É uma pergunta puramente humana e moral ou refere-se ao Universo? Pode querer dizer: Como devo tentar utilizar o tempo de vida que me é dado? OU: Que objectivo/desígnio servem os seres vivos ao viverem? No entanto, a resposta à primeira pergunta só será possível após considerarmos a segunda. 
Parece-me que as perguntas sobre o «objectivo» só são realmente úteis quando se referem aos objectivos ou objectos conscientes dos seres humanos ou às utilizações das coisas por eles concebidos e criados. Quanto às «outras coisas», o seu valor reside nelas próprias: elas SÃO, existiriam mesmo que nós não existíssemos. Mas, uma vez que existimos, uma das suas funções é serem contempladas por nós. Se subirmos a escala da existência até «outras coisas vivas», como, por exemplo, uma pequena planta, esta apresenta forma e organização: um «padrão» reconhecível (com variações) nos seus parentes e descendentes, e isso é profundamente interessante, pois essas são «outras» coisas e não fomos nós que as fizemos. Parecem derivar de uma fonte de invenção incrivelmente mais rica do que a nossa. 
A curiosidade humana em breve coloca a questão COMO: como foi que isto passou a existir? E uma vez que o «padrão» reconhecível sugere o desígnio, pode passar a colocar a questão PORQUÊ? Mas o PORQUÊ, neste sentido, pode apenas referir-se a uma MENTE. Apenas uma Mente pode ter objectivos em qualquer sentido ou relacionados com os objectivos humanos. Por isso, a pergunta «Porque é que a vida, a comunidade de seres vivos, apareceu no Universo físico?» introduz imediatamente a pergunta: será que existe um Deus, um Criador/Designer, uma Mente com que as nossas mentes sejam aparentadas (tendo origem nela) de modo a tornar-se, em parte, inteligível? 
Chegamos, assim, à religião e às ideias morais que dela derivam. Quanto a isso, direi apenas que as «morais» têm duas faces, devido ao facto de sermos indivíduos (como, em certo grau, todos os seres vivos), mas não vivermos, nem podermos viver, em isolamento, e de termos uma ligação com todas as outras coisas, mais próxima da ligação absoluta à nossa própria espécie humana. 
Assim, as morais deverão ser um guia para os nossos objectivos humanos, para a conduta das nossas vidas: (a) a forma como os nossos talentos individuais podem ser desenvolvidos sem que os desperdicemos ou façamos mau uso deles; e (b) sem prejudicar os outros membros da nossa espécie ou interferir com o seu desenvolvimento. (Para além e acima de tudo isto, encontra-se o sacrifício pessoal por amor). 
Mas estas são apenas respostas à pergunta menor. Para a maior, não existe resposta, pois essa exige um conhecimento completo de Deus, o que é inatingível. Se perguntarmos porque é que Deus nos incluiu no seu Desígnio, só poderemos responder: porque sim. 
Se não acreditarmos num Deus pessoal, não será possível perguntar nem responder à pergunta: «Qual é o objectivo da vida?". A quê ou a quem dirigiríamos a pergunta? Mas, uma vez que num estranho canto (ou estranhos cantos) do Universo, as coisas se desenvolveram com mentes que fazem perguntas e tentam dar-lhes resposta, poderia dirigir-lhe uma destas peculiares questões. Se eu fosse uma dessas mentes, poderia ousar dizer (falando com absurda arrogância pelo Universo): «Sou como sou. Não há nada a fazer. Podem continuar a tentar descobrir o que sou, mas nunca conseguirão. E não sei porque querem saber. 
Talvez o desejo de saber apenas por saber esteja relacionado com as orações que alguns de voz dirigem àquele a quem chamam Deus. Nos seus momentos mais elevados, estas parecem simplesmente louvá-Lo por existir, tal como é, e por ter feito aquilo que faz tal como o fez.» 
Aqueles que acreditam num Deus, num Criador pessoal, não pensam que o próprio Universo é digno de ser louvado, embora estudá-lo aplicadamente possa ser uma das formas de O honrar. E se, como criaturas vivas, fazemos parte dele, as nossas ideias sobre Deus e as nossas formas de as expressarmos serão, em larga medida, extraídas da contemplação do mundo que nos rodeia. (Embora exista também uma revelação dirigida simultaneamente a todos os homens e a cada pessoa em particular). 
Assim, pode-se dizer que o principal objectivo da vida, para cada um de nós, é aumentar, de acordo com a nossa capacidade, o nosso conhecimento de Deus, recorrendo a todos os meios de que dispomos para que esse conhecimento nos conduza a orar e a dar graças. Fazer o que dizemos em Gloria in Excelsis: Laudamus te, benedicamus te, adoramus te, gloroficamus te, gratias agimus tibi propter magnam gloriam tuam. Louvamos-te, chamamos-te santo, adoramos-te, proclamamos a tua glória, agradecemos a grandiosidade do teu esplendor. 
E, em momentos de exaltação, podemos apelar a todas as coisas criadas para que se juntem ao nosso coro, dando-lhes voz, como no Salmo 148 e no Cântico das Três Crianças em Daniel 2: LOUVAI O SENHOR [...] todas as montanhas e montes, pomares e florestas, coisas rastejantes e aves que voam. 
Isto é demasiado longo, e também demasiado curto, para responder a tal questão. 
Com os melhores cumprimentos, 
J. R. R. Tolkien. 

Esta carta foi traduzida por Ana Margarida Pereira Marcos e cedida por Mellon-fa